Denzel Washington sustenta "Dia de Treinamento"

Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone estão em baixa em Hollywood. Estão tendo de diminuir seus cachês, pois seus filmes já não fazem grandes estragos nas bilheterias. Denzel Washington está em alta. É o primeiro astro negro de Hollywood a ascender ao patamar das top stars do cinemanorte-americano, recebendo mais de US$ 20 milhões por filme. Elemerece. Está excepcional em Dia de Treinamento. Tornaimperdível o filme de Antoine Fuqua que estréia nestasexta-feira. Washington concorre ao Oscar pelo papel. Jáganhou o de melhor coadjuvante (por Um Grito de Liberdade,pomposo panfleto de Richard Attenborough sobre o sul-africanoStephen Biko).A candidatura de Washington é a mais chamativa que Diade Treinamento ostenta na corrida pelo Oscar, no dia 24. Mashá também a de Ethan Hawke, que concorre a melhor coadjuvante. Osomatório de prêmios (Globo de Ouro, Actor´s Guild) tornaRussell Crowe o favorito na disputa pelo prêmio de ator, porUma Mente Brilhante. Mas quem garante que não haverásurpresas? A academia homenageia este ano com um prêmio especialo maior astro negro dos anos 60, Sidney Poitier (que ganhou oOscar por Uma Voz nas Sombras, de Ralph Nelson, em 1963).Por que não premiar também o maior astro afro-americano daatualidade?Dia de Treinamento é um filme de estrutura clássica.Algum crítico poderá dizer: convencional. A história doconfronto do veterano com o aprendiz é um tema tradicional docinema norte-americano. Pode ser assinalado em inúmeros westernse thrillers. Dia de Treinamento prova que a dramaturgiaclássica não está esgotada. O roteiro de David Ayer renova aconhecida estrutura aristotélica em três atos. O próprio Ayerfaz observações inteligentes sobre seu roteiro. Diz que achouinteressante concentrar a narrativa durante um só dia,acompanhando o personagem do jovem (Hawke) que sai de casa pelamanhã e volta à noite com outra percepção da profissão (e domundo).Mais interessante ainda é outra observação que eletambém faz: Ayer diz que sua geração não teve um Vietnã. "Nossaguerra é interna: trava-se nas ruas, a toda hora. A políciaversus os cidadãos e vice-versa." Uma reportagem investigativado Los Angeles Times, em 1998, analisou 51 delegacias dosmais importantes centros urbanos dos EUA. Chegou a resultadosestarrecedores: em média, por ano, dez policiais de cada unidadesão indiciados por abuso de autoridade, cinco são presos poralgum tipo de crime, sete por má conduta, três por roubo equatro por violência doméstica. Trabalhando com esses números,Ayer criou a explosiva estrutura dramática de Dia deTreinamento. "Você tem de decidir se é um cordeiro ou um lobo, se quer ir para a sepultura ou voltar para casa."É o que o policial veterano Alonzo Harris diz a para onovato Jake Hoyt. Harris é Denzel Washington, Ethan Hawke éHoyt. Na primeira cena, ainda é madrugada quando Hoyt acorda etoma o rumo do trabalho. Vai tentar ser aceito na divisão deHarris. É o lobo em pele de cordeiro. Um policial corrupto eviolento. Abusa não apenas da autoridade, mas do colega. Usa-ocomo peça de um plano que bolou para extorquir dinheiro. Harrisé o primeiro bad guy da carreira de Washington. O Adonis negro,como costuma ser chamado, talvez seja o mais careta dos astrosde Hollywood. É casado há décadas com a mesma mulher, vai àmissa todos os domingos, escolhe seus papéis pelocomprometimento com a causa negra na América do Norte.Ambigüidade - Harris, mal comparando, é como opersonagem de John Travolta em A Senha. Hawke de certa formaequipara-se a Hugh Jackman. A diferença é que Travolta, naquelefilme, era um ex-agente dos serviços de segurança dos EUA eHarris é um policial na ativa. Pode-se dizer que ele é do mal,mas o diretor Fuqua não o demoniza. Pelo contrário, abre espaçopara que Washington crie um personagem sedutor na suaambigüidade moral. Ele pode ser do mal, mas age acreditando quefaz a coisa certa. Em sua cabeça, é o mocinho, embora seus atoslhe confiram pós-graduação em banditismo. A maneira comoWashington cria o personagem o torna mais assustador. E esse é oproblema da candidatura do ator ao Oscar deste ano: ele concorreao prêmio pelo personagem mais negativo de sua carreira. Que otenha transformado numa figura fascinante é um atestado da suacapacidade como ator, mas Harris, de qualquer maneira, é um tipomoralmente repulsivo, embora respaldado na realidade.O próprio filme trafega nessa ambivalência. E, por maisque o espectador seja levado a identificar-se com Hoyt/Hawke, emmais de um momento é solicitado a torcer por Harris (ou aaprovar seus atos no limite da selvageria). É um problemafreqüente na produção de Hollywood e que, a rigor, tem estadosempre em pauta desde que o diretor Don Siegel e o astro ClintEastwood ganharam o rótulo de fascistas pelo primeiro DirtyHarry, Perseguidor Implacável, no começo dos anos 70.Naquele filme, o policial que ia além do legalmente permitido,ou autorizado, lançava ao solo, no fim, a insígnia, conscientede haver se transformado num marginal tão ou mais perigoso que oseqüestrador que perseguia. Desde então, a ambivalência viroumoda em Hollywood e foi radicalizada por Charles Bronson nasérie Desejo de Matar ou por Mel Gibson no mais recente OTroco.Fuqua é colhido na mesma armadilha de Washington.Querendo tornar seu filme sedutor, resvala em facilidades que ocolocam sob suspeita. O que fica acima de qualquer suspeita é oextraordinário talento de Denzel Washington. Só para comparar:sexta à tarde ele poderá ser visto na TV, no Canal 21, emseu primeiro papel importante no cinema. A História de UmSoldado, de Norman Jewison, baseia-se na peça de CharlesFuller vencedora do Pulitzer. É uma variação do tema de BillyBudd, de Herman Melville. Jewison trouxe para a tela quasetodo o elenco da Negro Ensemble Company, que montou a peça nopalco de Nova York. Washington integrava o grupo. Também com odiretor Jewison fez Hurricane - O Furacão, que, só paralembrar, lhe valeu outra indicação para o Oscar de melhor ator.Dia de Treinamento (Training Day). Drama. Direção de AntoineFuqua. EUA/2001. Duração: minutos.

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