"Descalços no Parque" é relançado em DVD

Foi um dos momentos mais bonitos dafesta do Oscar deste ano, marcada pela dupla vitória de HalleBerry e Denzel Washington, que provou que "black isbeautiful". Como o talento não tem cor, um wasp - branco,anglo-saxão e protestante - subiu ao palco do Kodak Theatre parafazer um dos discursos mais emocionantes daquela noitememorável. A fala de Robert Redford, homenageado com um Oscarespecial, mostrou como (e o que) pensam os liberaisnorte-americanos. Foi um apelo ao entendimento e ao diálogouniversais.O jovem Redford pode ser visto agora em Descalços noParque. A comédia que Gene Saks adaptou da peça de Neil Simonestá saindo em DVD da Paramount. Não é muito rica em extras.Traz trailer de cinema e as tradicionais escolha de idiomas eseleções de cenas. Assinala a segunda parceria do ator com JaneFonda. Eles já haviam feito o poderoso Caçada Humana, deArthur Penn, e voltariam a trabalhar juntos em O CavaleiroElétrico, um dos sete filmes que Redford fez com o diretorSydney Pollack. Em 1967, Jane, cansada de ser só a filha deHenry Fonda em Hollywood, já fora à França filmar com RenéClément e Roger Vadim. Com o segundo, casou-se, mas ainda nãohavia feito com o marido o filme mais famosos de ambos:Barbarella, que a consolidou como mito sexual. De volta aHollywood, Jane fez essa comédia bobinha (em termos), antes dese transformar na mais sedutora imagem do protesto contra aGuerra do Vietnã.Redford, que cursou a Universidade do Colorado com bolsade estudo conseguida pela via do esporte (beisebol), estreou noteatro num pequeno papel de The Tall Story, que Janeinterpretou no cinema, ao lado de Anthony Perkins, sob a direçãode seu padrinho, Joshua Logan. O filme chamou-se, no Brasil,Até os Fortes Vacilam. Redford durante alguns anos acumulouteatro, cinema e televisão. No cinema estreou em 1962 comObsessão de Matar, filme de guerra de Dennis Sanders no qualcontracenava com o então ator Pollack, que depois virou diretor.Selaram ali a amizade que prossegue até hoje. Quando Hollywoodadquiriu os direitos de filmagem de Descalços no Parque,Redford e Mildred Natwick foram chamados para repetir, na tela,seus papéis do palco. Jane foi o acréscimo ao elenco,especialmente para o cinema.Leveza - Jane e ele formam uma dupla de recém-casados,Mildred é a mãe dela, que interfere na relação. O resultado édivertidinho, até pela habilidade com que Neil Simon constróiseus diálogos, mantidos pelo diretor Saks na adaptação que levaa assinatura do dramaturgo. Charles Boyer faz o vizinho quetambém participa das complicações do jovem casal. Quando surgiuesse filme, uma revolução estava em curso no cinema. Os anos 60foram transformadores por excelência. Mudaram tudo. A pílula e aminissaia mudaram os comportamentos, a nouvelle vague foi apenasum dos fatores que mudaram a face do cinema.Federico Fellini foi o arauto das transformações, quandoA Doce Vida ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de1960. Sob o impacto das novas tecnologias (câmeras portáteis comgravadores acoplados, permitindo a gravação direta do som), ocinema saiu às ruas. Hollywood também mudou. Surgiram oswesterns desmistificadores de Sam Peckinpah e do próprio mestreJohn Ford, caiu o Código Hays, que disciplinava o uso do sexo eda violência no cinema norte-americano. Como conseqüência,surgiram filmes com uma abordagem mais franca das relações. Oque Elizabeth Taylor e Richard Burton dizem em Quem Tem Medode Virginia Woolf?, que Mike Nichols adaptou da peça de EdwardAlbee, seria impensável na Hollywood dos anos 40 e 50.Virginia Woolf é de 1966. Descalços no Parque é doano seguinte. Na época, podia representar um retrocesso. Osproblemas do casal eram focalizados por meio de diálogosdoce-amargos com a marca que fez de Simon um dramaturgopalatável para grandes platéias. Ele sempre teve o dom de nãochocar, mesmo quando tratava de assuntos mais espinhosos(homossexualismo, prostituição) em outros textos que tambémviraram filmes: Um Estranho Casal, de novo dirigido por GeneSaks, e Licença para Amar até Meia-Noite, de Mark Rydell.Revisto hoje, o pudor de Descalços no Parquecontribui para o encanto que o filme ainda exerce. Contribui,mas não é o elemento decisivo. Boa parte, senão todo o fascíniodo filme decorre da alquimia entre os atores. Redford já haviaformado dupla com Natalie Wood em dois filmes (À Procura doDestino e Esta Mulher É Proibida, de Robert Mulligan eSydney Pollack). Esculpia a aura romântica consolidada pelosucesso de Butch Cassidy e Golpe de Mestre, ambos deGeorge Roy Hill. Jane ganhou dois Oscars nos anos seguintes,confirmando o poder de fogo de seu talento dramático (porKlute, o Passado Condena, de Alan J. Pakula, e AmargoRegresso, de Hal Ashby, nos anos 70). Redford virou diretor etambém ganhou o Oscar (por Gente como a Gente, em 1980).Descalços no Parque ainda representa um momento simples detrajetórias que ficaram mais ricas.Descalços no Parque (Barefoot in the Park). EUA, 1967.Direção de Gene Saks. DVD da Paramount. Nas lojas, R$ 40.

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