Day-Lewis cria sotaque para "Gangues"

Daniel Day-Lewis é conhecido pelo método quase obsessivo de interpretação. Desde que o ator britânico encontrou o sotaque certo para o personagem Bill Açougueiro, ele não o abandonou durante os oito meses de filmagem do épico Gangues de Nova York, nos estúdios Cinecittà, em Roma. Falava com a voz do líder sanguinário durante os intervalos, nos jantares com a equipe de produção e até ao telefone, com a família, incluindo os filhos, de 8 e 5 anos."Ao encarnar um novo personagem, coloco toda a objetividade de lado. É como resgatar a inocência de quando eu era criança", disse o ator de 45 anos, afastado das telas desde 1997, quando rodou O Lutador. "Prefiro não revelar o que fiquei fazendo nesse tempo longe do cinema. Só posso dizer que a vida me desviou do caminho e, depois, me colocou de volta", resumiu o ator, que morou uma temporada em Florença, na Itália.Antes de pisar no set de Gangues, o 15º longa-metragem de sua carreira, o ator perfeccionista fez um intenso treinamento com facas, habilidade que ele já havia demonstrado em O Último dos Moicanos. Enquanto rodava a produção em 1992, ele costumava arrancar a pele dos animais nos intervalos de filmagem para o horror dos demais membros da equipe. Tenho dificuldade para descrever o meu processo. Talvez por isso eu leve tanto tempo para me decidir por um personagem e mais tempo ainda para me livrar dele.Formado na Bristol Old Vic Theatre School, Day-Lewis mergulhou no período histórico em que Gangues é ambientado (de 1846 a 1863), momento em que Nova York era palco de brutais guerras de gangues. Li todos os documentos e livros que pude, incluindo um dicionário publicado na época pela polícia, onde usaram uma linguagem que só os oficiais entendiam. Não compreendi muito, mas a obra me deixou ainda mais intrigado, contou o ator, dirigido aqui pela segunda vez por Martin Scorsese depois de A Época da Inocência.Vencedor do Oscar pela impressionante atuação em Meu Pé Esquerdo, em 1990, Day-Lewis disputa novamente a estatueta de melhor ator neste ano pelo desempenho como o líder anticatólico na Manhattan do século 19. Esta é a sua terceira indicação. Em 1994, ele concorreu ao prêmio pela atuação em Em Nome do Pai. É sempre lisonjeador ser indicado pela Academia, disse, durante entrevista coletiva concedida em Berlim, onde Gangues de Nova York encerrou o festival alemão.Neto do produtor de filmes de Alfred Hitchcock, Day-Lewis se deu conta de que queria ser ator aos 12 anos. Durante o período que passei no colégio interno, o meu mundo era desanimador. Foi o teatro que iluminou a minha vida de um jeito que nenhuma outra profissão conseguiria, disse o ator, filho do premiado poeta Cecil Day-Lewis e da atriz Jill Balcon.Ser ator é, na visão de Day-Lewis, ser convidado a descobrir um mundo até então desconhecido. Eu acabo fascinado pelas coisas e pelas épocas que não entendo muito bem. E quero que o público compartilhe desse sentimento comigo, contou o ator, com uma certa predileção por épicos. Atuou em Uma Janela para o Amor, A Época da Inocência e As Bruxas de Salém, entre outros. Mesmo quando o filme faz uma reconstituição histórica, o ator disse não ter a ilusão de apresentar um retrato fiel do período. São apenas interpretações de um determinado momento. Honesta é apenas a nossa maneira de contar a história.Ainda que Day-Lewis encare a profissão muito severamente, ele disse que filmar algumas cenas de Gangues lhe trouxeram imenso prazer. Como a que Bill Açougueiro bate a ponta da faca no olho de vidro. Talvez o ator nem sempre tenha consciência, mas momentos como esse definem a sua interpretação. Só tomo o cuidado para não me levar muito a sério. O ator tende a ficar entusiasmado com tudo, inclusive com coisas que acabam se revelando insignificantes ao longo do processo.

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