Tasso Marcelo/Agencia Estado/AE
Tasso Marcelo/Agencia Estado/AE

Debate discute a psicanálise na obra da cineasta Ana Carolina

Homenageada pelo festival É Tudo Verdade, diretora investigou a figura do pai em ‘Getúlio Vargas’

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

05 de abril de 2022 | 09h45

Lá se vão oito anos desde que Ana Carolina lançou seu último longa de ficção - A Primeira Missa. Na verdade, o penúltimo. Em setembro de 2019, ela filmou Paixões Recorrentes, que finalizou durante a pandemia. O filme teve uma vida em festivais internacionais e aguarda lançamento no Brasil. Paixões Recorrentes, ou A Morte das Ideologias. Ana Carolina conversa com o Estadão, pelo telefone, desde o Rio. Está sendo homenageada pelo 27º É Tudo Verdade, que resgata sua obra de documentarista. Ana se alegra pela homenagem que, ao mesmo tempo, a surpreende. Já esteve documentarista, mas não se sente como tal. Seu cinema discute a condição da mulher na sociedade, mas ela também não se define como feminista. “Tudo faz parte da minha militância, e é o cinema.”

Os curtas documentários nos anos 1960/70 ativaram nela o gosto de fazer cinema. E aí, em 1974, veio o primeiro longa - Getúlio Vargas. Nos cinemas, passou com subtítulo - Trabalhadores do Brasil. Era como o presidente iniciava seus discursos. O repórter lembra o final. O enterro de Vargas, que se suicidara. A multidão chorando nas ruas. Morreu o pai do povo! Na trilha: “Todo o povo brasileiro chorou/Morreu o presidente...” E ela: “É a minha voz, fiz a letra com o Jards (Macalé)”. Nesta terça, 5, às 11 h, Ana participa de uma conversa no canal do festival no YouTube. Será um encontro, já que presente estará o cineasta Paulo Ruffino, que dirigiu Labra Dor, a primeira incursão de Ana pelo mundo do cinema, em 1968. A conversa, mediada pelo jornalista Orlando Margarido, ficará disponível até o próximo domingo, 10.

Getúlio Vargas é um marco, e não apenas na obra de Ana Carolina Teixeira Soares, ou simplesmente Ana Carolina - embora cante em seu filme, não é a cantora e compositora homônima. O filme faz uma investigação psicanalítica sobre a figura do pai. O povo que chora nas ruas sente-se desamparado, órfão. “Foi ali que eu experimentei a latência de contar uma história.” Desde então, Ana Carolina nunca mais abandonou a ferramenta da psicanálise. Entre 1977 e 87, ao longo de dez anos - uma década prodigiosa -, fez o que virou uma trilogia. Mar de Rosas, Das Tripas Coração e Sonho de Valsa. Começou investigando a família, do ângulo da relação mãe/filha. Foi depois para o internato feminino, onde o interventor, entre a vigília e o sonho, nutre loucas fantasias com as garotas. Concluiu com a mulher de 30 que vive um louco amor pelo amor que ainda não tem. Teresa - ecos da santa de Ávila? - radicaliza a busca da identidade que também é da autora, e das mulheres de sua geração.

Talvez ela surpreenda ao afirmar - “Minha militância nunca foi o feminismo. É o cinema”. Por isso mesmo, e apesar das dificuldades que foram transformando seus filmes seguintes em bissextos - Amélia, em 2000; A Primeira Missa, 2014; Paixões Recorrentes, 2021/22 -, Ana nunca desistiu de refletir sobre o Brasil e o mundo. Apesar da riqueza de formas e temas, ela se coloca numa perspectiva curiosa. “Nunca iniciei nenhum filme dizendo ‘Vou fazer uma psicanálise do Brasil’. A criação tem muito de inconsciente. A gente faz e, às vezes, só muito tempo depois consegue refletir sobre o porquê de determinadas escolhas.”

Justamente as escolhas. Sempre foram ousadas, debochadas. A própria Ana diz : “Escrachadas”. O tema da sexualidade beira o absurdo. O padre Ney Latorraca vive um delírio em Das Tripas Coração e, em Sonho de Valsa, Ana excede nas metáforas. Fulana “entrou pelo cano” - literalmente.

A psicanálise continua em Paixões Recorrentes. Rodado na Ilha do Mel, no litoral do Paraná, o longa trata das relações tortuosas entre um produtor de teatro que explora sua atriz/estrela enquanto debate questões morais com um colega argentino. Luiz Octávio Moraes, Thérèse Crémieux e Luciano Cáceres estão no elenco e o filme, exibido no Festival de Roterdã do ano passado, arrancou do crítico Rodrigo Fonseca uma definição entusiasmada. “É um rasga-coração!” Será interessante rever e debater a obra documentária de Ana Carolina tentando descobrir, ou dimensionar, de que forma ela nutre a ficção de uma das maiores autoras do cinema brasileiro. 

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