Descoberta da humanidade

Alemão vive o robô Prometheus, novo filme de Ridley Scott, que volta ao universo da ficção científica

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

02 de junho de 2012 | 16h00

Ele é alto, magro, tem um sorriso cativante. Michael Fassbender, de 37 anos, não precisou de mais do que cinco anos e 15 filmes para ser impor como um dos atores mais carismáticos e talentosos da atualidade. Os grandes papéis em filmes importantes sucedem-se vertiginosamente - Bastardos Inglórios, de Tarantino; Hunger e Shame, de Steve McQueen; Um Método Perigoso, de Cronenberg. Em Londres, Fassbender fala de sua carreira e, em especial, de David, robô que interpreta em Prometheus, de Ridley Scott, que volta à ficção cientifica com o que não deixa de ser uma prequel para seu Alien, de 1979. O filme estreia no dia 15 no Brasil.

 

 

Quando Alien surgiu, você tinha 2 anos. Lembra-se de quando o assistiu pela primeira vez?

 

Foi na pré-adolescência, em vídeo, com amigos. Ficamos todos siderados com aquela mulher poderosa, a Ripley de Sigourney Weaver. Desde então vi Alien várias vezes e o filme nunca perde o impacto. É sombrio, fascinante.

 

Depois de perder peso (Hunger) e ficar nu (Shame), qual era o desafio de Prometheus?

 

Eu me senti lisonjeado e também animado, nervoso, para fazer o papel. E não queria decepcionar Ridley. O homem é um fenômeno. Existem diretores com um olho para o visual, outros que arrancam de seus atores interpretações antológicas. Ridley consegue ser uma combinação de ambos. O papel do robô era algo completamente novo. Logo no início, meu criador diz que David é perfeito, mas não tem alma. Ele é lógico, preciso, ambíguo, complexo. No início, ele é uma espécie de mordomo responsável pela segurança da tripulação da nave, que hiberna, à espera de chegar a seu destino. Inspirei-me muito em um clássico dos anos 1960, O Criado, de Joseph Losey, em que o mordomo se sobrepõe ao patrão. É um dos filmes mais próximos da perfeição que conheço.

 

Seus movimentos iniciais são rígidos, mas depois ficam mais relaxados. Como você conseguiu isso, considerando-se que o filme não é feito em progressão ?

 

Muito bem assinalado. Pensei justamente na economia de movimentos, tomando por modelo o atleta olímpico Greg Louganis. Ele, como todos os atletas, utiliza somente os músculos de que necessita, para os fins que pretende atingir. No início, aprendi a controlar meu corpo e a ficar, digamos, neutro. Os movimentos realmente começam rígidos. Depois evoluem, de forma a confundir o espectador.

 

Chegamos a pensar que o verdadeiro robô da história é a personagem de Charlize Theron.

 

Ridley queria justamente confundir as certezas do espectador, tirá-lo da sua zona de conforto. Foi o que ele fez em Alien e Blade Runner e os filmes viraram clássicos da ficção cientifica. Assim como no filme de Losey, me inspirei na robô de Sean Young em Blade Runner, que pensa que é humana e desenvolve emoções, cria um ego, um coração. Todo o processo criativo do filme e do personagem foi muito estimulante. O roteiro tem a citação inicial a Lawrence da Arabia e eu sugeri a Ridley que David se penteasse como Peter O’Toole. Também sugeri um sotaque sul-africano, não me pergunte por que, mas achei que seria bom. Depois de uma semana, fazendo as cenas com dois sotaques, voltei ao meu. É o tipo de liberdade que Ridley dá a seus atores, à espera de que você tenha o clique. Esse robô talvez tenha sido meu personagem mais difícil.

 

Você fala no lado escuro da missão. Qual é?

 

Nunca participei de uma filmagem tão secreta. Ridley tomou todas as precauções para impedir que nada vazasse e os segredos da narrativa permanecessem ocultos. A missão tem um objetivo aparente. Busca respostas para indagações filosóficas. Essa é a agenda comum, mas os personagens possuem ambições individuais...

 

Ridley Scott tem a fama de perfeccionista…

 

Não é só fama. Ele diz que foi por economia, porque criar o visual do filme digitalmente sairia mais caro, mas não sei. Ele buscou locações na Islândia, lugares nunca vistos, construiu todos os interiores, aqueles sets gigantescos, na verdade para controlar o que o espectador ia ver. Ele se ocupa de todos os detalhes. Cor, poeira, uma pedra fora do lugar. Tem o olho de um pintor.

 

Como anda sua vida de ator?

 

Trabalhar com todos esses grandes diretores, criando personagens tão complexos, foi um desafio estimulante. Mas agora quero fazer algo bem diferente. Uma comédia romântica. Estou desenvolvendo o projeto. Meus amigos não colocam fé, Acham um pouco arriscado. Quero mostrar que estão errados.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.