'Das Weisse Band' surpreende e se torna favorito em Cannes

Filme do diretor Michael Haneke que mistura sociologia e sobriedade apavorante ofuscou 'À l'origine'

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Por Efe
Atualização:

O polêmico diretor austríaco Michael Haneke, de A Professora de Piano, voltou nesta quinta-feira, 21, a Cannes com um dos filmes favoritos a conquistar a Palma de Ouro, Das Weisse Band, que mistura sociologia e sobriedade apavorante e que acabou ofuscando o também ótimo À l'origine, de Xavier Giannoli. O Festival de Cannes entra na reta final acelerado: dois filmes longos - duas horas e meia cada -, belos e muito diferentes entre si, mas de altíssimo nível social, filosófico e, principalmente, cinematográfico.

 

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Iconoclasta e revolucionário, em várias ocasiões Haneke descreveu a si mesmo como um otimista que acredita que o espectador reagirá aos golpes secos do cinema que faz: "Todos os meus filmes falam da violência, refletem sobre sua representação", disse nesta quinta em entrevista coletiva.

 

Dois anos após estender sua mensagem aos Estados Unidos, voltando a filmar em inglês o ofensivo Violência Gratuita (1997), com Das Weisse Band o cineasta aposta no alemão - após um prolongado idílio com o cinema francês. Com isso, ele resolve com precisão cirúrgica e amargura poética o retrato em preto-e-branco de uma comunidade alemã nos prefácios da Primeira Guerra Mundial.

 

O diretor de Caché (2005), pelo qual recebeu em Cannes o prêmio de melhor cineasta, se serve deste microcosmos que parece mais digno de Bergman ou Dreyer para retratar "com distância, evitando o naturalismo", as devastadoras consequências dos rígidos padrões morais e sua projeção sobre as novas gerações. "Os princípios absolutos são, em si mesmos, desumanos e, em algumas ocasiões, se traduzem em terrorismo", refletiu o diretor.

 

"Mas não é porque é a Alemanha que estou falando de fascismo. É um problema que corresponde a todos", prosseguiu o diretor. Mais uma vez, Haneke situa uma misteriosa ameaça como elemento desestabilizador de um núcleo humano de aparência mais que perfeita.

 

Nos outros filmes, os mais recentes, o medo vinha do exterior. Das Weisse Band se passa em tempos nos quais a vida era mais simples e fechada, mas os problemas eram basicamente os mesmos. Das Weisse Band mantém, então, as obsessões de Haneke, mas passadas por um filtro brechtiano, fruto de dez anos de elaboração do roteiro.

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Dele, toma a beleza asséptica e o verniz paralisante dessa realidade à qual é preciso se aproximar com olhar lúcido e intelectual, escapar da paixão e da misericórdia. E o resultado é uma produção com uma textura fria e densa, quase irrespirável, que vai sedimentando camadas e camadas do bom cinema até formar, na contraposição da sofisticação dos planos e a podridão dos personagens, uma obra-prima da desolação.

 

Por isso, é mérito dizer que À l'origine soube disputar de igual para igual com o grande adversário deste oitavo dia de mostra competitiva. Com o longa-metragem, o francês Xavier Giannoli volta a Cannes após o magnífico Canções de amor.

 

INTERPRETAÇÃO

 

Gérard Depardieu, protagonista desse filme, assume agora um papel de coadjuvante e cede o papel central a François Cluzet, que, pela ótima interpretação, pode entrar facilmente para os mais cotados a vencer na categoria melhor ator. O mérito dele - partilhado com Giannoli - é dar credibilidade ao processo emocional de um ladrão que, ao sair da prisão, se aproveita de uma cidade com alto índice de desemprego e os engana com a construção de uma estrada.

 

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Dessa fraude inicial, e após a esperança que a notícia provoca em todas as pessoas, ele "percebe que é uma grande responsabilidade que o povo acredite nele", explicou o diretor. Por isso, o protagonista começa a se enrolar na mentira e passa a uma situação insustentável que vai evitando milagrosamente que se depare com a realidade, mas que está condenada ao fracasso.

 

Giannoli retrata com uma mão sutil o paradoxo do homem que descobre a verdade através da mentira e que descobre a nobreza através de um ato criminoso. Baseado em fatos reais, À l'origine adota o tom de fábula - realista - sobre a construção das metas vitais. "À l'origine fala do medo de se envolver na vida", explicou Giannoli, que apesar de tudo defende o carisma do protagonista. "Se vivemos em um espírito de ceticismo, não podemos ter vida social nem democracia", acrescentou.

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