Warner Bros/Clay Enos
A diretora Patty Jenkins e a atriz Gal Gadot Warner Bros/Clay Enos

De 'Mulher Maravilha' a 'Star Wars', a ascensão de Patty Jenkins não teve interrupção

Em 2017, roteirista comandou filme de maior bilheteria dirigido por uma mulher

Lindsey Bahr, AP

29 de dezembro de 2020 | 10h01

Anos atrás, Chris Pine recusou Mulher Maravilha. Então surgiu Patty Jenkins, e de repente, sem sequer um roteiro completo, ele sofreu uma espécie de encantamento ao ouvi-la falar sobre a sua visão para o filme enquanto comia um hambúrguer no bairro Silverlake de Los Angeles. Imediatamente, o seu “Não” virou um “Sim”.

Jenkins, 49 anos, diretora e roteirista de Mulher Maravilha 1984, nos últimos anos conseguiu transformar outros “não” em “sim”. No meio tempo, não só ela se consolidou no topo da categoria dos filmes de grande orçamento, como também abriu novos caminhos para colegas com orçamentos, dias de pagamento e oportunidades espetaculares. Logo, ela será a primeira mulher a dirigir também um filme da série Star Wars.

Isto não surpreende o seu elenco, que admira profundamente a sua diretora. “Ela é a exata personificação do que considero imprescindível para um bom diretor. Isto é, tendo de ser por um lado um verdadeiro General Patton, capaz de tomar decisões, de grande clareza, ser um líder. Você tem de ser capaz de administrar várias funções por excelência”, disse Pine. 

“E ainda, também precisa ser muito tranquila, observadora. Precisa ser capaz de observar as pessoas às quais pede que representem para ela de maneira a falar precisamente da maneira como é preciso dirigir-se a elas a fim de conseguir extrair delas o que elas têm de melhor. Ela faz isto de uma maneira inigualável, em muitos sentidos”, ressaltou.


Pedro Pascal, que também trabalhou com Patty duas vezes, ficou impressionado com a sua sinceridade totalmente desprovida de ironia. Aliás, isto é o que alimenta e distingue os seus filmes sobre a Mulher Maravilha de outros de super-heróis. 

“Tudo o que ela faz, independentemente do gênero, independentemente se se trata de cinema ou de televisão, seja de grande orçamento ou independente, haverá sempre uma grande performance e sempre com uma integridade e riqueza na maneira de contar a história, totalmente consciente”, disse Pascal. “Ela não perde tempo insistindo em ser irônica ou legal ... a sua é uma espécie de honestidade visceral que, francamente, costuma ser subestimada. Mas, dado o seu valor, não basta”. 

Mesmo com a bilheteria e os elogios, Patty ainda precisa lutar para provar a sua capacidade. Em 2017, Mulher Maravilha foi o filme de maior bilheteria dirigido por uma mulher a superar os US$ 821 milhões em todo o mundo, provando aos céticos não apenas o valor dos filmes sobre superheroínas, mas inclusive dirigidos por mulheres. 


Embora Patty já esteja com a inevitável continuação em mente, seguiu adiante, oficialmente empenhada a dirigir até garantir um aumento equitativo, na faixa dos US$7 milhões a US$9 milhões. Não era uma soma incomum para um homem na sua posição, mas era inédito para uma mulher. E a exigência e a natureza pública da negociação não se sucederam com muita facilidade.

“Jamais na minha vida fui alguém que fala em dinheiro ou que pediria que uma situação como essa acontecesse comigo. No entanto, o filme foi extremamente bem-sucedido e eu tinha plena consciência de que não estava sendo paga no mesmo nível dos meus colegas. E assim, acabou ficando algo maior do que eu, embora, é claro, eu tenha consciência de mim mesma”, afirmou. “De repente, eu estava dizendo que, se não fosse eu, quem iria fazer isto? E ele se tornou um compromisso pessoal, e também uma espécie de dever”. 

