"Dançando no Escuro" chega em vídeo

Após a sensação provocada nos cinemas, no ano passado, Dançando no Escuro aterrissa discretamente nas locadoras. O musical de Lars Von Trier está sendo lançado em vídeo pela Imagem. A curiosidade é saber qual será a reação do público do vídeo ao filme que é considerado a obra mais emblemática das novas técnicas que estão mudando a face do próprio cinema.Se você lê o mínimo que seja, sobre cinema, por certo acompanhou a polêmica, ou parte dela. O futuro do cinema é digital, se mudar o suporte e o vídeo substituir, em definitivo, a película, ainda assim será cinema? Afirmações e perguntas que alimentaram muita expectativa, estimularam muita polêmica no ano passado. E agora você vai poder ver, no vídeo de sua casa, Dançando no Escuro.Foi o grande vencedor da Palma de Ouro do ano passado. Havia filmes melhores concorrendo no Festival de Cannes de 2000. Concorrentes asiáticos, principalmente. Filmes como Eureca, de Shinji Aoyama, As Coisas Simples da Vida, de Edward Yang, o deslumbrante Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-wai, e o inédito Amor Proibido, do coreano Im Twon-taek, o único desses filmes que ainda não estreou no Brasil. Apesar da supremacia dos asiáticos, o júri presidido pelo diretor francês Luc Besson preferiu dar a cobiçada Palma a Lars Von Trier.Ele merecia, mas por Ondas do Destino, que ganhou o prêmio especial do júri, em 1996, também em Cannes. Um insólito musical anti-ilusionista. Tudo no cinema é falso, mas os filmes realistas tentam nos fazer esquecer o artifício cênico que faz com que a vida pareça projetada de verdade na tela. O musical assume o artifício, tenta mostrar, na maioria das vezes, que a vida é sonho. O musical de Von Trier também cria um mundo de sonho, mas ele se destrói em contato com a dura realidade. E, depois, o filme fala sobre pena de morte, algo nunca feito antes num musical - se bem que Bob Fosse, um dos últimos grandes do gênero, já havia feito da morte o tema radical de All That Jazz - O Show Deve Continuar.Björk é a alma do filme. É uma imigrante européia nos Estados Unidos. Trabalha numa fábrica, dá duro para sustentar o filho. No início, ela participa de uma montagem amadora de A Noviça Rebelde, o musical cult de Robert Wise com Julie Andrews. A pobre heroína está ficando cega. Junta dinheiro para pagar a cirurgia do filho, que poderá ter o mesmo problema que ela e ficar cego também. A essa altura, você, se for muito sensível, já estará chorando, mas tem mais. Há um vilão que rouba o dinheiro de Björk. Ela o mata, vai a julgamento e...Se tudo no cinema é falso, todo diretor é um manipulador mesmo o diretor de documentários, que finge colar seu filme à realidade, mas também seleciona o que o espectador vai ver, do jeito que ele quer que veja. Só que Von Trier exagera. A cena do assassinato é um exagero de manipulação. E há o marketing do filme. Von Trier foi um dos signatários do Dogma. Como tal, criou o voto de castidade dos chamados monges-cineastas da Dinamarca. Um cinema cheio de normas, de dogmas, feito com poucos recursos e, por isso mesmo, considerado uma alternativa ao cinemão de Hollywood.Não deixa de ser desconcertante observar que boa parte da publicidade de Dançando no Escuro nos cinemas se apoiou na ousadia da cena dançada na fábrica, na qual Von Trier teria usado cem (cem!) câmeras de vídeo para captar uma coreografia que, no fundo, não é tão rebuscada, é até simples. A polêmica que marcou o filme nos cinemas parece serenada. Coisa do passado (será mesmo?) Quem sabe o filme não poderá ser visto agora com outros olhos? Esse novo olhar tem de privilegiar Dançando no Escuro como fecho da trilogia do diretor sobre o sacrifício das mulheres, que começou com Ondas do Destino, prosseguiu com Os Idiotase atinge a culminação agora com a personagem de Björk. Esse tema, Von Trier recolheu-o de seu mestre, o grande Carl Theodor Dreyer, que fez o genial O Martírio de Joana d´Arc.

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