Debate sobre "dirigismo cultural" opõe cineastas

Alguns artistas acham que é apenas uma reedição da velha queda-de-braço entre cineastas paulistas e cineastas cariocas para ver quem é que influi mais na divisão das verbas das estatais. Outros vêem uma disputa de poder entre ministros - Gilberto Gil contra Luiz Gushiken. Mas o fato é que poucos cineastas e artistas conseguiram passar ao largo da discussão que se abriu no caso do chamado "dirigismo cultural". Nem paulistas nem cariocas."O que me deixou assustado não foi a proposta de exigir contrapartida social", disse o diretor Ugo Giorgetti, de Boleiros, que pede uma atitude mais "desapaixonada" nesse momento. "Os critérios de avaliação é que devem ser totalmente rediscutidos, para que não surja algo desagradavelmente surpreendente."Joel Zito Araújo, diretor de As Filhas do Vento e A Negação do Brasil, apela para que tanto paulistas quanto cariocas tenham cuidado na defesa dos interesses do cinema nacional. "A Associação Brasileira de Cineastas (Abraci, sediada no Rio) e a Associação Paulista de Cineastas (Apaci, em São Paulo) devem defender a transparência, ter cuidado com um debate que cheira a continuísmo e pode criar o vácuo e a persistência de formas vergonhosas de decisão como aquela que possibilitou o caso Chatô", afirmou Araújo.Dinheiro público, critério público - O cineasta gaúcho Jorge Furtado (premiadíssimo com o curta Ilha das Flores, vencedor do Urso de Prata em Berlim) enxerga uma disputa Rio-São Paulo no caso e considera que os critérios ("ou instruções normativas, ou indicações, ou sei lá que nome têm") divulgados por Eletrobras e Furnas passam "da obviedade à burrice, passando por idéias defensáveis, outras demagógicas, outras subjetivas - e esperando melhor definição - e outras ainda incompreensíveis". "Quem decidiu, até agora, que projeto será financiado ou não foi o setor de marketing das empresas, em contatos pessoais com os produtores e seguindo critérios quase indecifráveis. Se esta política é compreensível nas empresas privadas é inaceitável nas empresas públicas. Dinheiro público deve ser utilizado com critérios públicos e, isto é o óbvio, sua utilização deve ser fiscalizada publicamente."A paulista Assunção Hernandes, presidente do Congresso Brasileiro de Cinema, considera que a posição de Cacá Diegues colabora na "na defesa do interesse coletivo de nosso cinema", não sendo alheia nem a paulistas nem a cariocas.Luiz Bolognesi, roteirista de um dos maiores sucessos recentes do cinema nacional, Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanski, vai longe em sua análise. "A árvore de Natal do Bradesco feita com dinheiro de lei de incentivo e o Telefonica Open Air que distribuiu cinema estrangeiro no Jóquei Clube para gente de alto poder aquisitivo com dinheiro incentivado são exemplos que exigem que um órgão do governo fiscalize e obstrua essas aberrações", considerou Bolognesi.Artistas de outras áreas também entraram na discussão. "Não dá para fazer projetos que sejam ´adequados´ a qualquer cartilha", disse o ator, diretor e produtor Paulo Betti, que - embora elogie a contrapartida social - rejeita categoricamente qualquer tipo de "orientação ideológica" definida. Betti começa a filmar no dia 3 de junho o longa-metragem Cafundó, parcialmente financiado pela Eletrobras. "É estranho também que o dinheiro da cultura não esteja no Ministério da Cultura", ponderou Betti. Também Caetano Veloso entrou na questão. Disse a O Globo que a mudança nas regras da condução cinematográfica "beira a irresponsabilidade."

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