Isto não só a ajudou, como também ajudou a abrir o caminho para que outras mulheres tivessem mais oportunidades para dirigir filmes importantes, e ela se tornou uma verdadeira mentora de suas contemporâneas. Gina Prince-Bythewood se encontrou com Patty algumas vezes na pré-produção do seu grande filme de ação The Old Guard. “Ela estava tão esperançosa”, disse Gina em meados deste. “O que ela conseguiu sob a pressão que sofreu foi realmente a luz que me guiou: o seu sucesso e como ela pôde realizar um filme tão bom. Foi um verdadeiro divisor de águas. Escancarou totalmente as portas para um grupo de cineastas como nós que tinham estreias este ano”.

Patty tem sido consultada por homens e mulheres indistintamente em busca de um conselho que lhes permita entrar na categoria de filmes maiores. “Há uma rede de cineastas prontos a ajudar uns aos outros", afirmou.

Assista ao trailer:

 


O ano de 2020 seria muito importante para produções de destaque dirigidas por mulheres como Mulher Maravilha 1984, The Old Guard, Birds of Prey, de Cathy Yan, Mulan, de Niki Caro, e Eternals, de Chloé Zhao. Apenas um deles teve uma estreia tradicional nos cinemas, Birds of Prey, lançado antes do fechamento em razão da pandemia. Outros foram para o streaming ou vídeo on demand, ou no caso de Mulher Maravilha, um híbrido. E tanto Black Widow quanto Eternals ficaram para 2021.

“Infelizmente, 2020 seria o ano em que todos eles deveriam estrear... E acabou sendo um mau momento”, afirmou Patty. Por outro lado, também está muito animada pelo fato de que aparentemente há uma grande virada na indústria e, à parte da pandemia, este ano provou que ela não foi uma anomalia. “A ideia de que ninguém havia realizado um filme nesta escala antes de mim, e que então tenham surgido cinco filmes na sequência, é impressionante”, afirmou Patty. “Obviamente estas diretoras estavam ali preparadas, aguardando a vez”.

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Gina Prince-Bythewood é a primeira mulher negra a dirigir um filme de quadrinhos

Filme 'The Old Guard', sobre um grupo de mercenários imortais liderados por Charlize Theron, está disponível na Netflix

Ann Hornaday, The Washington Post

14 de julho de 2020 | 11h00

 

Segundo a sabedoria convencional, um thriller de ação violento e fantástico sobre um grupo de mercenários sobrenaturais não se presta a um filme dirigido com foco em pessoas. Mas quando o diretor é Gina Prince-Bythewood esse senso comum pode estar errado.

Gina lembra o que repercutiu mais profundamente nela no caso de The Old Guard, adaptado por Greg Rucka de um romance em quadrinhos que ele criou com Leandro Fernandez, sobre um grupo de mercenários imortais. (O filme está agora na Netflix). Gina foi imediatamente atraída para a relação entre a líder do grupo, Andy, apelido de Andrômaca, interpretada por Charlize Theron – e sua protegida, uma formidável fuzileira naval chamada Nile, interpretada por Kiki.

“Amo a normalidade do filme”, disse Gina durante uma recente entrevista pelo Zoom, observando que Andy e seu vínculo com Nile, baseado na rivalidade, respeito e amizade entre ambas, é muito real. “Reflete muito a maneira como cresci, me tornei uma atleta ao lado das mulheres no meu círculo. Como nós éramos. Mulheres atléticas e ambiciosas, não apenas agressivas, em busca do que desejávamos, e não havia nenhuma vergonha disso – exceto no mundo exterior que entendia haver alguma coisa errada com você por gostar disto”.

Grande parte dessa dinâmica inspirou o filme de estreia de Gina, em 2000, Além dos Limites. O filme, sobre jogadores adolescentes de basquete cuja amizade se transforma em romance, foi estrelado por Sanaa Lathan e Omar Epps, marcou a chegada de um novo talento promissor na figura de Gina Prince-Bythewood e se tornou um clássico da comédia romântica. Em 2008, ela fez a adaptação de A Vida Secreta das Abelhas. Mais recentemente dirigiu o delicioso drama romântico Nos Bastidores da Fama e com seu marido Reggie Rock Bythewood produziu a série da Fox Shots Fired.

