Desconforto marca abertura do Festival de Berlim

A abertura da Berlinale, como os alemães chamam o Festival de Cinema de Berlim, foi marcada por um clima de desconforto. Não deixou de causar impacto a vinheta da Miramax, o braço do cinema dito independente da Disney, com o skyline de Nova York ao fundo, anunciando um filme que tem comoponto de partida um tema delicado nos dias de hoje: um atentadoterrorista.Com direção de Tom Tykwer, o mesmo de Corra, Lola,Corra, Heaven abriu a mostra competitiva tendo comoprincipal trunfo um roteiro inédito de Krzystof Kieslowski, emparceria com um antigo colaborador, Krzystof Piesiewicz. No fimda sessão, uma revista severa foi feita no Berlinale Palast,sede do festival, onde fica armazenado todo o material daimprensa. Jornalistas foram impedidos de passar e, quandofinalmente liberados, tiveram de ser revistados por umainfinidade de seguranças com detectores de metais."O filme foi rodado um ano antes dos atentados",ressaltou Tom Tykwer no fim da coletiva que concedeu logo após aexibição do filme, junto com toda a sua equipe. "Quando tudoaconteceu, o filme já estava pronto", defendeu-se. "A idéianão era fazer um filme sobre terrorismo", ressaltou. O diretorcomentou que ficou muito "tocado" pela simplicidade doroteiro. "É um filme inacreditavelmente intenso", disse CateBlanchett, que encarna a personagem principal de Heaven.Tom Tykwer abriu mão de qualquer veleidade clípica erespeitou, com inteligência e sensibilidade, o roteiro doinesquecível mestre polonês. "É um filme adorável", aprovou namesma coletiva Krzystof Piesiewicz. "Não vejo grandes mudanças,apenas umas três ou quatro coisas", completou.O atentado terrorista do início é apenas um mote para sefalar da condição humana. Cate Blanchett vive uma professora deinglês que vê muitas vidas serem destruídas por um traficante dedrogas em Turim, na Itália, inclusive o próprio marido. Elaentão decide fazer justiça com as próprias mãos: planejaexplodir o escritório do traficante, que sai ileso do atentado.A bomba acaba matando uma faxineira do prédio e um pai com duasfilhas dentro do elevador. Ela acaba presa e, na delegacia depolícia, desperta compaixão, logo depois ternura e em seguidaamor num jovem policial, vivido por Giovanni Ribisi, que fazparticipações especiais na série Friends. O ator lembra ojovem voyeur de Não Matarás.Heaven é um filme sobre a compaixão, a delicadeza depequenas emoções e sensações, que revelam a generosidade do serhumano e o indefectível e sempre tão necessário humanismo deKieslowski. É também um filme sobre a vingança, a raiva, aincompreensão, sobre impulsos humanos que tanto podem enveredarpela insanidade de um atentado terrorista quanto para umahistória de amor. Uma história de amor movida por um impulso deum jovem em querer mudar a vida de uma mulher que matou pessoasinocentes movida pela vingança. O pano de fundo é um mundocarente de utopias, oferecendo poucas alternativas à juventudepara purgar uma ansiedade incontrolável em querer mudar omundo.Dor humana - Kieslowski continua nos mostrando que háuma grandeza imensa na dor humana. E que atos extremados, algunsheróicos, como o do jovem policial, são pulsões que percorrem osatos e pensamentos de todos nós, seres humanos. Heavenfocaliza essas réstias de heroísmo. E Tom Tykwer respeitou aselipses do roteiro, a sua simplicidade genuinamente humana, eprojetou um filme rico em tons de sépia, como a cena em que ojovem casal faz amor como duas silhuetas tendo ao fundo apaisagem ocre e ensolarada da Toscana.Heaven é cheio de loucas escapadas do jovem casal. Aúltima chegou a arrancar risos da platéia quando os doisconseguem entrar num helicóptero da polícia. No entanto, a belaimagem do helicóptero desaparecendo no céu como um ponto de fugadissipou toda e qualquer cobrança de verossimilhança. Verdade,no cinema, e na arte em geral, é sinônimo de poesia, uma poesiaque surpreende, desconcerta e arrebata. Um destaque especialpara a trilha com músicas de Arvo Pärt.

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