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Deborah Secco atinge novo patamar em ‘Boa Sorte’

A atriz que cria com os olhos conta como se preparou para ser a soropositiva no novo filme de Carolina Jabor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2014 | 16h00

Como no Festival do Rio, onde o público teve a sensibilidade, para não dizer a grandeza, de escolher como melhor filme o que era realmente o melhor de toda Première Brasil – Casa Grande, de Fellipe Barbosa, ignorado pelo júri oficial –, em Paulínia foi o público que também salvou Boa Sorte, de Carolina Jabor, do quase esquecimento. Para o júri oficial, o filme só mereceu o prêmio de direção de arte. Para Deborah Secco, nada. E, no entanto, ainda está para surgir, no cinema brasileiro deste ano, uma interpretação melhor que a dela no filme de Carolina.

Isso você vai ver na próxima quinta, 20, quando Boa Sorte chegar aos cinemas. Deborah faz uma soropositiva drogadita, que se sacrifica por amor. O filme reabre a vertente de Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, no cinema brasileiro, mas não é sobre a violência do sistema manicomial. Neto (Rodrigo Santoro) quase perde sua alma naquela ficção. Em Boa Sorte, João (João Pedro Zappa) também é internado pelos pais. Ansioso, resiste a ser dopado. Encontra Deborah, outra interna, e ela se dopa o tempo todo, para aguentar a barra da vida – dentro e fora da instituição.

A atriz gosta de dizer que não escolheu a personagem – foi escolhida por ela. Desde que leu a história curta de Jorge Furtado, Deborah sentiu que aquela Judite, tão diferente dela, tinha tudo a ver com ela. Quando descobriu que Carolina Jabor ia fazer o filme, ligou para a diretora. Seu argumento para conseguir o papel foi o mais direto: “Judite sou eu”. Deborah é uma linda mulher, objeto de desejo de todos os machos do Brasil. Isso nunca lhe bastou. Ela sempre quis ser atriz, não só um invólucro bonito.

Os amigos sempre souberam disso. Com alguns, ela se aconselha – os diretores Guel Arraes e Jorge Furtado. Quando disse que ia fazer Bruna Surfistinha, foram contra. Ela bateu pé. Reconheceram. “Ainda bem que você fez.” No caso de Judite, e Boa Sorte, deram toda força. Deborah não é só boa – é excelente. E os seus olhos... Ninguém representa com os olhos como ela. 

João Pedro Zappa é quem divide a cena com Deborah Secco em Boa Sorte. No longa – sucinto – de Carolina Jabor (apenas 90 minutos), ele faz João, que é internado pela família. Conhece Judite, e sua vida muda para sempre. Aos 26 anos, Zappa até parece ter menos. Tem um monte de amigos que também são artistas, músicos, principalmente. Os não artistas é que querem os detalhes – como é fazer uma cena de sexo com Deborah Secco? Pois ele faz, em Boa Sorte, e é uma bela cena. Intensa, mas triste. O próprio filme carrega um pouco dessa tristeza, mas que ninguém se assuste com isso.

Boa Sorte é um filme bom, bom. Você não vai querer perder um dos melhores nacionais do ano. Quanto ao sexo com Deborah Secco... Ela ri, um belo (sor)riso. “Diz (orientou Zappa) que é um saco. Fazer sexo nos filmes não dá o menor tesão. Eu tava com a bunda gelada, só querendo que a cena acabasse, e tendo de fingir a maior empolgação.” A ideia do mito erótico acompanha Deborah Secco, e não é de agora. Ela entrou no jogo. Jura que, no começo, entrou inocente, sem saber. Permaneceu, movida pela necessidade.

Com franqueza, abre o jogo – “Trabalho desde os 8 anos de idade. Sustento muita gente.” Tudo o que fez na fase adulta – posar nua, fotos eróticas – foi pensando na família. “Comprei um apartamento para cada um deles.” Era sua meta. E, então, atingido o objetivo, ela anunciou que acabara. Ia cuidar da carreira que queria. Papéis de verdade. Bruna Surfistinha e Judite flertam com a morte. Por que essas personagens mexem tanto com Deborah Secco? “Se soubesse, talvez não me sentisse tão atraída. Acho que todos carregamos essa dualidade, mas a personagem, afinal, não sou eu. Ela pode até permanecer comigo, mexer comigo. Mas isso porque meu desafio é sempre entender essas mulheres.”