Com The Old Guard, Gina se tornou a primeira mulher negra a dirigir um filme baseado numa história em quadrinhos, uma distinção que traz orgulho e uma descrença cansada de que isso possivelmente levaria muito tempo. (Ela faz parte de um grupo de mulheres na direção de espetáculos para o cinema este ano, grupo que inclui Cathy Yan, Chloe Zhao, Patty Jenkins, Cate Shortland e Nicki Caro).

Ter personagens coadjuvantes interpretados por um grupo diverso de atores (Matthias Schoenaerts, Marwan Kenzari, Luca Marinelli e Chiwetel Ejiofor) foi tão atraente para ela quanto a história de Andy e Nile. “Adoro o fato de que este é um grupo de combatentes de diversas culturas, origens, orientações sexuais e gêneros que se juntam organicamente para salvar a humanidade”, ela observou, acrescentando que quando leu pela primeira vez o roteiro de Rucka e começou a visualizar o filme, “estava vendo o mundo como eu vejo, um mundo que é diverso e diferente e não tem nada da mesmice que às vezes prepondera no que é lançado por Hollywood”.

 

 

 

Quando ele começou a trabalhar com o material, sua identidade como uma mulher afro-americana influiu em praticamente cada decisão que tomou. “As coisas que me influenciaram, que observei, corrigi, amplifiquei, decorreram de uma lente feminina negra”, disse ela. 

Embora empolgada com o roteiro original de Rucka, Gina pediu a ele para detalhar mais a história pregressa de Nile, acrescentando elementos que tivessem a ver com sua família e experiência no Exército (onde, não por acaso, suas colegas são mulheres não brancas, muito similar à própria instituição). Mesmo as muitas cenas de luta no filme trazem a marca de uma pessoa com um ângulo diferente do usual olhar masculino branco. Uma cena em particular, com Andy e Nile num avião cargueiro, foi particularmente sensível para Gina.

“Não queria que alguém visse essa cena e dissesse: ‘É uma cena sexy de duas mulheres brigando”, sublinhou. “Eu queria ver duas mulheres duronas no corpo a corpo, mas também ver sua vulnerabilidade. Porque, para mim, atitude radical é isso, essa arrogância, essa força, mas também empatia e vulnerabilidade”.

Em muitos aspectos, The Old Guard se insere singularmente neste momento de ajuste de contas racial. Não só oferece uma distração escapista, arcaica, na era do coronavírus, mas parece o futuro do que a indústria cinematográfica percebe que tem de aceitar em decorrência das demandas revividas de inclusão e representação – na tela e por trás das câmeras.

Momentos como este já ocorreram antes, ela observa, mas desta vez é diferente. Por exemplo, ela já se lançou em dois projetos focados em mulheres negras “que não foram uma luta pela primeira vez em toda a minha carreira”.

Mas mesmo quando seu telefone começou a tocar depois dos protestos contra a brutalidade policial e a morte de George Floyd, os executivos brancos do outro lado da linha falavam de outra maneira. “As pessoas no poder que me ligaram se mostravam mais abertas, conversando, ouvindo, sem ficar na defensiva pela primeira vez. Meu marido e eu, com frequência, tentávamos falar com pessoas com as quais trabalhamos e elas ficavam na defensiva: ‘Bem, você sabe, estamos trabalhando no assunto’, ou ‘Eu sei, é um problema, mas não conseguimos encontrar alguém’”.

Desta vez, disse ela, “Nada disso ocorreu. Há uma espécie de cumplicidade e um real desejo de fazer melhor. Estou otimista quanto a isto. Minha única ressalva é que é preciso uma equidade de fato em todos os campos, mas com certeza em Hollywood, parte da sua acomodação tem de ser removida”. E quando as pessoas entenderem isto, elas de repente retornarão ao que é cômodo?”

Com frequência, o preconceito implícito se insere no próprio processo de desenvolvimento. No início deste ano, Gina escreveu um artigo para a revista Variety no qual relatou um episódio em que um revisor de roteiros, considerado um dos mais respeitados do setor, deu uma “polida” num filme em que ela estava trabalhando sobre uma poderosa heroína negra. Ele sistematicamente fragilizava a protagonista inserindo deixas como “ela treme” ou “ela se acovarda”, escreveu ela. “Foi chocante. Há um setor inteiro dentro da nossa indústria que tem a ver somente com revisão e automação. Temos de resolver isso, que dilui uma voz excepcional e original”.

