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Depois de Chacrinha e Paulo Francis, Nelson Hoineff usa a Portela para continuar pensando o País

Documentário conta a trajetória da escola de samba

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2016 | 22h25

São apenas 82 minutos – como uma partida de futebol tem o tempo regulamentar de 90 minutos. Uma hora e 22 minutos. É o tempo que dura o desfile de uma escola de samba na maior passarela do mundo – a Marquês de Sapucaí, no Rio. E aí vem a águia. Portela! Clara Nunes: “Eu nunca vi coisa mais bela, quando ela pisa a passarela...”

Você não precisa ser carnavalesco de carteirinha para apreciar as qualidades de 82 Minutos, o novo documentário de Nelson Hoineff. O título refere-se ao desfile, o filme tem mais – 125 min. Hoineff poderia ter-se fixado no tempo regulamentar, e aí o filme tem 43 minutos a mais. Têm a ver com a própria estrutura do documentário, que começa com a escolha do samba-enredo, em 2014, prossegue com os preparativos, o desfile de 2015, a apuração dos votos, o anúncio da campeã. E não foi Portela, mas a Beija-Flor, com seu enredo patrocinado pelo ditador da Guiné Equatorial. A comunidade portelense reage indignada – como já havia reagido antes, perante a denúncia de que houve favorecimento da Prefeitura do Rio para o enredo sobre os 450 anos do município.

No pré-lançamento, o diretor provocou – disse que seu filme não é sobre a Portela. E talvez não seja mesmo. A Portela é só um pretexto, como Chacrinha em Alô-Alô Terezinha e Paulo Francis em Caro Francis. Na sua obra de jornalista, documentarista, polemista, Hoineff está sempre interessado em documentar algo maior, o Brasil. Chacrinha e Francis são nas duas faces da mesma moeda, um pela via do escracho, outro pela da erudição. Ambos midiáticos, homens de televisão, do espetáculo, pensaram, cada um do seu jeito, o País.

O carnaval interessa a Hoineff pelo que revela da alma brasileira. Talvez o documentário fosse outro se, ao invés da azul e branco, ele tivesse escolhido a verde e rosa (Mangueira). São escolas tradicionais, pré espetacularização da Sapucaí. E a ideia é mostrar menos o espetáculo e mais os bastidores. A comunidade, o esforço, o pegar junto. A coordenadora das passistas., mestre-sala e porta-bandeira. A Portela é Brasil na avenida, e o filme, de forma não didática, tenta dar conta disso.

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