FABIO MOTTA/ESTADÃO
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De olho no Oscar, Regina Casé fala sobre 'Que Horas Ela Volta?'

Filme de Anna Muylaert, que rendeu a Regina Casé e a Camila Márdila o prêmio de melhores atrizes de Sundance, estreia na quinta-feira, dia 27

Entrevista com

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2015 | 03h00

É tanta gente a dizer que Regina Casé só precisa da publicidade correta para ser indicada como finalista para o próximo Oscar de atriz – seria a segunda brasileira, após Fernanda Montenegro, por Central do Brasil, a conseguir isso –, que ela já está se acostumando com a ideia e até achando que pode ser. Sem falsa modéstia. “Ué, se ajudar o filme e o cinema brasileiro, por que não?” Todo esse auê começou no início do ano, depois que Regina e Camila Márdila, que faz sua filha, dividiram o prêmio do júri no Sundance Festival. Depois, quando Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, passou em Berlim, o próprio repórter, em seu blog, apostou em Regina como possível candidata ao Oscar de atriz. “Iiiihhh, mas tem muito chão ainda pela frente!”, ela exclama.

Que Horas Ela Volta? estreia em salas de todo o Brasil na quinta-feira, dia 27. Há grande expectativa em relação a esse lançamento. As comédias têm dado as cartas no cinema brasileiro, mas não as comédias autorais, como a de Anna Muylaert. O público vai corresponder? Tudo está sendo feito paras garantir a adesão. Neste domingo, 23, o filme terá uma sessão especial para empregadas domésticas em São Paulo. A Globo, associada ao projeto, está dando sua contribuição. Também nesse domingo, o Esquenta!, que Regina apresenta na emissora, pega carona nas relações entre patroas e empregadas do filme e brinca de ‘seu eu fosse você’. Uma patroa visita a casa da doméstica na comunidade e lhe prepara um café. A doméstica acompanha a patroa e vai com ela a um concerto na Sala São Paulo. Por telefone, a caminho da gravação do Esquenta!, Regina Casé conversou com o Estado.

Como você está vendo toda essa movimentação em torno de 'Que Horas Elas Volta'?

Estou adorando. Gosto muito de fazer cinema, de me comunicar, e acho ótimo que o filme esteja acontecendo, e em todo o mundo. Tenho marido diretor (Estevão Ciavatta), mas eu mesma não produzo, não dirijo, só atuo. Não tenho nada com a distribuição dos filmes, não palpito no que deve ser feito, mas me encanta saber que Que Horas Ela Volta? provocou tanta comoção em Sundance, que o júri de lá criou um prêmio que nem havia para a gente, e também que o filme está fazendo sucesso na França, na Itália.

E como foi sua parceria com a diretora Anna Muylaert?

Na verdade, já deveria ter sido. Anos atrás, a Anna me convidou para fazer É Proibido Fumar. A coisa estava andando, cheguei a dar algumas ideias para a personagem no roteiro, mas aí não pude ir adiante e a Anna chamou a Glória Pires, que interpretou lindamente o papel. Mas ficou aquela coisa – “Eu ainda vou trabalhar com essa mulher”, pensava. Quando ela me propôs a Val (a doméstica de Que Horas Ela Volta?), não vacilei. Foi só uma questão de acertar datas, e não foi fácil, porque tenho uma agenda corrida. Fiz o filme no que seriam minhas férias do Esquenta! na TV. Felizmente, deu tudo certo.

Há quase 40 anos, você fez 'Tudo Bem', de Arnaldo Jabor, que já era sobre a relação entre patrões e empregados num apartamento. Que lembrança você guarda?

Iiihhhh, cara, mas eu me lembro de tudo. Não era uma mansão de classe média alta, como em Que Horas Ela Volta?, mas um apartamento de classe média, no Rio, passando por uma reforma em Tudo Bem. Na verdade, o próprio Brasil estava passando por uma reforma. Começava-se a falar numa possível abertura. Eram os anos da ditadura. A grande diferença é que lá eu era a filha do patrão e aqui sou a doméstica cuja filha vem morar na casa dos patrões, no Morumbi, um bairro chique.

Você já disse (no set de Made in China) que tem muito orgulho de interpretar mulheres do povo...

...E tenho mesmo. Sou filha de nordestinos, não vou negar meus antecedentes. Pegue a Marlene de Eu Tu Eles, agora a Val. São mulheres fortes. A Marlene tem três maridos, a Val ralou em São Paulo para que outra criasse a filha dela no Nordeste. São mulheres batalhadoras, com as quais me identifico. Gosto de fazer essas guerreiras porque eu também sou assim.

Mas não lhe aborrece que você só seja chamada para esses papéis?

Mas eu não sou chamada só para eles. Repetiu-se há pouco a mesma coisa do É Proibido Fumar. Ia fazer o filme da Sandra Kogut, que seria quase o oposto do da Anna (Muylaert). Eu ia fazer a patroa, e outra seria a empregada, mas não deu. Teria sido bem legal fazer a personagem.

Como você vê a representação das mulheres do povo no cinema brasileiro?

Acho legal falar sobre isso, porque, na realidade, há toda uma mudança no País, e o cinema reflete isso. Houve um tempo em que a doméstica, a nordestina, só aparecia de fundo, uma coisa pequena, porque o foco estava num tipo específico de mulher, tanto físico quanto social. Ainda bem que as coisas mudaram e o cinema reflete mais o Brasil. Virei protagonista como uma doméstica nordestina. Quer mudança maior?

E como você se preparou para fazer a Val?

Nós todos, principalmente as mulheres, convivemos não só com babás, mas com empregadas domésticas desde pequenininhos. Essas pessoas acabam sendo muito importantes na vida da gente. São pessoas com as quais aprendo muito. Nem sabia que tinha um repertório tão grande. Não precisei fazer pesquisa nenhuma. Foi só abrir o coração, o baú. Veio tudo. Os gestos, os termos.

Em Gramado, Anna Muylaert disse que gosta de trabalhar com atores que tenham texto próprio. Deu para improvisar bastante?

Muito. Dentro da estrutura da cena, a Anna deixa a gente livre para recriar o texto com as próprias palavras. Foi muito legal.

O que você diria para uma doméstica, a sua Val?

Só posso agradecer às babás. Cuidaram da Benedita e agora do Roque, meus filhos. Sem elas não conseguiria fazer Esquenta! nem filme nenhum.

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