Depois de ‘Capitão Phillips’, Paul Greengrass desiste da franquia Bourne

Diretor fala da produção do filme indicado ao Oscar 2014, da pirataria na Somália e diz que não fará mais os longas de ação que o celebrizaram

Karl Rozemeyer, The New York Times

19 de fevereiro de 2014 | 16h07

Em Abril de 2009, quatro piratas Somali, viajando em alta velocidade e bradando armas AK-47, conseguiram abordar e sequestrar um cargueiro comercial norte-americano, o Maersk Alabama, que levava suprimentos de comida para o Kenya. O capitão do navio, Richard Phillips, foi mantido como refém por cinco dias em um barco salva-vidas antes de ser recuperado em uma ousada operação da Marinha. O líder dos sequestradores sobreviveu, e em 2011 foi condenado a mais de 30 anos de prisão.

Imediatamente, Hollywood começou uma batalha pelos direitos da história de Phillips, e parece justo que o diretor britânico Paul Greengrass tenha saído vencedor. Agora, ele concorre a seis prêmios no Oscar 2014.

Documentarista de formação, construiu a reputação de ser um mestre de dramas complicados e bem desenvolvidos, que em grande medida dependem das técnicas imediatistas da filmagem de documentários. Ele teve sucessos com títulos da saga Bourne ao usar a equipe de filmagem para perseguir Matt Damon pelas ruas lotadas da Europa quase como uma guerrilha. Escreveu e dirigiu Vôo United 93, uma pungente dramatização do voo que foi sequestrado em 11 de setembro de 2011 por terroristas. Este filme em particular mostra sua habilidade de reconstruir um evento da vida real sem excesso de glamourização.

 

 

Divulgação

 

 

O mesmo acontece com Capitão Phillips. “Nesta história, consegui dar um foco incrivelmente fácil, acessível, humano e concreto”, explica o diretor, que acrescenta que, apesar do título, a história não é apenas sobre o capitão (Tom Hanks), mas também sobre os quatro homens que sequestram o barco e sobre tudo que dá errado.

“Tudo isso forma a história. Parecia para mim que aquele áspero encontro ilustrava momentaneamente um grande horizonte.” Na visão do criador, esse cenário não se limita às águas azuis da costa africana. A Vermont natal de Phillips, que é mostrada enquanto ele se prepara para embarcar, é contrastada com a pobreza da cidade de Eyl, na Somália, onde Abduwali Abdukhadir Muse (Barkhad Abdi, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) é alistado para uma missão pirata.

“Senti, do começo ao fim, que o coração da história eram os dois capitões vindos de dois mundos muito diferentes”, elabora Greengrass. Eles são interpretados por Hanks e Abdi. Se o primeiro tem larga experiência na carreira, e tem na estante dois Prêmios da Academia, Abdi, assim como os três homens que interpretam seus comparsas, é um estreante no cinema.

Os dois se encontraram pela primeira vez já no navio, filmando a cena em que os quatro sequestradores embarcam. “Eles não se tinham se conhecido ou se visto antes. A primeira vez foi quando estavam frente a frente, diante das câmeras. Até os hospedamos em locais diferentes, e elaboramos um esquema bem pensado para que chegassem ao set separadamente”, explica o diretor. “É tudo parte de um jogo, de algum modo”, diverte-se. “Tentei criar um tipo de energia, de eletricidade, e as pessoas adoraram, porque deu intensidade àquele primeiro encontro. Mas nunca se sabe se vai realmente funcionar até tentar. Às vezes não dá certo. Desta vez deu.”

A maior parte do filme foi gravada durante 60 dias em mar aberto, próximo a Malta - que, Greengrass ressalta, tem portos em alto mar que permitem que se chegue ao oceano propriamente dito em dez minutos -, e também próximo a Virgínia, porque “foi onde pudemos ter os navios da Marinha norte-americana”. A produção conseguiu um navio com container, chamado Maersk Alexander, para servir de “sósia” ao Maersk Alabama. A tripulação continuou a trabalhar durante as filmagens. “Era um navio idêntido ao Alabama. Saíamos às 7h30 e, 15 minutos depois, a embarcação já estava operando a todo vapor. Assim, os 25 atores, desde o Tom até aqueles que interpretavam alguém da tripulação, tinham um equivalente verdadeiro. Tínhamos enormes recursos, o que tornou a filmagem incrivelmente interessante e divertida”, diz.

