De azarão a galã, em uma noite de Oscar

Sorte de Halle Berry ter recebido um beijo caloroso de Adrien Brody no domingo passado - e não quatro anos antes, quando iria encontrar na boca do ganhador do Oscar de melhor ator de 2003 um aparelho dental. O americano de nariz grande, enorme, que desponta como o novo galã de Hollywood - por enquanto por trás das câmeras, jogando charme para a mulherada - tinha um sorriso metálico até 1999, quando tirou o aparelho para atuar no filme O Verão de Sam, de Spike Lee. Brody arrancou gritinhos de mulheres de todo o mundo na cerimônia do Oscar ao pegar "de jeito" Halle Berry e trocar olhares sedutores com a também vitoriosa Nicole Kidman - e assim passou de patinho feio a bonitão. A atriz deixou o evento com ele, enlaçada pela cintura e pedindo socorro a Brody quando um cisco caiu em seu olho. Nascido e criado em Nova York, Brody passou a adolescência entre latinos e negros do Brooklyn, o que explica, em parte, seu comportamento meio "latin lover". Amante de hip-hop e produtor musical, ele levou o estilo "malandro" para dentro do Teatro Kodak Royal. O ator trabalhou em pequenas produções antes de se tornar candidato a galã - há quem defenda que não há charme que esconda um nariz tão feio. Que o diga Marília Gabriela que, durante a transmissão do Oscar, tentou convencer Rubens Ewald Filho de que o moço tem lá seus atrativos. Um dos primeiros papéis de destaque de Brody foi justamente o do filme de Spike Lee, que marcou o início de sua metamorfose. Ao sair do dentista com o sorriso limpo, Brody foi direto rodar O Verão de Sam. Ir para o estúdio com a boca ainda doendo não foi nada. Pior foi interpretar Wladyslaw Szpilman, o personagem principal de O Pianista, filme de Roman Polanski pelo qual ganhou o Oscar. Personagem verídico, o músico sobreviveu ao gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial escondendo-se em sótãos e porões de amigos e em casas abandonadas. "Fazer este filme foi uma das experiências mais difíceis da minha vida. Provoquei em mim mesmo um péssimo estado mental para conseguir viver Szpilman. Eu quis conhecer o desespero." Como Polanski começou as filmagens pelo final do roteiro, quando o pianista está à beira da morte por causa da fome e de doenças, o ator teve de emagrecer 15 quilos. "Fiz a dieta da zona de guerra. Nada de gordura, carboidrato, açúcar, frutas ou grãos. Tente fazer isso por uma semana e imagine que eu fiz por oito", disse ele numa entrevista. Para resistir às tentações gastronômicas e "encontrar o sofrimento", Brody impôs a si mesmo reclusão total. Vendeu o carro e ficou enfurnado num quarto de hotel, onde estudava quatro horas de piano por dia, aprendia polonês e decorava o script. No primeiro dia de filmagem, se sentia tão fraco que disse ao diretor que não teria energia para pular um muro como previa a cena que seria rodada. "Ele me disse: ´Para quê você precisa de energia? Faça o que eu mando´", contou Brody. "Comecei a chorar e percebi que seria uma difícil jornada." O comportamento autoritário de Polanski, segundo comentou-se nos bastidores, provocou discussões entre o pupilo e o diretor polonês. Mas quando se refere a ele, Brody - que costuma pesar as palavras antes de falar - é só elogios. "Foi uma grande oportunidade trabalhar com um tremendo diretor. Polanski é genial". Brody se entregou de tal maneira ao personagem que seis meses depois do fim das filmagens de O Pianista continuava deprimido. Resultado: perdeu a namorada que tinha há anos e se tornou um chorão. "Bastava um copo de vinho para me fazer chorar." Claro que os tempos de depressão já eram - a festa do Oscar foi a comprovação disso. Adrien Brody atuou pela primeira vez aos 12 anos. Incentivado por sua mãe, uma fotógrafa, freqüentou a American Academy of Dramatic Arts e a High School for the Performing Arts. Estreou no cinema em 1993 com Steven Soderbergh em O Vendedor de Ilusões, mas foi em 1998, no filme de Terrence Malick Atrás da Linha Vermelha, que começou a chamar atenção. Seu papel no filme seria de destaque, mas o diretor fez diversos cortes e Brody acabou fazendo uma ponta. "Eu trabalhei duro e aquilo me irritou profundamente. Mas invés de ficar amargo, pensei: ´isso vai me deixar ainda mais forte´." A recompensa, e também o que previa a frase de efeito, se concretizou. Do jeito que Hollywood gosta.

Agencia Estado,

27 de março de 2003 | 15h06

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