Samsa Film
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Desde a filmagem do indicado ao Oscar 'Collective', quase nada mudou na Romênia

Documentário revisita incêndio mortal de 2015 que derrubou o governo romeno e expôs o catastrófico sistema de saúde. Mas nem todos os problemas ficaram no passado

Kit Gillet, The New York Times

12 de abril de 2021 | 20h00

BUCARESTE, Romênia - No dia 30 de outubro de 2015, um incêndio atingiu uma casa noturna na capital romena, Bucareste, deixando 64 mortos. Quase seis anos depois, um documentário sobre o incêndio e suas trágicas consequências foi indicado a duas categorias no Oscar.

Seria a primeira vitória do Oscar para o país do Leste Europeu, mas o sucesso do filme é agridoce para muitos romenos, devido ao seu tema doloroso - principalmente porque muitos acreditam que as coisas não mudaram o suficiente desde 2015.

Collective, que foi indicado para os prêmios de melhor documentário e melhor filme estrangeiro, acompanha um grupo de jornalistas investigativos de um jornal esportivo enquanto eles descobrem verdades dolorosas a respeito do sistema de saúde romeno.

“A situação era tão terrível que basicamente deveria ter sido um grande escândalo em toda a Europa”, disse Alexander Nanau, o diretor do filme.

Os eventos na noite do incêndio e suas consequências imediatas repercutiram por toda a Romênia, derrubando o governo da época - liderado pelo Partido Social Democrata - e mobilizando a sociedade civil para realizar protestos em larga escala.

Nos anos seguintes, no entanto, houve mais escândalos políticos e poucas reformas no sistema de saúde. A pandemia do novo coronavírus também exigiu grandes demandas do sistema de saúde romeno em dificuldades. Dois incêndios em enfermarias de pacientes com covid-19 nos últimos seis meses deixaram pelo menos 20 pessoas mortas.

Muitos romenos se perguntam o quanto realmente mudou desde o lançamento de Collective.

Embora trágico, o incêndio na casa noturna é apenas o ponto de partida do filme. O incêndio acabou com a vida de 27 vítimas imediatamente, mas 64 pessoas acabariam morrendo, muitas delas, vítimas de um sistema de saúde inundado de corrupção e disposto a esconder a dolorosa verdade das vítimas e de suas famílias.

Do lado de fora de um dos principais hospitais de Bucareste, Nanau relembrou: “Era basicamente em frente a este hospital que o ministro da saúde sempre ficava rodeado por médicos dizendo ‘Podemos tratar as vítimas de queimaduras segundo os padrões mais elevados’”.

No entanto, como os jornalistas descobriram, a unidade de queimados nem estava pronta para ser usada na época, disse Nanau. “É incrível que eles tenham tido coragem de mentir para todas essas pessoas dizendo que seus filhos estavam sendo operados na unidade de queimados mais moderna, quando, na verdade, ela estava fechada.”

Os jornalistas também descobriram que o desinfetante usado em hospitais de todo o país estava sendo diluído, a ponto de ser em grande parte ineficaz, provavelmente resultando em muito mais mortes. O dono da empresa envolvida provocou a própria morte batendo o carro contra uma árvore depois que a verdade foi revelada.

O documentário mostra em tempo real a reação dos jornalistas depois que um informante lhes envia imagens de um hospital em que vermes rastejavam na ferida de uma vítima de queimadura.

O filme foi comparado a Spotlight: Segredos Revelados e Todos os Homens do Presidente, e em uma crítica para o New York Times no final do ano passado, Manohla Dargis descreveu Collective como um "documentário impressionante" que não oferece "nenhum momento em que você possa respirar aliviado, com a certeza de que as coisas terríveis que assistiu na tela finalmente acabaram.”

Para as pessoas na Romênia, no entanto, muito do que é mostrado na tela é dolorosamente familiar.

Catalin Tolontan, então editor-chefe do jornal Gazeta Sporturilor, é um dos principais protagonistas de Collective. Antes do documentário, “recebíamos de 10 a 15 mensagens por dia do público, com furos ou informações”, disse ele em entrevista. “Depois do filme, recebíamos de 70 a 80 por dia.”

Tedy Ursuleanu, que sofreu queimaduras graves na cabeça e no corpo e teve os dedos amputados em consequência do incêndio, é uma das personagens mais fortes do filme.

Em entrevista, ela disse que não foi uma decisão difícil deixar os cineastas acompanhá-la, mas que assistir ao filme foi uma experiência dolorosa. “Quando eu vi algumas das cenas, o impacto foi como se eu tivesse vivido aqueles momentos novamente”, disse Tedy. "Eu comecei a chorar. Eu precisei sair [do cinema] para me recompor.”

Tedy disse acreditar que não houve avanços suficientes nos anos seguintes à filmagem do documentário. “Mudanças ocorreram, mas são poucas em comparação com as necessidades que temos aqui”, disse ela. “Infelizmente, tragédias como esta podem acontecer facilmente de novo, porque mesmo agora as medidas não são respeitadas.”

Na metade do documentário, “Collective” apresenta um jovem ministro da saúde reformista, Vlad Voiculescu, que é trazido como parte de um governo tecnocrata de vida curta.

Voiculescu e sua equipe enfrentam forte resistência enquanto tentam trazer maior transparência ao sistema de saúde, embora tenham que aceitar que o sistema foi o culpado por muitas mortes.

Em uma entrevista recente, Voiculescu, que foi nomeado novamente como ministro da Saúde no ano passado, disse que o que mais lhe frustrou foi que em seu retorno ele encontrou uma instituição que estava “ainda mais colapsada do que antes”. Agora, Voiculescu está mais focado em lidar com o novo coronavírus do que em reformar o sistema de saúde romeno.

“Collective”, que apareceu em plataformas de streaming no final do ano passado, teve uma forte repercussão entre o público de todo o mundo, especialmente em um momento em que a pandemia tornou os cuidados com a saúde uma questão central globalmente.

Nanau, um diretor romeno que passou grande parte de sua vida na Alemanha antes de voltar para seu país natal em 2015, tem um histórico de produção de documentários poderosos. Seu filme anterior, Toto and His Sisters, acompanhou a vida de três adolescentes abandonados e levados a cuidar de si mesmos em uma das áreas mais pobres de Bucareste, depois que sua mãe foi presa por porte de drogas.

Mas com Collective, ele parece ter encontrado um assunto que chegou em um momento perfeito.

O impacto do filme também foi sentido fora da Romênia. No início deste ano, na Mongólia, quando uma mulher com covid-19 foi transferida de hospital sob baixas temperaturas poucos dias após o parto, os jornalistas começaram a fazer perguntas implacáveis ao governo, aparentemente encorajando uns aos outros no Facebook ao fazer referências a Collective, que um canal de televisão local havia mostrado dias antes. Seguiram-se protestos e o primeiro-ministro do país acabou renunciando.

Andrei Gorzo, um crítico de cinema romeno, disse que era mais difícil para os telespectadores romenos ver Collective como uma história moralmente clara de algumas pessoas boas lutando para mudar o sistema deteriorado. Em vez disso, afirmou, o filme captura um momento específico na Romênia, quando os eleitores da classe média urbana acreditaram em uma nova geração de políticos, jovens e imaculados, que poderiam limpar a política romena. “É impossível para mim assistir ao filme sem reconhecer que muito desse romantismo azedou desde então”, disse ele.

Outros são mais otimistas. “A geração que vai mudar as coisas aqui não é a geração que tem mais de 35 anos”, disse Nanau. “É a geração mais jovem, e essas são as pessoas que escrevem para nós, que temos encontrado nos cinemas.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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