UNIVERSAL PICTURES
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Damien Chazelle e Barry Jenkins retornam ao ringue do Oscar

Cineastas 'La La Land' e Moonlight' têm tudo para concorrer em 2019

Mariane Morisawa ESPECIAL PARA O ESTADO, TORONTO

19 Setembro 2018 | 06h00

O Oscar do ano passado entrou para a história quando uma troca de envelopes fez com que La La Land – Cantando Estações fosse anunciado como o vencedor na categoria melhor filme, quando na verdade o ganhador era Moonlight – Sob a Luz do Luar. Os dois diretores, Damien Chazelle e Barry Jenkins, respectivamente, parecem ter levado numa boa, na medida do possível, e até ficado amigos. É bom, porque eles podem se preparar para mais uma batalha no Oscar do ano que vem. O Primeiro Homem, de Chazelle, e If Beale Street Could Talk, de Jenkins, ambos apresentados no Festival de Toronto, realizado de 6 a 16 de setembro, têm tudo para concorrer na premiação máxima de Hollywood.

Depois de fazer um musical moderno, Chazelle, de 33 anos, agora encara uma odisseia espacial de certa forma intimista. O Primeiro Homem, previsto para estrear no Brasil em 18 de outubro, conta a história de Neil Armstrong, que foi, como o título indica, o primeiro homem a pisar na Lua. O astronauta, interpretado com economia por Ryan Gosling, é retratado como um homem frio, de pouco diálogo, que se retrai ainda mais emocionalmente depois da morte da filha de 2 anos – algo que o diretor força a mão para provar. Quem sofre é sua mulher, Janet (Claire Foy), e os outros dois filhos do casal, a ponto de ela ter de obrigar o marido a conversar com os dois meninos sobre os riscos de sua missão. É o mesmo tipo de personagem obsessivo de Whiplash – Em Busca da Perfeição e La La Land, que vai em frente a despeito da vida pessoal e das dificuldades. E são muitas: o filme é detalhado nos desafios e perdas humanas impostos pelo projeto, dentro do contexto da corrida espacial com a Rússia. E, no fim, para quê? A questão é parcialmente respondida na espetacular sequência final do pouso na Lua e o pequeno passo de Armstrong.

Chazelle evitou o patriotismo exacerbado, cortando o momento em que foi fincada a bandeira americana no solo lunar, o que motivou reclamações da direita no país. Mas isso é bobagem: o longa insere-se totalmente na tradição do cinema americano, celebrando o triunfo do homem.

Barry Jenkins, de 38 anos, volta a falar de amor em If Beale Street Could Talk, que tem previsão de estreia no País no fim de 2018, adaptação do romance de James Baldwin sobre Tish (KiKi Layne), que, grávida, tenta provar a inocência do noivo Fonny (Stephan James), falsamente acusado de estupro, na Nova York dos anos 1970. A realidade dos negros é dura, com preconceito e encarceramento em massa sempre à espreita – uma cena em que o amigo Daniel (Brian Tyree Henry) fala sobre seu tempo na prisão é particularmente tocante. Mas o filme, que tem influências de Douglas Sirk e Wong Kar-wai, não é tragédia.

Jenkins pontua os problemas com fotos em preto e branco e narrações em off tiradas diretamente do livro, mas povoa a história de detalhes ricos que combatem os estereótipos sutilmente, como a mãe (a ótima Regina King) e o pai (Colman Domingo) que, juntos, apoiam mesmo sabendo das dificuldades que a filha vai enfrentar, ou a delicadeza de Tish, bem diferente das jovens negras atrevidas que costumam aparecer nas telas. Principalmente, o diretor quer dar a seus personagens negros o direito de ter um romance de cinema, com cores vibrantes, roupas bonitas, passeios de mãos dadas e olhares amorosos. E isso vale também para a câmera, que capta com carinho as suaves mudanças de expressão dos atores. A realidade, afinal, pode interferir no sonho, mas não impedir que ele exista – nem que seja no cinema. 

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