Pode-se falar num mistério que é próprio de Deborah Secco – seus olhos. No passado, Kim Carnes ficou famosa cantando Bette Davis Eyes, uma música que tentava justamente decifrar o enigma do olhar daquela que era considerada a grande malvada das telas. Há um mistério similar em Deborah Secco, e não pense que aquele olhar é natural. É uma coisa que ela estuda, aprofunda. “Quando decidi fazer Bruna Surfistinha, fiquei uma semana num puteiro da Augusta, convivendo com as garotas da casa. Eu as acompanhava antes e depois de atenderem os clientes. O que me impressionava era a mudança de olhar. Era como se, durante o atendimento, elas perdessem a alma. Foi o que tentei expressar em Bruna Surfistinha. Deu um trabalho louco, mas sem isso eu não teria entrado na personagem.”

E a Judite? Desde que leu o conto Frontal com Fanta, de Jorge Furtado, Deborah ficou tocada pela personagem. Embora defenda que as pessoas experimentem ‘tudo’, ela jura que nunca consumiu drogas. Não foi por aí que Judite mexeu com ela no conto e, depois, no roteiro coescrito por Furtado com seu filho Pedro. Ela simplesmente venera o escritor e cineasta gaúcho, com quem já trabalhou em Meu Tio Matou Um Cara. “Acho que foi minha primeira experiência real de superação. Eu, de origem tão humilde, filmando com o Jorge... Não conseguia nem acreditar.” E, de volta a Judite – “A personagem é soropositiva e eu fui me consultar com um especialista. Um cara que só atende pacientes doentes de aids. Queria entender aquele olhar que me intrigava em pacientes terminais. Ele me falou numa viagem além do desespero. Depois de toda angústia, de toda revolta, a paz adquirida. Hoje, com o coquetel, a situação mudou um pouco, mas antes a aids era uma decretação de morte, e breve. O olhar do condenado, de quem aceita, de quem não luta mais.” De novo Deborah Secco é impressionante. Na trama do filme de Carolina Jabor, João, amoroso de Judite, quer morrer com ela, e por ela. Sabendo disso, Judite cria uma situação – sacrifica-se – para que ele tenha uma chance. Boa sorte, João.

Ela conta que teve de se isolar para fazer a personagem. Durante a preparação e, depois, a rodagem, foi morar num hotel, sozinha. Todo mundo estranhava, a própria diretora. “Não fazia sentido para mim continuar com minha vida, cercada pela família, os amigos. Sentia que, para entrar na Judite, eu precisa daquele isolamento, de ficar comigo.” Quando a rodagem terminou, Judite insistia em permanecer com ela. “Achava tudo sem sentido, que a vida não valia a pena. Foi só uma fase. Jamais pensei em me suicidar. Tive uma irmã que morreu quando eu ainda era criança, e aquilo me marcou. A morte vai chegar para mim, como para todo o mundo, mas quando isso ocorrer vai me encontrar cheia de vida.”

Deborah minimiza a própria beleza, e não é para fazer gênero. “Não vou negar que, produzida, causo certo impacto, mas se eu coloco um jeans simples, faço um rabo de cavalo, passo despercebida em qualquer lugar.” Vai ao shopping, ao supermercado. “Tem gente que até encara, mas fica em dúvida. Será...?” Ela perdeu 11 quilos para fazer Boa Sorte – ainda está delgada, mas não naquela magreza. Avalia – “Já apareci nua antes, e nunca foi um incômodo, mas o caso da Judite foi especial. Ela é muito mais que um corpo. Já disse e repito. É minha personagem mais apaixonante. Se tivesse de escolher uma para passar a noite, seria ela. E olhem que ali estou na minha pior forma física.”

Ela conta que realiza um sonho participando da novela das 6, Boogie Oogie, de Rui Vilhena, em que faz a personagem Inês. “Sempre fui louca pelos anos 1970, acho que por ter sido concebida naquela época. Minha mãe sempre me contou as histórias da juventude dela, da geração dela, e eu comecei a fantasiar sobre aquele período. Fazer a comissária de bordo está sendo prazeroso porque a Inês é independente e divertida. Gosto de desafios e aqui é o de fazer essa figura que é tão diferente das minhas personagens de cinema.”

Veja o trailer de 'Boa Sorte':

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