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Debate político incendeia abertura do Cine PE

'O Mercado de Notícias', de Jorge Furtado, e 'Getúlio', de João Jardim, põem em questão a ética e a imprensa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paul

28 de abril de 2014 | 18h45

Uma curadoria não propõe apenas uma seleção com base em temas. Os critérios são múltiplos e Rodrigo Fonseca, novo curador do Cine PE, tem feito os filmes dialogarem de forma muito interessante. No domingo à noite passaram o documentário O Mercado de Notícias, de Jorge Furtado, e a ficção Getúlio, de João Jardim.

A ficção de Furtado muitas vezes dava a impressão de explicitar o que propunha o documentário de Jardim. Com base num texto do dramaturgo elisabetano Ben Jonson, O Mercado de Notícias, texto datado do século 17, aborda questões que permanecem atualíssimas. Furtado montou a peça com atores gaúchos. A filmagem do espetáculo forneceu-lhe os capítulos ou blocos nos quais divide o longa. Abordam temas como tráfico de influência, manipulação da informação, ética, etc. Importantes jornalistas contemporâneos (Jânio de Freitas, Paulo Moreira Leite, Renata Lo Prete, etc.) fazem comentários e relatam as próprias experiências, mostrando que o que Ben Jonson criticava há mais de 400 anos segue controverso, para dizer o mínimo.

Corte para Getúlio. O longa de João Jardim, que estreia na quinta-feira, dia 1.º de maio, centra-se nos 19 dias finais do governo constitucional de Getúlio Vargas. O ditador que rasgara duas constituições voltou ao poder eleito pelo povo popular. A oposição, ligada à elite, nunca lhe perdoou o passado como ditador, mas talvez o odiasse mais pela legislação trabalhista que ele outorgou ao Brasil do que por haver governado com mão de ferro (e instrumentos de exceção).

Em 5 de agosto de 1954, o jornalista Carlos Lacerda, feroz opositor do governo, sofre um atentado. A oposição culpa o governo e faz um ultimato – Getúlio deve renunciar ou será deposto. Durante 19 dias ele resistiu, isolado no Palácio do Catete. O desfecho é conhecido – Getúlio matou-se em 24 de agosto.

Uma citação de Tancredo Neves fornece o desfecho – 1954 retardou 1964 (o golpe militar). Boa parte dos golpistas de 1964 foram os mesmos que se opuseram a Getúlio dez anos antes. Houve quem reclamasse, na coletiva realizada ontem pela manhã, que João Jardim criou seu Getúlio como um herói trágico. Esses críticos não se contentaram com o que diz o próprio Getúlio (Tony Ramos) no começo. Ele lembra o passado como ditador, a tortura, a violência e o cerceamento das liberdades – e diz que não se arrepende nada.

Durante os 19 dias da ação, a oposição lhe cai em cima. Isolado no palácio, o herói trágico descobre o mar de corrupção que o cerca. E morre para salvaguardar a honra. Sai da vida para entrar na história, como diz a carta do testamento.

Duas cenas estão em sintonia com o documentário de Jorge Furtado. Almino Afonso, deputado da oposição, faz um discurso veemente contra Vargas. O governista Gustavo Capanema diz que não se pode condenar ninguém sem provas. Afonso proclama – as provas estão nos jornais. Pouco depois, o oficial da aeronáutica que interroga Gregório Fortunato, o guarda-costas do presidente – totalmente implicado no atentado –, mostra-lhe um jornal com uma capa forjada pelo opositor Lacerda.

A imprensa é fundamental, diz Furtado em seu documentário. Desconfie da imprensa, porque muitas vezes o dogma da isenção é puro artifício. A imprensa tem interesses – de classe, quando não partidários. Furtado cita dois exemplos – o quadro de Picasso que estaria no INSS e o atentado que teria sofrido o presidenciável José Serra na eleição anterior. Nenhum dos dois casos, que renderam manchetes, resistiriam ao mais básico jornalismo investigativo. O diálogo entre os dois filmes tornou incandescente o primeiro dia do Cine PE.

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