Califórnia Filmes
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De 'Rainha de Copas' a 'Vai Que Cola 2', veja as estreias da semana com crítica do 'Estadão'

Entre as estreias de cinema da semana, há filmes fortes, como 'Rainha de Copas' e 'Quem Você Pensa Que eu Sou?', e hilários, como 'Vai Que Cola 2 - O Começo'; veja os trailers

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

11 de setembro de 2019 | 12h00

Com uma dúzia de novas estreias no cinema, o espectador terá de desdobrar-se se quiser assistir a todos. Dois são franceses, e abordam o universo da internet e das redes sociais com diferentes propósitos – Adeus à Noite para debater a radicalização no mundo moderno e Quem Você Pensa Que Sou?, o falso e o verdadeiro no mundo digitalizado.

O inglês Mike Leigh traz seu poderoso Peterloo, e da Dinamarca vem uma espécie de versão de Fedra - Rainha de Copas. E o Brasil contribui com filmes de fundo histórico (Legalidade, Marés, etc). Agora, se você quiser rir, não tem outro - Vai Que Cola 2 – O Começo propõe a subversão LGBT do universo 'fadinha' de Xuxa em Lua de Cristal. É hilário.

Abigail e a Cidade Proibida

De Aleksandr Boguslavsky, com Tinatin Dalakishvili

Garota vive numas cidade fechada, aparentemente por causa de uma epidemia. Mas ela descobre que, na verdade, possui poderes especiais e a medida visa enfraquecer outros como ela. Fantasia russa recebida a pedradas por onde tem passado. Mas o trailer não é ruim e desperta certa curiosidade.

Adeus à Noite

De André Techiné, com Catherine Deneuve, Kacey Mottet Klein

Em seu oitavo filme com a estrela francesa, Techiné aborda um tema espinhoso. Catherine Deneuve faz avó que descobre que o neto se converteu ao Estado Islâmico e está partindo para a Síria para se tornar terrorista. O filme que começa com um eclipse – do Ocidente? - não oferece respostas para a radicalização da juventude da França que abraça a Jihad e tampouco vê na religião islâmica outra coisa que não esse apelo ao radicalismo. Mas é muito interessante como proposta de mise-en-scène. Câmera, atores, o filme é construído em permanente movimento, com cortes secos que interrompem o fluxo nos momentos mais críticos.

Divaldo – O Mensageiro da Paz

De Clóvis Mello, com Bruno Garcia, Regiane Alves, Guilherme Lobo

A vida do líder humanitário e filantropo Divaldo Franco. Da descoberta da mediunidade, na infância, à idade madura, ele é sempre, como assinala o subtítulo, o mensageiro da paz. Filmes altruístas não são garantia de grande cinema, mas tem crítico jurando que os cinco minutos finais são o que de mais belo o espectador poderá ver este ano. Será?

O Fim da Viagem – O Começo de Tudo

De Kiyoshi Kurosawa, com Atsuko Maeda, Ryô Kase

Repórter de um programa de turismo da TV japonesa visita o Uzbequistão e conhece outro mundo, outro estilo de vida, que a faz transformar-se. Numa cena, a protagonista entra num ônibus e é tomada pela insegurança ao perceber que todos os passageiros são homens. Serão hostis? Kurosawa é um grande diretor, e você pode estar certo de que o filme possui 'camadas'. Quanto mais você escava, mais profundo se torna.

Legalidade

De Zeca Brito, com Cléo, Leonardo Machado, Fernando Alves Pinto, Letícia Sabatella, José Henrique Ligabue

A renúncia do então presidente Jânio Quadros abriu uma crise sem precedentes. Militares e políticos tentaram dar um golpe, impedindo a posse de seu sucessor, o vice João Goulart, que estava em viagem comercial à China. O governador do Rio Grande do Sul criou então o movimento que chamou de Legalidade, mobilizando, via rádio, a população em defesa da ordem constitucional (e de Jango, que ocorria ser seu cunhado). Mistura de documentário e ficção, numa estrutura de docudrama, o filme utiliza imagens de época e cria um romance com base em personagens também reais (e suas falas). Em Gramado, foi chamado de novelão, mas esse tipo de romance (familiar e no tempo) é profundamente enraizado na literatura gaúcha de autores como Erico Verissimo e Luiz Antonio de Assis Brasil. Cléo, sem o Pires, é um assombro de beleza, formando triângulo com dois irmãos. Ela faz agente da CIA infiltrada no movimento como jornalista e Leo Machado, em seu último trabalho – e a quem o filme é dedicado -, é um Brizola vigoroso.

