"De Olhos bem Fechados" sai em vídeo

Chega ao suporte vídeo um finíssimo biscoito - De Olhos bem Fechados, o último Stanley Kubrick, que morreu sem ver a versão definitiva do seu trabalho. Essa morte, como se lembra, só fez aumentar o mistério em torno do filme, e seu carisma, pois acabou valendo como testamento estético. Além do mais, Kubrick escalou, para interpretar sua adaptação da novela de Arthur Schnitzler, o casal top de Hollywood, Tom Cruise e Nicole Kidman. A dupla se sujeitou aos caprichos de um perfeccionista crônico e dedicou-se por quase três anos ao filme. Não deve se arrepender. Foi o que de mais consistente fizeram na vida. Dificilmente terão experiência cinematográfica semelhante.O lançamento também permite desfazer alguns equívocos - o mais gritante, aquele que afirma que Kubrick teria saído de cena com uma obra menor. Ao contrário, De Olhos bem Fechados é um primor de sutileza e, sobretudo, uma lição do que seria uma arte ideal da filmagem. Nada nele existiria sem o clima que Kubrick consegue imprimir à narrativa. Uma trama, na verdade, inventada para a Viena da virada do século e que precisa ser ambientada para o fim do milênio. Muita gente boa culpou essa diferença no tempo como responsável pelo pretenso fracasso do projeto. A história do médico ciumento, interpretado por Cruise, seria démodé numa época de liberação de costumes. Cruise fica inseguro quando ouve a mulher (Nicole) dizer que experimentara um vago desejo de traição quando passavam férias em outro país. A partir daí, sai pela noite em uma trip erótica, que se passa muito mais em sua imaginação do que na realidade.Intencionalmente - e seguindo a indicação de Schnitzler no romance - Kubrick embaralha os limites entre os planos da realidade e da fantasia. De Olhos bem Fechados só funciona porque trabalha nesse limite. O que acontece é que o médico William Harford, vivido por Cruise, envolve-se em episódios menos eróticos do que estranhos. Conhece um homem que aluga roupas e prostitui a própria filha, procura uma garota de programas, mas não consuma o ato, faz-se convidar para uma orgia de ricaços, na qual o desejo se tranforma em morte, etc.Se alguma coisa se pode "censurar" em Kubrick, e isso com muitas aspas, é não ter mantido o grau de ambigüidade proposto por Schnitzler. No livro, explicitamente um "romance de sonho" (Traumnovelle, no original), os planos da realidade e da fantasia são completamente embaralhados. Schnitzler era contemporâneo de Freud, da época heróica da exploração do inconsciente, e não esconde essa influência. Nele, o plano da realidade psíquica tem mais valor objetivo que o do mundo empírico.Em Kubrick, essa relação se altera, em parte. Filosoficamente, é um anglo-saxão menos propenso ao idealismo que uma mente alemã. Além disso, está fazendo um filme e acha que necessita alguns pontos de ancoragem com a realidade objetiva. Por isso, o personagem interpretado por Sidney Pollack volta para explicar ao protagonista o que de fato aconteceu durante a noitada. Por isso, também, o final com a frase meio grosseira dita por Nicole Kidman. O livro é mais radical e não precisa desses pontos fixos. Não receia deixar o leitor perdido.Nem por isso Kubrick facilita as coisas. Recria, com seu domínio visual inigualável (basta lembrar de O Iluminado) a velha máxima freudiana, segundo a qual a realidade psíquica tem tanto valor de verdade quanto a realidade exterior. Ou mais ainda. Um desejo do qual não tem muita consciência move as ações aparentemente desordenadas de Cruise. Aproximar-se desse real do desejo é bastante difícil para um artista. Kubrick chegou perto, muito perto. Daí as resistências ao filme."De Olhos bem Fechados" (Eyes Wide Shut). EUA, 1999. Dir. de Stanley Kubrick, com Tom Cruise, Nicole Kidman, Sidney Pollack. Distribuição: Warner Home Video

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