Nos últimos anos uma nova geração de cineastas negros se lançou por conta própria, um grupo que inclui Ava DuVernay, Barry Jenkins, Steve McQueen, Dee Rees, Justin Simien e Ryan Coogler. Embora Gina faça parte desse grupo, ela não é novata. Seu primeiro filme, Além dos Limites, foi um dos primeiros filmes da idade do ouro das comédias românticas negras que incluíram No Embalo do Amor, Uma Loucura chamada Amor e O Melhor Homem

Em ambas as eras, o que pareceu um sólido avanço foi desmentido por números desencorajadores: ela aponta para as estatísticas de 2019 divulgadas pelo Writers Guild of America em que 80% de todos os roteiros de filmes foram escritos por roteiristas brancos.

“Os números são deprimentes. Mas um raio de esperança existe na diversidade das histórias que vêm sendo contadas. Existem muitos cineastas interessantes que estão tendo a oportunidade de fazer filmes distintos e diferentes. Não temos de nos fixar apenas em comédias românticas ou filmes de gângster. É nisso que venho insistindo o tempo inteiro. Vamos mostrar o alcance da nossa humanidade de modo que você veja através do nosso prisma e não a partir de uma ótica que não é autêntica e nem fidedigna”.

Tradução de Terezinha Martino

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'Mulher-Maravilha 1984': 'O vilão Max Lord provavelmente teria idolatrado Trump', diz Pedro Pascal

Ao lado de Chris Pine, ator conta suas lembranças no período dos anos 1980, em que o filme é situado

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

16 de dezembro de 2020 | 05h00

LOS ANGELES — A estrela de Mulher-Maravilha 1984 é do sexo feminino, lógico. Mas isso não quer dizer que os homens não tenham papéis de destaque, começando pela volta inesperada de Steve Trevor, o namorado de Diana Prince que ela conheceu na época da Primeira Guerra Mundial e que – atenção para o spoiler de Mulher-Maravilha – morreu no primeiro filme. Como ele consegue retornar do mundo dos mortos e ainda no mesmo corpinho de Chris Pine, aos 40 anos, é um dos mistérios da continuação. “Você vai ter de assistir para descobrir” é a resposta do ator quando indagado sobre o assunto em entrevista ao Estadão, em Los Angeles, em janeiro. 

Pedro Pascal interpreta Max Lord, um empresário-vilão criado à imagem e semelhança do Lex Luthor de Gene Hackman nos filmes originais do Superman, do Gordon Gekko de Michael Douglas em Wall Street – Poder e Cobiça e... de Donald Trump. “Ele era um personagem importante dos anos 1980”, disse Pascal ao Estadão. “E era uma representação daquela mentalidade de ter tudo e ir atrás disso custe o que custar. Infelizmente, Max Lord provavelmente teria idolatrado Trump na época.”

Nascidos respectivamente em 1975 e 1980, Pedro Pascal e Chris Pine viveram bastante aquele período. “Meus pais eram muito jovens, então iam a shows o tempo todo – e me levavam junto”, contou Pascal, que viu The Police aos 4 e depois Madonna, Tears for Fears, Rolling Stones. Sua mãe era obcecada por Prince e parava tudo o que estava fazendo sempre que ele aparecia na tela da MTV. Assistiu a Rambo – Programado para Matar aos 7. “Eram os anos 80!”, explicou. Também usava roupas Benetton e Fiorucci. Pine, por sua vez, se lembra de ter feito seu amigo Andrew chorar na frente do Chinese Theater, em Los Angeles, depois de verem E.T. – O Extraterrestre por não acreditar que o personagem era real – Andrew achava que sim. “Me lembro também de ter de sair da sala na cena de sexo de Top Gun”, contou. “E eu tinha todos os tipos de roupa de cama de Star Wars disponíveis.”

