Das canções indicadas ao Oscar 2014, U2 é o provável vencedor

A convite do Estado, João Marcello Boscoli comenta os indicados a melhor canção original

João Marcello Boscoli , Especial para O Estado de S. Paulo

02 de março de 2014 | 03h00

A Academia dedica duas categorias do Prêmio Oscar à música. Melhor canção original e melhor trilha sonora original. Ambas premiam o compositor, mas em campos diferentes de atuação. Por exemplo, Skyfall, Flashdance ou Raindrops Keep Fallin' On My Head são canções originais (compostas respectivamente por Adele & Paul Epworth, Giorgio Moroder, Keith Forsey & Irene Cara e Burt Bacharach & Hal David). Já o vôo do Superman, a espreita do Tubarão ou o mítico Star Wars são trilhas sonoras, composições originais feitas exclusivamente pra acompanhar o filme do início ao fim. Aliás, essas três são do compositor, maestro e pianista John Williams, o qual nessa edição recebeu sua 49.ª indicação ao Prêmio Oscar de melhor trilha sonora com The Book Thief, permanecendo ativo e vigente aos 82 anos. Williams só perde para Walt Disney em número de indicações ao prêmio da Academia. Vale ver a lista completa. Incríveis o talento, o poder de realização e o sortimento de gêneros cobertos pelo maestro, mantendo sempre uma assinatura musical própria.

 

Indo para as quatro inidicações da categoria de melhor canção original, todas são pertinentes, combinam dramaticamente com seus respectivos filmes e desempenham, portanto, sua função de maneira adequada. Let it Go, composta por Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez para Frozen, é uma típica balada americana contemporânea, baseada na diluição tipo-Hahnemann de gente como Cole Porter, Rodgers & Hart, Ira e George Gershwin, Johnny Mercer e Oscar Hammerstein II. Tornou-se um formato bem popular nos Estados Unidos, muito ouvido nas rádios FM, sobretudo a partir dos anos 70. A canção Let It Go subiria alguns andares se fosse interpretada por cantoras com o carisma de Barbra Streisand, Karen Carpenter ou Whitney Houston -- trariam mágica e encantamento extra ao tema, sem deixar de ser inofensivo como zela a Disney.

The Moon Song, de Karen O. (integrante do novaiorquino Yeah Yeah Yeahs) e do criativo Spike Jonze, também diretor de Ela, é singela e confessional, soando familiar logo na primeira audição, em parte por sua simplicidade. Típica canção de estética "indie", intimista e delicada, parece um bilhete musical amoroso escrito em um caderno ou guardanapo de papel. A música cresce e ganha novos significados quando assistimos ao filme.

Ordinary Love, provável vencedora, composta pela rapaziada longeva do U2 para Mandela tem os elementos-assinatura do grupo: guitarras climáticas e hipnóticas, o baixo sentido mas quase não ouvido, bateria segura e econômica, melodia matematicamente redonda e uma boa letra (prosódica como pedem versos musicados). Das melhores criações dos irlandeses nos tempos recentes, é capaz de envolver emocionalmente até quem não curtir o filme. Fora o todo, algo chamou minha atenção em Ordinary Love: a voz do Bono. Com uma afinação digital hospitalar asséptica provida por algum software utilizado em excesso, assemelhou-o a alguns de seus seguidores. Podem até ter tirado alguma "desafinação"do intérprete, mas levaram parte de sua alma no processo. Se não for por uma livre decisão estética e, sim, por achar errada a imperfeição humana, usar um afinador digital nesse grau quando se tem um Paul Hewson ao microfone é desnecessário e anti-humano. Diferente de Pharrell Williams (compositor da quarta indicada Happy); um produtor, músico, arranjador, rapper e designer, alguém que não tem no canto o ofício principal. Depende completamente do afinador digital para criar sua voz assim como os Minions dependem da área de efeitos especiais para voarem e explodirem coisas. E tudo bem.

Sobre sua composição Happy para o Meu Malvado Favorito 2, minha predileta, Williams acertou a mão em cheio. Inclusive na interpretação. Sua voz está boa de ouvir e o arranjo está puro Motown-sound. A canção Happy é um refrigerante gelado em pleno verão e poderia ser gravada por Marvin Gaye, Stevie Wonder, Jackie Wilson ou The Isley Brothers. Sendo fã de Pharrell desde 1996 quando ouvi Use Your Heart do grupo SWV e tendo comprado quase todas as músicas já produzidas ou remixadas por ele e seu parceiro Chad Hugo, desejo que entre todas as atividades - produtor, rapper, arranjador, desenhista de jóias, óculos, móveis e skatista - Skateboard P encontre tempo para o que há de mais urgente na sua vida hoje: ter aulas de harmonia e criar novos clássicos da música pop.

JOÃO MARCELO BÔSCOLI É PRODUTOR MUSICAL

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