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Daniel Filho entra na estética de guerrilha com ‘Sorria, Você Está Sendo Filmado’

Divertido, filme é um 'investimento' do sr. Bilheteria na webcam

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

12 Maio 2015 | 03h00

Daniel Filho é um raro diretor que acredita no take único e por isso gosta de ensaiar com seus atores para filmar o plano de primeira. Mesmo para um diretor com essas características, o caso de Sorria, Você Está Sendo Filmado, que estreou quinta, é especial. Sorria foi ensaiado durante três dias e filmado em dois, em ritmo de guerrilha. Como Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock, de 1948, é um falso plano-sequência. O espectador pode até pensar que está vendo um plano único, contínuo, captado por uma webcam, ou por uma dessas câmeras de segurança presentes em ambientes públicos, mas, na verdade, existem 15 cortes. São (quase) imperceptíveis. Será preciso ver Sorria muitas vezes para percebê-los.

Desde suas origens, o cinema brasileiro tem vivido o que se pode definir como surtos industriais. A Atlântida, a Vera Cruz, a Maristela, a Boca do Lixo, etc. Com 16 filmes no currículo (como diretor) e cerca de 30 milhões de espectadores, Daniel Filho não é só o Sr. Bilheteria, mas também o Sr. Indústria, se é que se pode dizer assim num País em que ela – a indústria de cinema – não só é descontínua como malvista (pela crítica). E, por isso mesmo, é curioso que seja ele a nos propor a experiência desse filme. Trata-se do remake de – os créditos dizem que é ‘inspirado por’ – um filme sérvio que nunca foi lançado no Brasil e Daniel descobriu por intermédio de um assistente. Ele aproveitou o conceito. Abrasileirou a forma e o conteúdo. Fez um de seus filmes mais interessantes. Desconfie de quem fala mal.

Na abertura, um homem em crise suicida-se diante da webcam de seu computador. Quer dizer – vemos a armação da cena, mas não a morte. O tiro atrai as atenções do prédio. Entra o porteiro, seguido de alguns moradores e da mulher, que fazia faxina para o falecido. O grupo é heterogêneo. O síndico, sua mulher, ex-atriz da Globo, um papa-defunto. E logo estão chegando a emergência, a polícia. Ninguém se dá conta de que a câmera está ligada. Agem ‘naturalmente’. O síndico exerce seu pequeno poder, o policial usa a prerrogativa de autoridade para intimidar e até roubar, etc. E todos esperam a chegada da ‘Globo’, para a qual o morto escrevia textos de humor. A descoberta da câmera muda o comportamento geral e todos passam a ‘representar’. A atriz vira ‘trágica’ e todo mundo vê aí a possibilidade de ter seus 15 minutos de fama. No processo, caem as máscaras da hipocrisia social.

A riqueza de Sorria está no paradoxo de sua limitação. A câmera não se mexe, o ângulo é um só, os atores entram e saem de quadro, parecem mal enquadrados e iluminados. Quantas vezes você já ouviu que as comédias que comandam as bilheterias do cinema brasileiro são televisivas? A estética de Sorria é, e proposital. Cabe uma discussão sobre as múltiplas telas que estão redefinindo o audiovisual. A ex-atriz faz selfie com o morto, e o marido observa que esse tipo de coisa – violência? – sempre existiu, o que não havia era internet, que hoje põe tudo instantâneo, online. 

Com seu prestígio, Daniel prescindiu das leis de incentivo. Colocou dinheiro do próprio bolso e fez dos atores, parceiros. Você os conhece todos. Muitos, senão todos, são da Globo – Lázaro Ramos, Suzana Vieira, Otávio Augusto, Marcos Caruso, Juliano Cazarré, etc. A potência da Globo vira motivo de piada e Suzana Vieira radicaliza – diz que lá dentro ‘só tem p... e v...’. A emissora, pelo visto, assimilou o achincalhe – está lá o logo da Globo Filmes. Os ‘críticos’ – aqueles de sempre – estão matando. Daniel Filho poderia invocar uma brincadeira de John Huston, A Lista de Adrian Messenger, de 1963. Na época, Cahiers du Cinéma acabou com ele. A revista ficou ruim e Huston estava simplesmente iniciando a melhor fase de sua carreira.

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