‘Curumim’, o filme, traça o retrato de um homem que traficava para ser aceito

Marcos Prado conta por que é importante o filme sobre brasileiro fuzilado na Indonésia

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2016 | 07h00

Era para ser outro filme. Quando foi contactado por Marco ‘Curumim’ Archer, que estava preso por tráfico de drogas numa prisão da Indonésia, o produtor e diretor Marcos Prado começou a imaginar o que poderia ser um filme relatando sua experiência. A rotina de Curumim na prisão, com certeza, mas ele também acreditava que o brasileiro seria solto e começou a tecer uma outra história. Nessa sua versão hipotética, Curumim seria solto, ele o acompanharia por mais dois ou três anos e, no final, faria, como esperava, o relato de uma experiência humana transformadora.

Porque Curumim, ao longo dos contatos que Prado teve com ele, foi mudando. Como Peter Pan, ele era um adulto que se recusava a crescer, um meninão carente que usava o tráfico como moeda de troca para comprar afeto. “Mas eu sentia que ele havia mudado. O filme começou a se desenhar no meu imaginário como uma história de segunda chance.” Mas aí ocorreu o improvável. Um novo presidente assumiu na Indonésia, com um programa duro. No país de forte influência islâmica, ele pregava tolerância zero com tudo o que era considerado decadência, má influência do Ocidente.

Curumim foi parar num fogo cruzado – literalmente. E onze anos depois de ser preso com 13,5 quilos de cocaína escondidos em sua asa-delta, tornou-se o primeiro brasileiro a ser executado por tráfico no mundo. Para Prado, foi um choque. Ele já não pensava em termos. Pensava no amigo que ganhou, enquanto ele esteve na prisão. Chegou à conclusão de que sua morte não podia ser em vão. E nasceu Curumim, o filme. Como um legado de Curumim, o homem, aos jovens que, como ele, foram atraídos para os paraísos artificiais. O filme estreia nesta quinta, 3. Desde sua apresentação na Berlinale, em fevereiro, tem feito bela carreira em festivais do Brasil e do exterior. É bom. Pode desencadear uma discussão necessária sobre as drogas.

Embora Curumim, o filme, esteja fazendo uma bela carreira internacional, com prêmios em festivais e debates acirrados, Marcos Prado não tem muita expectativa de seu documentário no Oscar. Parceiro de José Padilha na Zazen – e Padilha está hoje com os dois pés em Hollywood; agora mesmo trabalham em um projeto da Netflix –, Prado acha que a trajetória de Marco ‘Curumim’ Archer não é exatamente o que os norte-americanos gostam de ver. “Eles querem heróis, o filme é o retrato de um anti-herói.”

Foi o que atraiu Prado e o que ele sente que atrai o público dos festivais brasileiros e internacionais em que Curumim tem sido apresentado. “O personagem é fascinante na sua vulnerabilidade. Produto de uma família fraturada, cresceu no Leblon, numa época em que aquela fatia do litoral do Rio era um reduto libertário de gente rica, avançada.” Curumim só queria ser aceito, integrar-se com os surfistas mais velhos. Para bancar o próprio sonho, tornou-se traficante.

“Naquela época em que Pablo Escobar fazia nevar em Los Angeles – a neve, o pó –, Curumim se enredou na atividade.” Fazia-o para manter o estilo de vida, para surfar em busca da grande onda, para patrocinar jovens surfistas. “É uma história louca. Um dia ele teve um acidente, ficou devendo um monte de dinheiro e resolver arriscar um grande golpe para se safar. Foi pego. Não parecia que seria o fim, mas foi.” Preso numa cadeia de segurança máxima – mas não tão segura assim –, Curumim contatou Prado. Combinaram que ele documentaria sua vida na prisão. Como Prado estava convencido de que ele seria solto, ia cozinhando o filme, como diz, em ‘banho-maria’.

O tema das drogas não é estranho ao diretor. Está em Paraísos Artificiais, seu longa de ficção. Em Tropa de Elite 1 e 2, do parceiro Padilha. Mas Curumim tinha esse perfil particular. A história real, contada pelo próprio personagem em seis cartões de memória que totalizavam 4 horas de material. Prado filmou 40 entrevistados, reuniu o máximo de material de arquivo que conseguiu – e não foi muito, porque muita gente temia se expor, mesmo por meio de fotos que pudessem relacioná-las ao brasileiro na linha de espera da morte. Todo esse processo durou dez anos. Uma década inteira. “Vi o Curumim mudar. Ele sabia a m... que fez. Deixa isso claro no filme.”

E por isso mesmo Prado se choca com essas coisas. “(O ex-presidente) Lula fez um pedido de clemência, que foi recusado na Indonésia. Mas o (ex-militar e deputado Jair) Bolsonaro foi na linha contrária e fez uma moção de apoio à condenação de Curumim, como exemplo. Fui atrás dele por causa disso, para entender esse comportamento tão duro.” O resultado, com 102 minutos de duração, é uma coprodução da Zazen com a GNT e, depois do cinema, o filme vai estrear na TV, no canal. Não espere beleza visual, como havia em Paraísos Artificiais. O foco e o conceito são outros. Muitas vezes, a técnica é precária, o enquadramento malfeito. “Mas é urgente e verdadeiro. E a montagem é muito cuidada.” Montagem é cinema, dizia Stanley Kubrick.

Foram dez festivais, entre eles Cracóvia, Golden Apricot e Valladollid. Golden Apricot, em Yerevan, na Armênia, é considerado um festival de ponta em originalidade e criatividade de cinema e vídeo. Premia as categorias documentário e ficção. Curumim ainda não esgotou seu ciclo no exterior. “Ainda vou a Havana com o filme”, anuncia Prado. Apesar de toda essa itinerância internacional, ele confessa que um de seus melhores momentos com o filme foi na Mostra de São Paulo. “Tivemos uma sessão muito boa com adolescentes. Eles são o público. Olham o filme de outro jeito.” 

A pergunta que não quer calar refere-se à próxima parceria de Marcos Prado com José Padilha. Eles trabalham num projeto sobre a Lava Jato para a Netflix. “O roteiro é da Elena Soares com o Zé, baseados no livro de Vladimir Neto, um jornalista muito sério. Até por estar sendo feito no calor da hora, queremos fazer um filme neutro, muito bem pesquisado e documentado.” O repórter sugere que também pesquisem, até como contraponto, o outro lado da Lava Jato, de um outro jornalista, Paulo Moreira Leite. Prado admite que não leu, mas aceita a ideia do contraponto. Esclarece a polêmica – Wagner Moura rejeitou o papel de Sérgio Moro. “Isso é sensacionalismo. Wagner não rejeitou porque o Padilha nem lhe ofereceu o papel. Eles têm discordado quanto ao que ocorre no Brasil, mas é uma coisa deles, em alto nível. Dessa forma, seria absurdo o Zé propor ao Wagner uma coisa que sabia que não lhe interessava.” E quem será o juiz? “Primeiro precisamos do sinal verde da Netflix. Ainda estamos aprimorando o roteiro. Só depois da aprovação é que iremos atrás do elenco”, diz.

 

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