 

 

 

 

 

Filmar num navio, em vez de em um estúdio, impôs seus desafios. “É de se pensar que, num navio enorme, haveria muito espaço, mas, na verdade, quase não há. Isso foi um grande problema para nós, porque só podíamos ter bem poucas pessoas a bordo, já que o número de coletes salva-vidas era contado. Além disso, tinhamos de operar com uma equipe reduzida, o que significa que não tínhamos espaço para substituições. O que levamos conosco era o que tínhamos.” Fazer todo o equipamento de filmagem passar por corredores estreitos e escadas sem elevadores, além de gravar em cômodos pequenos, como botes, também foi um trabalho árduo.

Como sempre, Greegrass usou à exaustão a chamada câmera na mão, o que lhe dá certa flexibilidade. Algumas cenas estavam prontas em apenas 15 minutos. Para acostumar os atores ao seu estilo mais leve, o diretor discutiu isso com eles antes de tudo, para deixá-los mais à vontade. “Dá para saber de cara se um ator vai ou não dar conta de um desafio que você lhe apresenta, você meio que já pre-seleciona pensando nisso. Então, quando se prepara para começar a trabalhar, você pode falar mais especificamente com os intérpretes individualmente ou em grupos, deixando-os num espírito mais prático para começar”, explica. “Depois, há a preparação específica do dia. É essencial criar um espaço seguro. Como diretor, você precisa fazer as pessoas entenderem que não existem erros. Você tem de criar uma atmosfera de engajamento coletivo.”

Pirataria. O engajamento de Greengrass com a autenticidade de suas narrativas também envolve um processo de muita leitura e estudos, o que começou com o livro de Phillips, Dever de Capitão (editor Intrínseca) escrito com Stephan Talty. “O relato de 'Richard Phillips é muito claro no que diz respeito ao que aconteceu com ele, mas era preciso investigar muito sobre a versão dos piratas e ainda mais, é claro, sobre a resposta da Marinha, a reação da patrulha antipirataria, que nos informou de detalhes sobre os quais Phillips não poderia absolutamente saber”. Em estudos acadêmicos, o diretor descobriu que muito da atividade dos piratas é um crime essencialmente muito organizado.

“Os piratas veem a si mesmos como muito diferentes, de certo modo, de organizações como al-Shebab ou al-Qaida. Eles estão nesse negócio pelo dinheiro. Como há uma forte hierarquia, os padrinhos em atuação são os que lucram. Eles financiam essas comunidades na costa, onde os navios e os reféns são mantidos. Eles ganham muito dinheiro”, explica. “Como na Nova York dos anos 1920, onde quer que exista grande riqueza ao lado da pobreza, você terá crime organizado.” Guardadas as devidas proporções, é claro.

 

“O atual surto de pirataria em particular diz respeito à fase inicial de pesca predatória e ao despejo de detritos tóxicos nas águas somalis. Mas eu queria trazer à tona que isso há muito tempo deu lugar ao dinheiro que os criminosos ganham com o crime. Gângteres organizados entraram no esquema e começaram a organizá-lo como um negócio”, afirma o cineasta.

“Esses jovens dizem que são apenas pescadores. É claro que isso é bobagem, não são pescadores. Mas a raiz disso está num estado falido, na pobreza, e em problemas endêmicos que estão associados a um lugar como a Somália”, completa.

Futuro. Greengrass ainda não decidiu qual será seu novo projeto. Dois boatos dão conta de que faria um documentário sobre o time do Barcelona e o quinto episódio da franquia Bourne. Podemos esquecer do primeiro. “Barça não vai acontecer”, ele diz.

Quanto à Borne, ele afirma que já disse tudo o que tinha a dizer sobre esses temas. “Estou fazendo outras coisas agora. Adorei os filmes de Bourne, e sou muito grato a eles, mas, como cineasta, não posso continuar fazendo a mesma obra de novo e de novo. É preciso partir para outras coisas. Então tem de haver outro diretor que poderá trazer algo de novo para a franquia, espero.”

TRADUÇÃO DE CLARICE CARDOSO

 

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