Supo Mungam Films
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'De Canção em Canção' estreia no momento em que Terrence Malick é contestado

Terrence Malick vê na falta de conexão entre as pessoas a origem da crise em 'De Canção em Canção'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2017 | 06h00

Filmes como Terra de Ninguém/Badlands, de 1974; Cinzas no Paraíso/Days of Heaven, de 1978; e Além da Linha Vermelha, de 1998, esculpiram o mito de Terrence Malick. Repare nas datas - quatro anos entre o primeiro e o segundo filmes, mais 20 até o terceiro. Ao longo desses 24 anos, Malick tornou-se o grande recluso do cinema norte-americano - o J.D. Salinger do cinema. Como o escritor, que se recusava a aparecer ou dar entrevistas, o cineasta se recusa a fazer o jogo do cinemão. Ele tem uma cara, que você encontra na internet. Mas não vai às próprias estreias, não concede entrevistas. Não pisou no tapete vermelho nem para receber a Palma de Ouro, que ganhou por Árvore da Vida, em 2011.

Algo se passou depois disso. Em apenas cinco anos, Malick tornou-se prolífico, Fez três longas - Amor Pleno, Cavaleiro de Copas e De Canção em Canção, que estreia nesta quinta, 20. Mais dois documentários - um longo, Voyage of Time - A Life’s Journey, e outro curto, Voyage in Time - The Imax Experience. O jornal inglês The Guardian foi direto ao ponto. Malick está precisando de uma parada. “Should have a break”, como escreveu a publicação, em sua versão online. Malick deveria parar de produzir loucamente, e se reinventar. Pois esses três longas ficcionais, ao contrário das viagens dos anteriores, parecem todos variações do mesmo filme.

Belos, famosos, ricos. O típico personagem de Malick é angustiado. Homens e mulheres em busca do sentido da vida - no sexo. Talvez se pudesse até fazer um paralelo entre a busca de Malick e a do autor brasileiro Walter Hugo Khouri, que morreu em 2003. Khouri, a partir de determinado momento, filmava sempre o mesmo personagem, chamado Marcelo. Um priápico, que buscava, mais que a redenção, uma ascese (no sentido cristão) por meio da degradação do sexo. Ben Affleck, Olga Kurylenko, Javier Bardem em Amor Pleno. Christian Bale, Natalie Portman, Cate Blanchett em Cavaleiro de Copas. Ryan Gosling, Michael Fassbender, Rooney Mara, Natalie Portman (Cate Blanchett) em De Canção em Canção.

Depois dos bastidores de Hollywood, no longa anterior, a cena musical de Austin, no Texas. Fassbender transforma Gosling em superstar, mas ambos brigam por créditos (e direitos) envolvendo canções. Num determinado momento, dividem a mesma mulher. Rooney Mara vai dos braços de um aos de outro. De canção em canção. De beijo em beijo, mas, em vez de plenitude, o sentimento de vazio.

Há um culto a Terrence Malick e a seu cinema autoral, filosófico. O problema é que, cada vez mais, os filmes parecem seguir uma fórmula. De Canção em Canção é a quintessência desses ‘momentos’ Malick. Em interiores de grande luxo ou em cenas abertas, na natureza, os atores executam uma espécie de dança diante da câmera. Se em interiores, os poucos objetos realçam a riqueza, os ambientes criam um sentimento de vazio. Eventualmente, você pode até perceber que as pessoas estão conversando, ou gritando, mas não se ouvem os diálogos. A fala é feita por meio de monólogos em off, por meio dos quais BV, Cook e Faye, os personagens de Ryan Gosling, Michael Fassbender e Rooney Mara expressam seus sentimentos. Nem sempre o que dizem está conectado com a imagem.

Essa ausência de conexão é a pedra de toque do cinema de Terrence Malick. Ele não quer apenas desconstruir o relato tradicional, o que seria um procedimento, digamos, estilístico. Ele quer falar da falta de conexão - das pessoas entre elas e com o mundo - como uma tragédia contemporânea. Tal é o sentido da construção dramática de De Canção em Canção. Nesse meio ‘musical’ - e o filme tem participações de figuras icônicas como Iggy Pop, Flea e Patti Smith (além de Val Kilmer, eterno Jim Morrison) -, as cenas confrontam o trio de protagonistas, mais a Rhonda de Natalie Portman, com os grandes temas do homem. O sexo, o amor, a vida, a morte. 

