A2 Filmes
A2 Filmes

'Cyrano Mon Amour' é um filme capa e espada que atravessa séculos

Longa em cartaz mostra, como ficção, os bastidores da peça 'Cyrano de Bergerac', de Edmond Rostand, com seus ensaios caóticos e sua acidentada estreia na Paris de 1897; veja o trailer

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

03 de julho de 2019 | 03h00

Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, é considerada a peça mais encenada do repertório francês. No entanto, ela tinha tudo para ser um fracasso quando foi escrita no final do século 19 por um autor que precisava desesperadamente de dinheiro mas não tinha ideia de como obtê-lo.

Numa época difícil e conturbada, em que a França queria apenas comédias ligeiras e vaudevilles, Rostand apareceu com uma peça longa, em cinco atos, dezenas de figurantes, duas batalhas no meio e um protagonista problemático, que deveria recitar mais de 1.400 versos em alexandrinos. Cyrano Mon Amour, de Alexis Michalik, é uma espécie de making of dessa obra famosa. Mostra, ou melhor, recria, como ficção, os bastidores da produção, os ensaios caóticos no palco e sua acidentada estreia na Paris de 1897. 

O tom do filme oscila entre a farsa e o drama – aliás, em sintonia com a própria peça de Rostand. Lembremos que o texto é livremente inspirado num personagem real, Savinien de Cyrano de Bergerac (1619-1655), que viveu no século do cardeal Richelieu, no ambiente dos Três Mosqueteiros, marcado por aventuras, duelos ao amanhecer e conquistas amorosas.

Cyrano tinha algumas particularidades. Era feio como o cão e inteligente como o diabo; um aventureiro narigudo, de espada e língua afiadas, destemido diante de qualquer inimigo e sem coragem de se declarar à amada, a bela Roxane.

Para interpretar essa figura, Rostand escolheu o mais famoso ator da sua época, Constant Coquelin (Olivier Gourmet), amigo íntimo de Sarah Bernhardt. Confusões com a atriz principal o levam a escalar a novata Jeanne (Lucie Boujenah) para o papel de Roxane.

Tom Leeb faz o jovem bonito e sem talento que precisará da verve de um intermediário (Cyrano, justamente) para conquistar Roxane.

No momento em que oferece a peça ao produtor, Rostand estava longe de terminar a obra. Tem apenas uma ideia geral na cabeça e precisa correr contra o relógio para entregar o texto a tempo para os ensaios e a estreia. Tudo é feito de maneira atabalhoada e acidentes de percurso, que muitas vezes acabam por se incorporar à obra final, dão uma espécie de autoria coletiva à peça, tantas são as interferências. 

Ao apostar de forma aberta na comédia, Michalik provavelmente se afasta da verdade factual e parte para a invenção. Tem, como retaguarda, uma direção de arte bastante competente, que reproduz o clima visual da Paris da belle époque. Conta, também, com um elenco de primeira, no qual sobressai a figura de Olivier Gourmet, ator dotado tanto para o drama como para a comédia, que sabe extrair graça do seu Coquelin/Cyrano sem jogá-lo no ridículo. Mas a figura central não é o personagem e sim o autor, interpretado com brilho por Thomas Solivérès. No original francês, o filme se chama simplesmente Edmond

Se Cyrano de Bergerac é um elogio à verve francesa, Cyrano Mon Amour não fica a dever ao seu modelo. O filme é pontuado de falas e réplicas brilhantes, lembrando um tempo em que a arte da palavra ocupava o pódio no relacionamento humano e era imprescindível na política e no amor.

Na tela, Michalik simplifica o que se sabe da feitura da peça de Rostand para trazer à luz o gênio do seu autor e o temperamento do seu personagem – tragicômico e excessivo, valente, desafiador da autoridade e generoso a ponto de conquistar para um rival a mulher que ele próprio ama. 

Nas palavras de Rostand, Cyrano, próximo do fim, ferido e envelhecido, se define como o homem da resposta pronta (“répondeur du tac au tac”), que foi tudo e não foi nada. E que se despoja de toda vaidade terrena para entrar na eternidade, menos de seu topete e seu orgulho. Através de Rostand, Cyrano de Bergerac tornou-se um mito francês, celebrado de geração em geração. 

 

 

Tudo o que sabemos sobre:
Edmond RostandAlexis Michalikcinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.