Mariola Filmes
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'Danado de Bom' lança luz sobre João Silva, um dos grandes parceiros de Luiz Gonzaga

Com honestidade, ele faz sua autocrítica diante da câmera

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2017 | 05h00

Em abril de 2016, o documentário Danado de Bom venceu o Festival do Recife e, agora, exatamente um ano depois, quando se realiza outro Cine PE, o longa de Deby Brennand chega ao circuito em São Paulo. Houve muita gente insatisfeita com a premiação no ano passado e não porque o filme de Deby não faça jus ao nome, mas é porque havia outro concorrente sob medida para fazer a cabeça dos críticos - e que, aliás, venceu o prêmio da imprensa, outorgado pela Abraccine, Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Guerra do Paraguay, de Luiz Rosemberg Filho. A estreia obriga a que se fale sobre as belas qualidades de Danado de Bom.

A menos que você venha de outra galáxia, deve saber, com certeza, que o sobrenome Brennand nomeia Francisco, um grande artista brasileiro. Sua neta, diretora de Danado de Bom, lança luz sobre um grande artista quase anônimo - o parceiro menos conhecido de Luiz Gonzaga, o Lua, rei do Baião. Com todo respeito, o sobrenome mais comum do Brasil - Silva. João Leocádio da Silva. “Mas, de alguma forma, somos todos meio despossuídos, não?”, pergunta-se a diretora. Seu filme começou a nascer há dez anos, exatamente em 2007. “Morava em São Paulo e uma prima, Mariana Brennand, da produtora Mariola Filmes, começou um filme sobre vovô. Me convidou para trabalhar com ela. Vim para o Recife e outros primos, que tinham um estúdio de som, gravavam a nata da música pernambucana. Foi assim que conheci o João. A produtora dele, Roberta Janssen, foi quem teve a ideia do filme e levou a Mariana, que me repassou o projeto.”

Foi assim que tudo começou. Deby autodefine-se como “meio bicho do mato”. Tímida, não é de aparecer muito. João Silva, por sua vez, tinha uma personalidade exuberante - que utilizava para esconder sua verdadeira natureza. “Ele mentia muito, mas depois fui descobrindo por quê.” Em 2007, João estava voltando à cidade em que nasceu, Arcoverde. Deby acompanhou-o com sua câmera. O filme ainda não tinha nem patrocínio. “O edital aqui em Pernambuco surgiu em 2009 e a gente só ganhou em 2012.” Depois da filmagem inicial, ela ficou mais próxima de João e conseguiu transpor sua couraça. Descobriu o homem por trás do artista, a figura real por trás da persona.

“João era um grande poeta, mas era um autodidata que aprendeu a ler e escrever com a avó, que também não era letrada. Adorava as letras, mas começou fazendo o ‘O’ com a boca da xícara. Botava uma perninha e virava o ‘A’. Ele tinha vergonha de seus garranchos e a vida toda, exceto com Luiz Gonzaga e Dominguinhos, mandava suas letras de músicas para os intérpretes em fitas gravadas. Só bem depois, já mais escrachado, é que ele perdeu a vergonha.” Em 2012, com recursos, Deby voltou a filmar. O filme desenhava-se de um jeito, em torno da volta à raiz. E aí, no fim de 2013, João morreu, quando ela se preparava para filmar de novo com ele.

“O filme teve aí um momento de crise. Era um documentário mais autoral, mas, com a morte do João, decidimos (Mariana e ela) que seria mais uma homenagem. Porque a verdade é que, quando começamos, ninguém conhecia o João, nem a gente. E é a mais plena expressão da nossa poesia popular.” Luiz Gonzaga, todo mundo conhece. Houve há pouco o filme de Breno Silveira, que depois virou série da Globo - Gonzaga, de Pai pra Filho. Houve o documentário sobre outro parceiro do mítico Lua, produzido pela filha de Humberto Teixeira, a atriz Denise Dumont. O Homem Que Engarrafava Nuvens - metáfora do sonhador - permanece como um dos melhores trabalhos de direção de Lírio Ferreira. Deby conta que tinha as entrevistas de João e monte de material iconográfico, coletado por Antônio Venâncio. “Jordana (Berg, montadora de Eduardo Coutinho) foi decisiva para me ajudar a colocar ordem nesse material todo. O que nos norteava era sempre o resgate dessa figura incrível.”

Com honestidade, João Silva faz sua autocrítica diante da câmera. Conta que o sucesso subiu à cabeça e ele teve uma vida desregrada. No filme, apaziguado com seus demônios, volta - no sentido mais amplo. Ao sertão, às origens. Quando Danado de Bom venceu o Cine PE, no ano passado, a diretora não participou do lançamento no festival. “Estava muito doente, foi uma época muito difícil.” Deby passou o último ano em recuperação. Admite que, nos piores momentos, sempre teve consolo na poesia de João e na música do Lua. O documentário expressa a euforia com que ela carrega os dois no coração.

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