Daniel Filho abre o set de seu novo filme pela internet

Inspirado numa comédia sérvia de humor negro, 'Obra Prima' terá transmissão ao vivo das gravações

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

05 Setembro 2014 | 18h15

Quem fala não é nenhum diretor de filmes miúra, daqueles pequenos, autorais, que o mercado discrimina, quando não ignora. Quem reclama é o sr. Bilheteria do cinema brasileiro – Daniel Filho, o homem dos 30 (40?) milhões de espectadores, cifra astronômica que ele alcançou ao longo de uma carreira de realizador que começou em 1969, com Pobre Príncipe Encantado (com Wanderley Cardoso). Daniel anda insatisfeito, é a verdade. Foi um sentimento que começou a se manifestar quando lançou Se Eu Fosse Você 2 e que se acentuou com Chico Xavier. Não estamos falando de fracassos de bilheteria. Muito diretor e produtor teria exultado com os 3 milhões de espectadores que Chico Xavier obteve. Daniel sabe que o filme poderia ter feito mais.

“Hoje em dia temos uma janela de três semanas para saber se o filme sobrevive no mercado.” É o estrangulamento da distribuição. “Um filme muito bom como Lobo Atrás da Porta não alcança nem de longe a visibilidade que merece. Um grande filme como Hora e Vez de Augusto Matraga, que venceu o Festival do Rio há dois anos nem sequer chegou às salas. Há algo errado nessa equação.” O que há de errado é uma velha história que aflige o cinema brasileiro. Nosso mercado é formatado para a produção estrangeira (de Hollywood). “Com as devidas exceções, o cinema americano é imbecilizado. As coisas boas vêm da Europa e da Ásia.” Como enfrentar o problema? Daniel Filho não faz o gênero que só pensa. Busca soluções. “Precisamos de novas plataformas de distribuição e exibição, de novas formas de diálogo com o público.” Não apenas – “O cinema brasileiro está muito caro. Basta comparar com o argentino e o chileno. É mais cômodo conseguir dinheiro para filmar nesses países.”

Daniel confessa que tem saudade do tempo em que a equipe inteira de produção cabia numa kombi – numa van. O que ele propõe é uma marcha à ré. Pare tudo neste fim de semana. Sábado, 6, e domingo, 7, a partir das 18 horas. Durante uma hora e meia, Daniel Filho vai liberar – nos links http://www.obraprima-ofilme.com.br/ e https://www.facebook.com/pages/Obra-Prima-O-Filme – o acesso à gravação do que será seu novo filme. Ele teve o estalo ao assistir a um filme sérvio de 2012. Death of a Man in the Balkans é uma comédia de humor negro de Miroslav Momcilovic. Um homem suicida-se e, durante uma hora e meia, enquanto aguardam a chegada da polícia, os vizinhos do prédio e, depois, os policiais e os funcionários do necrotério, vão reagindo de forma a compor uma espécie de bestiário divertido – patético? – da condição humana.

O que mais atraiu Daniel Filho foi que essa história se passa num só cenário e é filmada com uma só câmera, de um único ponto de vista. Eureca! “Percebi rapidamente que a história é universal e poderia ser transferida para o Brasil sem a menor dificuldade.” Nada de patrocínio nem de leis de incentivo. Daniel está colocando dinheiro do bolso e conseguiu que atores de renome participassem da produção em regime de cooperativa – Lázaro Ramos, Débora Secco, Suzana Vieira, Otávio Augusto, Juliano Cazarré, Marcos Caruso. Os técnicos serão remunerados. Como a câmera não se mexe, o problema, se houver, será do elenco, daí os ensaios exaustivos, de segunda-feira até ontem. Daniel pretende manter sua técnica do one take, filmando só uma vez. Para onde vai o filme pronto? Cinemas? TV on demand? Internet? “Isso vem depois. No sábado (dia 6/9), o convite é para assistir à gravação.” Um making of feito na hora. O sr. Bilheteria inova.

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