De La Iglesia capricha no humor negro em Crime Ferpeito

Alex De La Iglesia foi um dos convidados importantes do Festival do Rio, no ano passado, que colocou o foco na Espanha. Vieram ele, os também diretores Carlos Saura e Fernando Trueba e a atriz Marisa Paredes. De La Iglesia mostrou seu filme Crime Ferpeito, que estréia hoje. Ele é engraçadissimo. Diz que pratica o humor negro porque o seu oposto, o humor ´branco´, que identifica na obra de autores como o americano George Cukor, é avesso ao seu temperamento. Elegância e refinamento não são papo para ele. Provocação, pelo contrário sim. Na cara-dura, De La Iglesia diz que só existe um diretor melhor que ele - e é Luis Buñuel. Crime Ferpeito - você não está lendo errado. De La Iglesia conta a história de um sujeito que sonha alto, mas se envolve numa morte que tenta ocultar. Ele é gerente de uma loja de departamentos, num shopping. Dá em cima das funcionárias. Tem uma, medonha, que o surpreende no ato de tentar esconder o cadáver e passa a chantageá-lo. O herói, triste herói, planeja matá-la, mas é um perdedor nato. O crime perfeito sai errado e vira ferpeito. De La Iglesia costuma ser comparado ao Pedro Almodóvar da primeira fase. Faz filmes extravagantes, marcados pelo exagero e com personagens no limite do bizarro. Ele afirma não ter consciência disso, mas adora a linguagem dos quadrinhos e é muito influenciado por ela. A invasão do shopping pelos clientes consumistas sai diretamente de Uderzo e Goscinny - De La Iglesia confessou ao repórter do Estado, no Rio, que ao vê-la na tela se deu conta de que havia filmado a chegada de Obélix a Roma. Rafael, o protagonista de Crime Ferpeito, já foi comparado ao Wolf de Tex Avery. Tem o mesmo perfil de candidato a vencedor que se revela o oposto - o ferpeito perdedor. Tudo o que Rafael quer é voltar à sua vida anônima, mas Lourdes, a funcionária que o chantageia, vira um empecilho. Para se livrar dela, Rafael fará o que for necessário. De La Iglesia filma um mundo de perdedores, de consumidores obsessivos que tentam compensar suas frustrações no ato de comprar. Numa cena, todos se vestem de palhaços. Embora um tanto óbvia, a metáfora é clara - no mundo de Crime Ferpeito, que para De La Iglesia é o nosso mundo, somos todos palhaços. De La iglesia acredita no humor como a mais eficiente das armas - contra a massificação e a mediocridade, contra a burrice. No Rio, ele confessou. É o fã número um do terrir, o terror com riso, de Ivan Cardoso. De La Iglesia também pratica o seu terrir. A cena em que Lourdes esquarteja o cadáver é uma insanidade, mas o terror de verdade é ver essa mulher feia tentar tirar proveito da situação. Na ótica do diretor, tudo tem de ser perdoado a Rafael. Almodóvar evoluiu para um tipo de cinema mais maduro e sofisticado. De La Iglesia não leva jeito de completar essa evolução, mas, se vale a comparação, Crime Ferpeito é, em matéria de humor, o que um Almodóvar antigo, O Que Fiz Eu para Merecer Isso?, ainda em cartaz nos cinemas, poderia ser, se não tivesse envelhecido tanto.

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