ANNEGRET HILSE/REUTERS
ANNEGRET HILSE/REUTERS

Mostra 2020: Depois da obra-prima de Fassbinder, 'Berlin Alexanderplatz' chega em nova versão

Agora, protagonista não é mais um alemão, mas um africano que chega à Alemanha após escapar de um naufrágio

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2020 | 05h00

O romance Berlin Alexanderplatz, obra-prima de Alfred Döblin, foi publicado na Alemanha em 1929. Ganhou a primeira adaptação para o cinema em 1931, de Phil Jutzi, e depois, a mais famosa, em 1980, sob direção de Rainer Werner Fassbinder. Muita gente acha que essa versão, feita para TV, com 15h30 de duração, é também a obra-prima de Fassbinder. Surge agora um terceiro Berlin Alexanderplatz em registro audiovisual. Traz novidades?

Sim, e de maneira radical. O herói do romance de Döblin, Franz Biberkopf, vem da classe trabalhadora. Na convulsionada Alemanha após a derrota do país na Primeira Guerra Mundial, Franz cai na marginalidade, é encarcerado e cumpre pena. Sai da prisão disposto a levar uma vida decente. Na versão atual, do cineasta alemão de origem afegã Burhan Qurbani, Francis é um homem africano que chega à Alemanha após escapar do naufrágio da embarcação na qual deixava seu continente para trás. Assim como o alemão Franz, o africano Francis deseja apenas construir uma vida para si. O filme, como o romance, será a história de suas quedas sucessivas, e também de suas tentativas em dar a volta por cima e, simplesmente, existir como um ser humano respeitável.

Essa atualização da trama muda o contexto em que a obra é vertida, porém conserva sua essência. Francis é interpretado por Welket Bungué, ator originário da Guiné-Bissau. O espectador brasileiro já o conhece por seu trabalho em Joaquim, de Marcelo Gomes. Também será esta a origem do seu personagem. Por isso, aqui e ali se ouvem falas em português.

Francis não tem estatuto de refugiado, mas seu visto é legal. Ele tenta sobreviver do trabalho braçal, mas não consegue. A inadequação e a pressão do preconceito racial dificultam sua vida. Em momento de desespero, conhece Reinhold (Albrecht Schuch), marginal que lhe oferece um atalho através da criminalidade. Reinhold, como nas versões anteriores, se converterá numa nêmesis de Francis, o demônio em forma de gente, aquele que, sem motivo palpável, buscará sua destruição. 

Em circunstância particularmente difícil, Francis, ou Franz, como passa a ser tratado, conhecerá também a prostituta Mieze (Jella Haase). Mieze cuida de Francis quando este é ferido. Recuperado, ele passa a explorá-la e apaixona-se por ela. A interferência de Reinhold nesse caso será decisiva para a trama.

A célula viva de Berlin Alexanderplatz é a referência ao mito de Fausto, cara à tradição cultural alemã. Lenda do pacto com o diabo, em que alguém vende a alma em troca de favores terrenos, talvez seja narrativa universal, mas encontra na Alemanha sua expressão máxima, através da obra de Goethe retomada depois por Thomas Mann

Reinhold encarna essa versão satânica contemporânea, oferecendo o dinheiro (e, portanto, reconhecimento social) a Francis em troca de sua alma. Daí a dificuldade de Francis de se livrar de Reinhold, mesmo quando parece claro que separar-se dele seria questão de vida ou de morte. Entram outros fatores em jogo, além das decisões racionais. A tensão sexual entre ambos não é o menor deles, embora apenas insinuado.

Burhan Qurbani joga com muita eficácia nesse “duelo” de personagens, pois sabe que nele repousa o centro gravitacional do filme. Na relação diabólica entre Reinhold e Francis jogam-se as pulsões sexuais e interesse conflitivos, mas também as contradições de uma União Europeia desafiada pelo problema da assimilação dos refugiados. É o tema quente, martelado 24 horas por dia pela extrema-direita e tem alimentado a ascensão de populistas e o receio de distopias políticas.

Com seu elenco, Qurbani está bem servido, porque tanto Bangué como Schuch rendem ao máximo em seus papéis. Enchem o filme de energia e tensão. O retrato da Berlim contemporânea também ajuda. Puxa pela vida noturna, dos cabarés, chefes do crime e cafetões. Mas também pelo caráter cosmopolita da cidade, pela convivência étnica (nem sempre pacífica) e de sotaques. Uma Babel, na qual a luta pelo prestígio e pelo dinheiro ocupa o centro da rinha. 

Menos de quatro anos depois da publicação do romance de Döblin, na efervescência da Alemanha dos anos da República de Weimar, Hitler chega ao poder. Hoje pergunta-se que tipo de monstro a nossa era também convulsionada estará gerando. O desfecho do filme, porém, insinua uma tênue luz de esperança. Será?

 

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