Tiago Queiroz|Estadão
Tiago Queiroz|Estadão

Denise Fraga e Domingos Montagner retratam a transformação do casal em 'De Onde Eu Te Vejo'

Longa estreia na próxima quinta-feira, 7, nas salas de todo o Brasil

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2016 | 05h00

Quando conversou com o repórter, na tarde de terça, 29, Domingos Montagner já estava de mala pronta para ir a Petrolina, onde, no dia seguinte, começava sua participação na novela Velho Chico, da Globo. Já estava imerso em seu personagem, Santo. “Fizemos muito trabalho de mesa, pesquisa para os personagens. Com o Luiz Fernando é sempre assim. Muita preparação. Foram meses.” Montagner fala do diretor Luiz Fernando Carvalho, cujo método é único na TV brasileira e resulta em trabalhos invariavelmente ótimos.

Foram meses de preparação para Velho Chico, a novela de Benedito Ruy Barbosa. E De Onde Eu Te Vejo, o novo longa de Luiz Villaça, que estreia na próxima quinta-feira, 7, em salas de todo o Brasil? Agora, quem conta é Denise Fraga, que, além de protagonista, com Montagner, é mulher do diretor. “O Luiz já vem com esse projeto há uns cinco anos. É tempo para caramba, mas eu gosto. Acompanhar o processo todo, desde que o filme é só uma ideia, que depois vai para o papel, passa pela escrita, a realização, a montagem, até chegar a esse momento de encontro com o público. Estou muito orgulhosa do De Onde Eu Te Vejo. Muito orgulhosa de estar no melhor filme do Luiz, que é um diretor que eu amo.”

Por ‘amo’ entenda-se não o afeto que uma atriz pode ter por seu diretor, mas o sentimento da mulher Denise pelo homem de sua vida. Há 21 anos estão juntos. Conheceram-se no set de um curta-metragem, foi “frechada do teu olhar”, como cantava Elis Regina. Apaixonaram-se e estão juntos até hoje, muitos filmes, peças e programas de televisão, depois. O novo filme, há cinco anos, já foi concebido para Denise Fraga e Domingos Montagner. “O Luiz foi fazer um Retrato Falado no meu circo, nos aproximamos, ele começou a falar desse filme sobre um casal e aqui estamos, cinco anos depois.” Na trama de De Onde Eu Te Vejo, Denise e Montagner formam o casal em processo de separação. Ele sai de casa e vai para um apartamento em frente. Janela com janela. Um acompanha a vida do outro sozinho. Originalmente jornalistas, ela trocou de profissão e agora trabalha com arquitetura. Ele permanece jornalista, e a crise come seu emprego. Para complicar, os sentimentos, que já andam vulneráveis, sofrem outro baque. A filha vai estudar em outra cidade. Pai e mãe sentem-se órfãos.

Paulistano de carteirinha, Luiz Villaça quis retratar, por meio das transformações de um casal, as transformações da cidade. “A geografia do filme é muito a da cidade. Amo São Paulo. Temos cenas em Higienópolis, que é o nosso bairro, no qual moramos, no Bexiga, mas principalmente no centro.” A cantina que virou garagem, o cinema que fechou – mas o PlayArte Marabá, que fornece a paisagem, segue firme e forte no centro. “Eles (a empresa proprietária PlayArte) foram muito bacanas. Fecharam o cinema um dia para que a gente preparasse a fachada.” Foi há um ano e meio. Desde então, muita coisa – tudo? – mudou no País. Esse casal separado que não desgruda é uma metáfora do Brasil atual? “O filme não nasceu com esse olhar, até porque é muito anterior a tudo o que está ocorrendo, mas essa metáfora que você vê me agrada”, diz o diretor. “Pode ser utopia, mas é tanta gente querendo ver o circo pegar fogo sem ligar para as consequências... O Brasil está dividido. Eu tenho esse sonho. Gostaria de ver o País unido contra a crise.”

Sem cultura e educação, não há salvação. Foram muitos anos de dedicação ao projeto de De Onde Eu Te Vejo. Denise Fraga pode estar comprometida – Villaça é seu marido –, mas o repórter, que não tem compromisso, concorda com ela. É o melhor filme de Luiz Villaça. A surpresa é que, por mais que esteja encravado na vida da cidade, De Onde Eu Te Vejo foi feito... em estúdio. “Ficava muito complicado filmar os dois apartamentos. Construímos no estúdio da Quanta, com rua no meio e tudo. Tivemos uma pós-produção longa por isso, mas valeu a pena. Ninguém percebe.” Outro risco era o elenco. Sem os atores certos, o filme não funcionaria. Villaça confiava na sua escolha, Denise e Montagner, mas havia a filha. Manoela Alperti é quem faz o papel. A primeira cena foi com os três, quando pai e mãe se despedem da garota na república em que ela vai morar, em outra cidade. “Temos uma família”, pensou Villaça. O filme beneficia-se disso enormemente.