A relação de Diana e Steve fez com que se lembrasse, aliás, de pares como Michael Douglas e Kathleen Turner em Tudo por uma Esmeralda (1984) e Kate Capshaw e Harrison Ford em Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984). “Foi muito legal ter a chance de fazer um desses relacionamentos românticos que existem desde o início do cinema”, disse Pine. “Achei muito bacana a ideia de casar um romance com uma produção de ação de US$ 200 milhões. Porque quase não vemos mais filmes românticos.” De jeito nenhum, ele ficou incomodado com a posição de “namorado”. Na verdade, deu a ele perspectiva sobre o papel que tantas atrizes precisam interpretar no cinema. “Mas gostei de deixar a parte da ação pesada para a Gal”, contou. “Não precisar acordar todo dia às 5 foi ótimo.”

Pedro Pascal, que assistiu ao primeiro filme como espectador apenas, achou a experiência de ver uma super-heroína na tela grande emocionante. “Foi uma coisa muito estranha ir às lágrimas numa sequência de ação, mas foi o que aconteceu comigo quando a Mulher-Maravilha cruza a terra de ninguém”, disse. “Foi lindo ver uma super-heroína que tem poder na sua feminilidade, cuida dos outros e é fera no que faz. Foi uma experiência valiosa para todos porque é a experiência de todos.”

 

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‘Mulher-Maravilha 1984’. Gal Gadot dá vida novamente à icônica super-heroína: nova armadura dourada para triunfar Warner Bros.

'Mulher-Maravilha 1984': 'Quero o meu amor de volta', afirma a atriz Gal Gadot

Existe gente que minimiza o impacto da cultura de massas, mas Diana surgiu com o timing perfeito, no bojo do movimento #MeToo, com que as mulheres questionaram o machismo na indústria; no novo filme, tudo acontece de forma muito orgânica

Imagem Luiz Carlos Merten

Luiz Carlos Merten , O Estado de S. Paulo

Atualizado

‘Mulher-Maravilha 1984’. Gal Gadot dá vida novamente à icônica super-heroína: nova armadura dourada para triunfar Warner Bros.

Dezembro de 2019. A CCXP regurgita de gente. Milhares de pessoas comprimem-se para tentar ver Gal Gadot e a diretora Patty Jenkins na maior sala montada no complexo da São Paulo Expo. Há um ano, quem poderia imaginar que um certo vírus, surgido na China, iria se alastrar pelo mundo e fazer de 2020 a experiência infernal que ainda está sendo? Depois de toda a loucura da CCXP, foi num hotel encravado na natureza, no Morumbi, que o Estadão encontrou-se com a estrela e a diretora do filme fenômeno de 2017, Mulher-Maravilha. Existe gente que minimiza o impacto da cultura de massas, dos comics, mas Diana/Wonder Woman surgiu com o timing perfeito, no bojo do movimento #MeToo, com que as mulheres questionaram/desmontaram o machismo na indústria. Mas 2018 também viu a afirmação de um certo Pantera Negra. Quem poderia imaginar que, no fim de 2020, Chadwick Boseman já teria partido? Foi-se, mas o Black Lives Matter varreu o planeta como Wonder Woman havia feito antes.

Ao Estadão, Gal Gadot antecipou, na ocasião, o que era possível antecipar de Mulher-Maravilha 1984, que estreia nesta quinta, 17, nos cinemas brasileiros. E a diretora Patty Jenkins – “Tive a visão do que deveria ser esse filme enquanto estava fazendo o primeiro. Ninguém poderia prever que o filme se transformaria num fenômeno, mas havia boas chances de que fizesse sucesso e a gente tivesse uma sequência. No primeiro filme, Diana salva o mundo na 1.ª Guerra Mundial, mas perde Steve, o amor de sua vida. Na maior parte do tempo, era um filme cinzento. A guerra e seu cortejo de destruição. A ideia me veio como num raio. O 2 teria de ser muito colorido – excessivo. Quando se pensa em excesso no cinema, o que vem? Os anos 1980. Afirmada a personagem, o que mais esperar? Que Diana/Mulher-Maravilha seja a James Bond do mundo dos super-heróis. Fazendo um filme comecei a sonhar o outro. Não apenas o estilo dos anos 1980, mas ambientado em 1984, um ano emblemático”.