Dinheiro e fama não trazem a plenitude. BV precisa reencontrar a felicidade, deitar-se na grama, sentir sua conexão com a terra. Retorno à simplicidade ou a mais banal das ‘mensagens’? 

Talvez o aspecto mais importante a ser ressaltado em De Canção em Canção diga respeito à simetria audiovisual do filme. Malick trabalha com um grande diretor de fotografia - Emmanuel Lubezki -, funde partitura e música incidental e, principalmente, trabalha com três montadores. São sempre muitos montadores e, na coletiva de Árvore da Vida, em Cannes, na ausência do diretor, atores, fotógrafo (sempre um) e montadores foram decisivos para quem tenta decifrar o mistério, ou identificar o método do cineasta. Malick trabalha com mais de um editor, separadamente, às vezes na mesma cena, para ver qual vai lhe entregar o que muitas vezes nem ele sabe ainda que quer.

O filme nasce desse movimento de desconstruir para harmonizar. Vale-se de falas enfáticas e muitas vezes grandiloquentes. BV fala da piscina na casa de Cook. Não é uma piscina - é um palco, ele retruca. O filme busca esse movimento para mais, para depois tentar convencer que não. O menos é mais importante. O simples. O autêntico. O pé na grama. Sem dúvida que é belo ver e ouvir o novo Malick, mas, como autor, ele está chegando a um ponto crítico. É tanto, para tão pouco.

Um percurso autoral, no qual ideias filosóficas predominam

É uma obra limitada, em termos de números. Tirando um ou outro curta, a obra de Terrence Malick (1943) resume-se a oito longas-metragens. Há grandes intervalos entre um e outro, embora, nos últimos tempos, Malick venha acelerando sua produção. “Acelerando” em seus termos, claro. O homem não tem pressa. 

Tendo se formado em filosofia, impregna sua obra de reflexões, justo sobre o tempo, o sentido das coisas e questões éticas. O que não o torna lá muito palatável para uma indústria voltada quase única e exclusivamente para o entretenimento de consumo rápido. 

No entanto, pela formação, Malick parece situar-se numa zona mista. A filosofia o habilita à especulação, mas o trabalho como repórter de várias publicações (entre elas a revista The New Yorker) o coloca com os pés bem firmados no chão. Aplicada ao cinema, essa duplicidade faz com que parta do real e, daí, busque o sentido de tudo, ou a sua falta. 

De Terra de Ninguém (1973) a De Canção em Canção (2017), Malick percorreu caminho próprio e explorou seus temas preferidos com crescente sentido autoral - o que significa a luta pela linguagem própria. Dessa forma, fez Além da Linha Vermelha (1998), filme de guerra pouco usual, em que a meditação se sobrepõe à ação, vencendo o Festival de Berlim. O mesmo se pode dizer da originalidade de O Novo Mundo (2005), sua visão da história da conquista da Virginia e do contato dos exploradores com os nativos. 

Um ponto de chegada, talvez sua obra síntese, A Árvore da Vida (2011) lhe valeu a Palma de Ouro em Cannes. Através da história de uma família em Waco, Texas, na década de 1950, Malick esboça um paralelo com a vida cotidiana e vai além, buscando o sentido humano, das origens e do seu destino. Tamanha ambição teria derrotado artista menos dotado, mas o filme é maravilhoso e profundo. 

Na comparação com a Árvore da Vida, o trabalho seguinte, Amor Pleno (2012), poderia ser visto como um tanto decepcionante. Numa história que mescla amor divino e amor profano, Malick parece apenas tirar algumas consequências do longa anterior. Mesmo assim, é tudo menos banal. Suas ideias são ricas, as cenas intensas e o todo faz pensar. E sentir. 

No contexto da obra, De Canção em Canção, apesar de seu brilho, parece um filme de passagem, com o qual Malick prepara um salto maior. Já tem um inédito em pós-produção, Radegund, história de um objetor de consciência austríaco que se nega a lutar pelos nazistas na 2ª Guerra Mundial.

 

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