Ela volta às novelas e segue fazendo o público rir com Brecht

Teatro, cinema... Denise Fraga está temporariamente afastada da televisão. “Temos sempre muitos projetos de programas”, ela conta e o plural engloba, automaticamente, o marido. Luiz Villaça é parceiro, na arte e na vida. Há 21 anos. “Temos alguns projetos que estão bem encaminhados e até acho que saem, mas ainda não tem nada definido. É prematuro falar”, ela diz. Mas volta com certeza à TV, e à Globo, fazendo uma participação na próxima novela de Maria Adelaide Amaral, Lobo do Amor (parceria com Vincent Vilari), que vai substituir Velho Chico, na faixa das 9. Desde que a novela foi transferida, no ano passado, muitas histórias têm rolado nas redes sociais. Lobo do Amor já se chamou Sagrada Família. “Serão apenas quatro capítulos, no começo, mas já vamos começar a gravar em maio.”

Denise vai fazer a mãe de Isabelle Drummond, e a personagem, posteriormente, será interpretada por Claudia Abreu. Desde Uga Uga, em 2000, Denise não faz novela. A participação é tanto mais bem-vinda porque ela adora os folhetins de Maria Adelaide. “Ela escreve superbem, suas personagens são humanas. Adoro.” Mas a atenção, admite, está voltada para De Onde Eu Te Vejo, que estreia na quinta, 7, em salas de todo o Brasil. E, claro, Denise permanece ligada a Galileo Galilei. A montagem de Bertolt Brecht segue até dia 11, no Tuca. E não para depois disso. “Vamos viajar pelo Brasil”, anuncia. Denise está feliz da vida com o sucesso de Galileo, que Villaça e ela produzem.

Galileu Galilei foi o filme que um grande diretor, Joseph Losey, perseguiu durante décadas. Ligado ao próprio Brecht, Losey dirigiu a peça no teatro. Sua inclusão na lista negra do macarthismo o levou ao exílio. Ele abandonou os EUA, foi viver na Europa. Quando fez seu Galileo, com Topol, nos anos 1990, a repercussão foi mínima. “Vimos o filme, durante a preparação com (a diretora) Cibele Forjaz.” O repórter conta o que o próprio Losey revelou numa entrevista (a Tom Milne). Brecht admirava o cinema de Losey, mas duvidava que ele pudesse fazer uma boa adaptação, porque dizia que o diretor “não tinha humor”. O Galileo de Denise e Cibele é muito engraçado. “Trabalho com humor há muito tempo e percebo esse humor do Brecht, que a Cibele realçou tão bem. A fala tem um tempo, que é o do riso da plateia. É muito legal de fazer.”

O sucesso de Galileu e, antes, de outro Brecht - A Alma Boa de Setsuan - a convenceram, em definitivo, de que o público “quer coisa boa”. “Há um movimento de subestimar o público, como se ele só quisesse comédia tola. Eu não acredito. Nunca quis fazer Brecht para iniciados. Quero fazer para a galera. É muito interessante ver como as pessoas podem se divertir pensando. Gosto de falar com o público depois da peça e me fazem cada observação que eu digo para mim mesma - ‘Conseguimos!’ E, quando o público me surpreende, indo além, aí eu fico nas nuvens.”

É onde ela está com o novo filme do companheiro. “Fico superfeliz de estar no melhor filme do Luiz.” Uma história de amor, de família. “E o Luiz é superantenado. É um filme sobre São Paulo, sobre as transformações na cidade e na vida de um casal. Qual é o tema mais discutido da cidade, atualmente? A mobilidade urbana. Ele (Luiz) põe a bicicleta em cena sem chamar a atenção nem fazer discurso.” O repórter intervém - faz isso criando (o diretor) o ‘chato da bicicleta’. Denise estoura de rir. “Adorei a definição.” Agora, é esperar pelo público. No teatro, ela conseguiu - 200 mil espectadores no teatro, com Galileu. Quantos serão no cinema?

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