E Gal, linda – dessa mulher emana uma luz. Ela não parece uma superstar. Olha o repórter no olho, e ri – uma risada radiante, de quem está de bem com a vida. Qual será a grande novidade de MM84, Gal? “Quero o meu amor de volta”, ela diz. Mas Steve/Chris Pine morreu no fim do outro filme? Como poderá (re)viver? Em flash-back? E como, se o filme se passa mais de 60 anos adiante? Sem spoiler, espere o filme para ver. Mas tudo acontece de uma forma muito orgânica. “Cobre se não for assim”, agora é a diretora que fala. Gal já falava, há um ano, da eletrizante cena que abre o filme. Não exatamente a primeira, que é uma cena dela menina, sendo confrontada com a ética. Não mentir, não trapacear. No filme anterior, já fomos apresentados ao laço da verdade, e ele vai voltar. A cena de que Gal falava é a segunda na estrutura montada por Patty. Uma ação num shopping, cheia de piscares de olhos cúmplices.

Mulher-Maravilha virou ícone, as crianças projetam-se nela. Não apenas as crianças. De cara, Diana é apresentada a Kristen Wiig como Barbara, a cientista pouco confiante de si mesma que imediatamente já está soltando o verbo. Gostaria de ser segura como Diana. Na época, nem a atriz nem a diretora falaram de um detalhe fundamental nessa primeira parte, de abertura. Os saltos altos. Diana move-se com graça no alto de seus saltos. Barbara é um desastre, tropeça, quase cai. Se o cinema pode ser uma caixa (máquina?) de sonhos para fornecer ao público aquilo que deseja, só agora, depois de assistir a MM84, faz sentido uma frase de Patty – “Cuidado com seus sonhos”. Eles podem se realizar, mas, em geral, cobram um preço. Há uma pedra misteriosa, que surge na trama para realizar o sonho das pessoas. O de Barbara é ser como Diana, é se transformar numa superfêmea predadora alfa – mais poderosa que a Mulher-Maravilha. O de Diana é ter Steve de volta. E quem vai se apropriar da pedra, para dominar a mente das pessoas realizando os sonhos delas, é um tal Maxwell Lord, interpretado por Pedro Pascal. Uma coisa que Patty já havia antecipado, mas, claro, só agora faz sentido. “Será”, ela dizia há um ano, “um filme sobre duplos”.

Diana e Barbara, a Mulher-Maravilha e sua versão para o mal. Steve e Lord, o herói e seu antinomio. Lord está sempre falando para o filho de seu sonho de se realizar como herói aos olhos do menino. Sua obsessão por poder fará dele um monstro. E essa é a história. Gal, uma israelense que foi Miss em seu país e fez participação secundária em filmes como os da série Velozes e Furiosos, já falava na grande mudança que ocorre com a personagem. “O primeiro filme era sobre Diana descobrindo seus poderes e olhando a humanidade de fora. Agora, ela faz parte dessa humanidade e se vulnerabiliza. Sofre com a solidão e tem de fazer uma escolha trágica.” Alguma novidade em especial no novo filme? “Existem muitas novidades, porque desde o início Patty deixou claro que não seria simplesmente oferecer mais do mesmo. Felizmente, o estúdio lhe permitiu ousar. É uma história de amor e verdade, na qual Diana precisa de um novo uniforme para triunfar.” Esse uniforme – uma armadura dourada – foi sendo revelado ao longo do ano em publicações especializadas dos EUA. Será decisivo no embate definitivo entre Diana e sua rival, Barbara/Cheetah.

A estrela e a diretora adquiriram consciência do que representa ter feito um filme como MM, o 1. “O filme surgiu no momento em que o mundo e a indústria estavam prontos para uma heroína como ela. Agora, com todo excesso, acho que Patty tem uma consciência mais clara do que fizemos. Gostaria que MM vivesse mais vezes, mas só se for assim. Como uma mulher e heroína do nosso tempo. Vivi numa das regiões mais conflagradas da Terra (o Oriente Médio). Para mim, toda mulher é uma heroína, desde que não perca a humanidade nem a compaixão”, conclui Gal.

Veja o trailer de 'Mulher-Maravilha 1984':

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