Marés

De João Paulo Procópio, com Lourinelson Vladmir, Julieta Zarza

Jornalista que está se separando da mulher precisa superar o alcoolismo para não ser separado da filha a quem ama. Parece outro novelão, mas a crítica elogia a veracidade do elenco e a forma como o roteiro integra, de fundo, a discussão sobre o impeachment da presidente Dilma Roussef, em 2016.

A Música do Tempo – Do Sonho do Império ao Império do Sonho

De João Velho

Documentário que usa o concerto inspirado no mito do 5º império português para debater os rumos da história. Pode ser interessante e, de qualquer maneira, sobram elogios para o grupo Música Antiga da UFF, que produziu o filme.

Peterloo

De Mike Leigh, com Roy Kinnear, Maxine Peake, David Moorst, Tim Innemy, Karl Johnson

O projeto recente mais ambicioso do inglês Mike Leigh, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes com Segredos e Mentiras, em 1996. Ele abandona por um momento o drama intimista, de fundo social, para abraçar o filme histórico. Inspira-se no chamado 'Massacre de Manchester', ocorrido em 1819, quando uma manifestação pelo direito a voto foi dissolvida a ferro e fogo pelo Exército britânico, matando 15 pessoas e ferindo outras 600. O roteiro plural cria diversos pontos de vista, da realeza ao povo.

Quem Você Pensa Que Sou?

De Safy Nebbou, com Juliette Binoche

Um viés intimista para abordar tema da maior atualidade – a manipulação das redes sociais. Mulher de 50 anos cria perfil falso, apresentando-se como jovem de 25 (com foto e tudo). A coisa não termina bem, e é interessante assinalar que, no outro lançamento francês da semana – Adeus à Noite -, o recrutamento dos jovens pelo Estado islâmico também se faz pela internet.

Rainha de Copas

De May El-Toukhy, com Tryne Dyrholm, Gustav Lindh

Drama dinamarquês fortíssimo, sobre família que implode quando mulher madura tem affair tórrido com o filho do primeiro casamento do marido. É a Fedra, da tragédia grega, e o título faz referência à personagem de Alice no País das Maravilhas - o livro de Lewis Carroll é citado várias vezes. Tryne, grande atriz, tem ousadas cenas de sexo com Gustav Lindh, e mais não se pode dizer, para evitar spoiler.

Vai Que Cola 2 – O Começo

De César Rodrigues, com Marcus Majella, Samantha Schmutz, Cacau Protásio, Emiliano D'Ávila

Algo se passou no humor brasileiro, e Ingrid Guimarães e Leandro Hassum foram substituídos por Paulo Gustavo e Mônica Martelli no gosto popular. Mas enquanto Paulo, quando não é Dona Hermínia, faz o amigo gay que apoia a amiga divorciada, Marjella é o gay interiorano, da periferia da periferia – 'pão com ovo' -, que não dá mole e disputa o bofe com Samantha Schmutz. O filme é uma 'prequel', mostrando como se formou a pensão de Vai Que Cola. Acredite: é de morrer de rir, e uma grande provocação nesse Brasil que abraçou o conservadorismo. O clipe musical, quando Majella ataca de Xuxa, na performance de Lua de Cristal – com Sérgio Mallandro e tudo – é impagável. Sucesso à vista?

Tsé

De Fábio Kow

Durante décadas, desde garoto, o diretor filmou a avó, uma judia polonesa que migrou para o Brasil após o Holocausto. O filme é afetrivo, conceitualmente defensável, mas essa avó tão amada não tem, para os demais espectadores, a mesma empatia que provoca em seu grupo familiar. Trata-se de outro programa interessante, de qualuer maneira, nesta semana em que registros documentais enriquecem os lançamentos com uma abordagem mais intimista sobre os temas da grande História.

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