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David Fincher ilumina a sombria natureza humana

Diretor buscou inspiração no velho André Cayatte para se reinventar com 'Garota Exemplar'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

02 de outubro de 2014 | 09h47

Reese Whiterspoon tem crédito como coprodutora de Garota Exemplar. Ela comprou os direitos do livro da jornalista Gillian Flynn, pensando em fazer a protagonista, mas foi dissuadida pelo diretor David Fincher, que teve de bater o pé para convencer a Fox a aceitar Rosamund Pike no papel de Amy. A beleza fria da atriz é perfeita para o que Fincher está querendo dizer (e fazer). É um autor atraído pelos aspectos sombrios da natureza humana. Pode estar falando sobre aliens, um hipotético clube de luta, um dupla de policiais na caçada a um assassino em série (Zodíaco) ou sobre o criador do Facebook (A Rede Social) – seu tema é sempre o mal que as pessoas conseguem fazer aos outros e a elas mesmas.

Na manhã do quinto dia de seu aniversário de casamento, Amy/Rosamund desaparece. O ideal era que o espectador não soubesse nada da trama ao ver o filme, o que ocorreu com o repórter, que não leu a sinopse nem o livro de Gillian Flynn. Se possível, pare agora e retome a leitura depois de ver Garota Exemplar. Amy foi uma garota mimada, cuja infância virou uma série de livros dos pais – Amazing Amy. Ela cresce para se transformar em Rosamund e fazer com Ben Affleck o casamento perfeito. Não é nada disso.

Existem dois relatos. O primeiro, do ponto de vista de Nick/Ben Affleck, mostra o marido virando principal suspeito do desaparecimento/assassinato da mulher. Cada vez mais, as evidências o incriminam. E, então, de repente, muda tudo e o ponto de vista é o de Amy. É uma sociopata, uma manipuladora vingativa que vai matar e usar o circo midiático – sendo, como é, a garota exemplar – para atingir seu objetivo, que é o controle do marido que lhe escapa.

Além de grande cineasta, Fincher é cinéfilo. Na preparação de Garota Exemplar, ele, com certeza – senão a própria Gillian Flynn –, deve ter revisto os filmes do francês André Cayatte, dublê de advogado e cineasta, que adorava discutir a Justiça. No começo dos anos 1960, Cayatte fez a dissecação de um casamento, contando a história de A Vida Conjugal por meio de dois filmes, do ponto de vista do marido e da mulher. 

Pouca gente vai admitir isso, mas o próprio Alain Resnais seguiu suas pegadas em Smoking/No Smoking, 30 anos depois. Na sequência, Cayatte emendou A Vida Conjugal com Dois são Culpados, construindo seu suspense em torno de três fugitivos, e só um é inocente de assassinato, mas qual? É um pouco a questão de Garota Exemplar. Para a polícia, a mídia, o marido é culpado, mas de quê mesmo? De matar ou simplesmente não amar mais a mulher? É o melhor papel de Ben Affleck, o melhor de Rosamund Pike. O melhor filme de David Fincher? Pelo menos tão bom quanto Seven, Zodíaco e A Rede Social, com os quais tem tudo a ver. 

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