Curtas surpreendem pela ousadia em festival

Dois longas-metragens já bastanteconhecidos deram prosseguimento à mostra competitiva do 12ºCineCeará: Timor Lorosae, de Lucélia Santos, e Viva SãoJoão!, de Andrucha Waddington. O primeiro é um relato da lutapela independência do Timor; o segundo, uma viagem pelas festasnordestinas de São João, tendo o cantor e compositor GilbertoGil como mestre-de-cerimônias. Ambos têm qualidades. Timor, por sua importânciapolítica intrínseca; é um trabalho de militância, que às vezesabusa da narrativa em off, mas compensa o excesso com suasinceridade. Lucélia aproveitou a ocasião para falar de doisnovos projetos como documentarista. Está tentada a rodar umfilme sobre o conflito do Oriente Médio, mas confessa que sedivide entre o medo e o desejo. Se resolver topar a parada seráem parceria com o cineasta inglês Max Stahl. Projeto certo mesmo é o da filmagem das Olimpíadas de2004, na Grécia, pois entende que o esporte expressa o lado bomdo ser humano, a busca da perfeição, premiando o esforço físicoe espiritual. Quer mostrar também o lado humano de atletas quesofreram reveses na véspera da competição e não puderamparticipar das disputas. Viva São João! conquista o público com sua ênfasecongratulatória da cultura popular, a energia de sua música eritmo, embora tenha lá seus problemas, como uma certaestetização visual, também ela excessiva, e um final um tantoforçado com o grande músico Gilberto Gil provando que aindaprecisa aprender a ser ator. Ou seja, dosar - e domar - a emoçãopara melhor expressá-la. Com tudo isso, as boas novas da quarta noite decompetição, em termos estritamente cinematográficos, vieram doscurtas-metragens, de dois deles em especial: Domingo, dogaúcho Gustavo Spolidoro, e Um Sol Alaranjado, do cariocaEduardo Valente. Spolidoro é autor de dois curtas anteriores,que deram o que falar em festivais: Velhinhas e Outros,filmes concebidos como planos-seqüência, sem cortes, ousados ecriativos. Domingo parece se encaminhar para outra chavenarrativa. Ele mesmo, em entrevista admite: "Propus essedesafio para mim: fazer um filme com cortes, com decupagens, comuma concepção bem diferente dos anteriores." Resolveu, também,trabalhar no registro dramático, pois seus trabalhos passadosapostavam na chave cômica. A história é a de uma mulher que faz30 anos e relembra um antigo aniversário, o de 10 anos, passadocom a mãe, numa casa de praia. A delicadeza com que o tema damemória é trabalhado prova o amadurecimento do diretor. Mas,felizmente, Spolidoro mantém a ousadia estética e prepara umasurpresa para o espectador. Não vale contar o que é, mas pode-sedizer que a brusca mudança de registro, do realismo para ofantástico, provoca um efeito entre o cômico e o emotivo. Umabela sacada, com as imagens finais dando ao conjunto do filmeuma outra significação. Já Um Sol Alaranjado chega antecedido da premiaçãoda Cinéfondation, em Cannes, uma distinção dada ao cinemauniversitário. Com 15 mil euros no bolso e o compromisso de quese fizer um longa-metragem ele será exibido em Cannes, EduardoValente apresentou um trabalho intimista, rico de significado,no qual o que está fora da tela tem tanta importância quanto oque se vê. Explica-se. O que se vê é a vida de duas pessoas, umamulher e um homem mais velho e doente, de quem ela cuida damanhã à noite. O tempo todo ouvem-se sons que vêm da rua (carrospassando, um bate-estaca, um cachorro latindo), e os que têmorigem na própria casa, na televisão ligada, em especial. Aspessoas mantêm-se em silêncio, com a exceção de um único e brevediálogo. Que, aliás, nada acrescenta de fundamental, a não ser oesclarecimento sobre o grau de afinidade entre os personagens. O filme é retrato de um dia-a-dia miúdo, de um cotidianosofrido e, ao mesmo tempo, expressa alguma coisa mais do queisso. Trabalha com planos lentos, sem pressa, com a direçãosintonizada naquilo mesmo que procura, a evocação de umasituação terminal, melancólica, cheia de pungência e, por quenão, de amor. Os acordes finais, nesse filme de andamento tãomusical - embora use a música com tanta parcimônia e só naapresentação dos créditos -, evocam a mecânica e a solenidade dapassagem entre a vida e a morte. Trata-se de um trabalho bempensado e, sobretudo, bem realizado. Eduardo Valente é editor do site de cinema Contracampo enão vê contradição entre o exercício da crítica e o trabalho derealização. Pretende continuar fazendo as duas coisas no futuroe tem o bom senso de não achar a reflexão uma atividade menor noâmbito do cinema. "Tudo é fazer cinema: dirigir filmes,escrever sobre eles, ou organizar festivais", diz. OK, é issoaí mesmo, e só se vai para frente abolindo fronteiras,preconceitos e trabalhando todos juntos, atitude de parceria quenão elimina controvérsias ou contradições. Muito pelocontrário.

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