Da arte de trazer à tona atos velados

Em A Música Segunda, Possi trabalha com o não-dito na linguagem da dança

Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo,

09 de outubro de 2009 | 11h32

Pode-se definir José Possi Neto não como um diretor de teatro, mas de artes cênicas. Dirige peças, balés, óperas e musicais. Evidentemente esse trânsito entre linguagens contagia todas as suas criações, ora de forma sutil, só perceptível para olhares atentos, ora explicitamente, por exemplo, nos espetáculos chamados dança-teatro.

Pois em A Música Segunda, criado a partir do texto homônimo de Marguerite Duras, uma autora pela qual se apaixonou ao primeiro conto lido, O Deslumbramento, Possi promete radicalizar no manejo de linguagens ao colocar ora em diálogo, ora em atrito, a abstração da dança com a fisicalidade das ações e diálogos teatrais.

No palco do Teatro Vivo, onde o espetáculo estreia hoje para o público, além dos atores Helena Ranaldi e Leonardo Medeiros - eles vivem um casal que se reencontra três anos depois de se terem separado para assinar o divórcio, no saguão de um hotel, e ali, durante uma única noite, fazem um acerto de contas - Possi colocou no palco a dupla de bailarinos Leonardo Hoehne Polato e Ana Luisa Seelaender.

Não é presença aleatória. “Sinto que existe um plano refletido nessa peça e busco trazê-lo à tona. É um plano de sonhos e desejos, meio irreal, refletido não num espelho plano, mas desses que mudam a imagem”, diz Possi. A origem de tal inspiração são as rubricas (indicações de estado de espírito ou ação) da autora. “São impossíveis, insuportáveis para a direção”, enfatiza Possi. A leitura do texto confirma que não se trata de exagero. Por exemplo, num momento do intenso e emocionado diálogo travado entre o casal, ela diz - “só acontece uma vez na vida, você não acha?” -, ele pergunta - “o quê?”. Aí a autora escreve na rubrica: a resposta ‘deveria’ ser ‘um amor assim’. Mas a personagem fala: um inferno assim. “As indicações dela merecem ser lidas inteiras. O subtexto é quase outro texto.”

Possi, obviamente, não se preocupa em ser ‘literal’ a esse subtexto na coreografia dos bailarinos. Ora essa duplicação de imagens se complementa, até refletem as mesmas ações e intenções, ora se atritam. “Não quero ser didático, a materialização das rubricas é poética.” Tal construção é compartilhada por toda a equipe técnica. A cenografia, de Jean-Pierre Tortil, remete a uma espécie de ringue onde o embate do casal se dá, mas também trabalha com transparências, seguindo essa linha de afetos que transbordam o consciente. “Esse casal viveu uma separação catastrófica.” O diretor enfatiza que a dupla de atores dá conta da intensidade pedida. “Leonardo é o tipo de ator que questiona a direção o tempo todo e enriquece o processo. Helena tem tal entrega que as pessoas se surpreendem - esse olhar glacial é mesmo dela?”

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