Descentralizar, diversificar, saídas para o cinema

Os filmes brasileiros raramente ultrapassam a marca de 8% de ocupação do mercado de cinema no Brasil. A marca recorde de 22%, registrada em 2003, é, portanto, um ponto fora da reta. Como deixar de ser estrangeiro em seu próprio País? Para Geraldo Moraes, presidente do Congresso Brasileiro de Cinema, que realiza sua sexta edição até domingo, em Recife, a solução passa, necessariamente pelo fortalecimento das formas alternativas de produção, distribuição e exibição de filmes brasileiros. ?É preciso um projeto de desenvolvimento para a produção independente, com metas a curto e médio prazo?, defende. ?Além disso, um projeto de exportação de filmes brasileiros e a ampliação do financiamento do BNDS da expansão do circuito alternativo são cruciais para esta mudança?, acrescenta Moraes que neste ano entrega o cargo para um novo presidente a ser anunciado no encerramento do CBC, no domingo.Esta é uma das questões prioritárias do evento. As outras passam pela discussão da convergência das novas mídias. ?Temos de discutir como a TV digital, o computador e até mesmo o celular vai mudar a forma de se ver e de fazer cinema. Não podemos esperar mais?, finaliza. Ontem, Manoel Rangel e Gustavo Dahl, diretores da Agência Nacional de Cinema (Ancine) também participaram das discussões sobre as perspectivas do cinema e do audiovisual no Brasil e na América Latina e discursaram sobre as novas metas oficiais para financiamento do cinema nacional. Na mira destas novas metas, hoje, sexta-feira, foi dia de apresentar e discutir experiências alternativas de produção, distribuição e exibição. A bem-sucedida experiência da ABPITV, que reúne mais de cem produtoras independentes de televisão brasileiras e tem realizado oficinas de capacitação, aprimoramento profissional, representado o País em vários dos mais importantes eventos do ramo no exterior, foi apresentada por Marco Altberg, dirigente da ABPITV. José Araripe, diretor do CTAv (Centro Técnico do Audiovisual) falou dos planos da entidade para 2006 e o jornalista e diretor Nelson Hoineff afirmou com categoria que o aprimoramento da TV digital brasileira, cujo modelo operacional será escolhido em definitivo em fevereiro, passa necessariamente por uma revolução tecnológica. Já Mário Borgneth, assessor especial do Ministério da Cultura, representou a Secretaria do Audiovisual e apresentou as metas do órgão para o setor cinematográfico em 2006. ?Entre as nossas premissas de base, está a descentralização dos investimentos e o apoio à produção independente. Para isso, atuaremos em três níveis: no fomento à regionalização da produção, no investimento em vários formatos e gêneros e na descentralização dos investimentos os diferentes elos da cadeia produtiva, passando, claro, pelos históricos gargalos da distribuição e da produção.? Em um ponto, todos os participantes até agora concordam. Uma das formas mais eficientes de ocupar os outros 92% do mercado de exibição nacional que é ocupado por filmes estrangeiros passa, sem dúvida, pelo fortalecimento destas experiências alternativas. ?Temos que tornar esta economia informal mais lucrativa, mais presente na vida do País e fortalecer, assim, o mercado como um todo, da produção à distribuição?, afirmou Moraes. Rangel concorda, mas defende que o investimento a perder de vista, sem garantia alguma de retorno financeiro, deveria ser revisto. ?Em todo o mundo funciona diferentemente do Brasil. Até na Argentina e na França, que têm tradição em filmes de arte, há interesse no retorno do investimento feito nas produções.? As decisões sobre as discussões serão conhecidas no domingo e, mais que meras considerações, serão transformadas em novos projetos efetivos de investimento na diversidade brasileira, na convergência das mídias (cruciais para a democratização do acesso ao cinema e a outros produtos culturais audiovisuais) e na descentralização do fazer cinema no País.

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