De Palma reinventa o noir em "Femme Fatale"

Brian De Palma aproveitou o quadrodo Festival de Cannes de 2001 para realizar a seqüência deabertura de Femme Fatale, seu thriller que estréia amanhã.Você não precisa rezar pela cartilha do conceito de pós-modernopara divertir-se com a mulher fatal do diretor. Ele se aproximaestranhamente de Cidade dos Sonhos, o filme de David Lynchque concorreu em Cannes no ano passado. Duas mulheres, uma loirae uma morena, um clima de sonho invadindo a realidade emisturando as coisas, a mesma disposição de discutir a linguageme seus signos. De Palma sabe que ninguém influenciou ninguém."Essas coincidências acontecem. Artistas são antenas que captamos movimentos da sociedade. Ainda não vi o filme dele, mas deveser algo bem intrigante. David é sempre alguém que está fugindoda mesmice."Justamente a seqüência inicial de Femme Fatale.Rebecca Romijn-Stamos usa um disfarce para introduzir-se nobanheiro no qual está a atriz que usa, como vestimenta, umaroupa formada por jóias valiosíssimas. O plano é que ela seduzaessa starlette, num jogo homossexual, para roubar-lhe a roupa,com a participação de um cúmplice. A cena é visualmente muitoelaborada. De Palma explica por que discorda de um dos dogmas docineasta que foi seu mestre, Alfred Hitchcock. O rei de suspensediz a François Truffaut, no livro Hitchcock-Truffaut - que aBrasiliense deveria reeditar -, que sempre foi contra os iníciosretumbantes de filmes, porque achava que depois era muitodifícil manter o mesmo nível de intensidade das cenas até ofinal, sem prejuízo da história. "Hitchcock era contra apirotecnia das aberturas à James Bond e acho que tinha razão,pois com o tempo elas terminaram virando paródias da paródia,mas eu me esforço sempre para criar esses começos excitantes.Acho que depende muito deles o grau de adesão do espectador aoque vai ser mostrado, a seguir."Sempre quis filmar na França. Teceu a trama de FemmeFatale a partir de referências, como "d´ habititude"(emprega a palavra em francês). E teve a cumplicidade de amigos:Régis Wagnier, de Indochina, aparece como o diretor do filmedentro do filme que está sendo exibido em Cannes, Leste-Oeste."Thierry (o diretor de fotografia Thierry Argobast) diz que eugosto de brincar com a memória visual do espectador, usandocenas que fazem parte do nosso imaginário, gravadas em nossamente pelo cinema, ao longo de mais de um século. Sei que isso éverdade e admito que esse é um movimento muito consciente emmim." Depois de décadas de teoria de cinema de autor e da arteda referência, estabelecida pelos diretores da nouvelle vague,De Palma acha que ninguém mais pode fazer cinema achando queestá criando imagens originais. "Duvido muito que ainda sepossa criar algo que nunca tenha sido visto ou feito antes.Podemos eventualmente até fazer melhor, porque para determinadascoisas a técnica evoluiu muito e o cinema é uma arte que dependemuito da tecnologia, mas para mim o desafio é criar um discursonovo e estabelecer uma estética pessoal a partir de elementosque fazem parte do imaginário do espectador como do meupróprio."Pistas - Vários cineastas o influenciaram, umparticularmente - Hitchcock. No início de sua carreira, emfilmes como As Irmãs Diabólicas e, depois, em Vestida paraMatar e Dublê de Corpo, De Palma adquiriu a fama dediscípulo aplicado do mestre. Com o tempo, mostrou que tambémera um criador e não apenas um plagiador, mas manteve afidelidade à cena primitiva do seu cinema, que ocorre ser a cenamais famosa de um clássico de Hitchcock: o assassinato de MarionCrane na ducha, em Psicose. Houve depois referências aEisenstein (O Encouraçado Potemkin) em Os Intocáveis e aStanley Kubrick (2001, Uma Odisséia do Espaço) em MissãoImpossível, o primeiro da série com Tom Cruise. De Palmareconhece que gosta de usar as imagens como pistas,transformando-as em peças de um jogo de memória que permite aoespectador situar-se diante do desenvolvimento da história. Issofunciona especialmente junto aos cinéfilos. "Não faço filmes sópara eles, mas acho que há cumplicidade entre os cinéfilos e eu.Somos membros do mesmo clube."Laura, a personagem de Rebecca Romijn-Stamos, é o eixoda narrativa de Femme Fatale. Ela encerra o próprio sentidodo título do filme. "Quis homenagear as mulheres fatais dosclássicos do cinema noir que fizeram a minha cabeça. Laura é umamanipuladora nata. Imaginei-a desde logo com essa incrívelcapacidade de mudar de estilo e identidade. Como o personagem deAntonio Banderas, Nicolas, tentamos decifrar seu mistério e,quando nos damos conta, estamos envolvidos em sua teia demanipulação." Uma personagem dessas exige uma atriz especial eé aí que entra Rebecca Romjn-Stamos. Ela joga no time de MonicaBellucci. É uma deusa, uma das mulheres mais belas do cinemaatual. Loira ou morena, Rebecca, como sabem os espectadores deRollerball, o remake de John McTiernan, é um legítimoarrasa-quarteirão. "Talvez pudesse fazer o filme com outraatriz, mas Rebecca trouxe uma qualidade que considerofundamental para o papel. Queria me inspirar nas mulheres fataisdos anos 1940 e 50 e trazê-las para a atualidade. Com Rebeccaisso ficou mais fácil porque ela é uma mulher moderna até a raizdos cabelos."Na história, Rebecca rouba as jóias e é perseguida pelosantigos companheiros de crime, que acabam de sair da cadeia.Sete anos depois, ela virou a mulher do embaixador americano emParis e é caçada por um fotógrafo, um paparazzo, que esperafazer dinheiro com a imagem que ela, até por instinto desobrevivência, tenta manter longe da mídia. A trama está sempremudando e tomando rumos inesperados. Mais uma vez, De Palma podeser acusado de machismo, cinismo. Seu olhar sobre a mulher beirao chauvinismo, é verdade, ele reconhece, mas é uma construçãointelectual que é bobagem julgar em termos puramente morais eisso ele também está de acordo. Há deslumbrantes movimentos decâmera. "Queria libertar o noir de suas regras", ele diz. Ofeticismo reina: uma corrida de Rebecca é acompanhada pelacâmera rente ao chão, seguindo seus sapatos de salto-agulha. Nãoé de hoje que voyeurismo e manipulação são decisivos no cinemado diretor, no qual o fake vira uma ferramenta para investigar arealidade. Ele confessa que, por menos realistas que sejam seusfilmes, cada um deles tenta dar seu testemunho sobre o homem nomundo. "Somos todos voyeurs no cinema, não há um diretor quenão seja manipulador." Dessa maneira, se há um tema em FemmeFatale, em última análise é o cinema e nossa relação com ele.Femme Fatale. Suspense.Direção de Brian De Palma. EUA-Fr/2002. Duração: 115 minutos. 16anos.

Agencia Estado,

23 de janeiro de 2003 | 16h22

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.