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Curta-metragem 'Sunspring' é o primeiro do mundo a ser escrito por sistema de algoritmos

Inteligência artificial já consegue escrever até roteiros

Matheus Mans, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2016 | 03h00

Ao pegar a ficha técnica do curta-metragem ‘Sunspring’, algum desavisado pode achar que se trata de apenas mais um filme esquecível de ficção científica. O diretor Oscar Sharp dirigiu apenas dois curtas; o produtor Ross Goodwin é um total desconhecido no meio; e o roteiro é assinado apenas por um misterioso Benjamin. Tudo muda de figura, porém, quando se descobre que é o tal Benjamin é, na verdade, um computador. Baseado na Universidade de Nova York, a máquina escreveu todo o roteiro por meio de algoritmos e fez com que ‘Sunspring’ se tornasse o primeiro filme elaborado completamente por inteligência artificial. 

“Há alguns anos, fiz o roteiro de uma peça de teatro sem falas usando apenas uma planilha”, conta o diretor do curta-metragem, Oscar Sharp. “Vi que a técnica era promissora e pensei que poderia usar a ideia em algo maior, como um filme. Aí, algum tempo depois, conheci o [especialista em inteligência artificial] Ross Goodwin, que topou na hora me ajudar a fazer um curta escrito pelo programa de algoritmos que ele elaborou.”

A ideia de Sharp só se concretizou neste ano durante o Sci-Fi London, um festival de filmes de ficção científica. Em um dos desafios propostos, estava o de produzir um curta-metragem em apenas 48 horas. Goodwin e Sharp, então, resolveram contar com a ajuda de Benjamin - nome carinhoso dado ao programa de inteligência artificial LSTM - para facilitar a produção e testar o modelo.

“Tudo foi muito simples”, afirma o pesquisador de inteligência artificial e desenvolvedor da tecnologia, Ross Goodwin, que diz ter alimentado a máquina com mais de 200 roteiros. “Treinamos a rede de inteligência artificial da Universidade de Nova York durante toda a semana anterior e o texto de Sunspring ficou pronto em apenas alguns poucos minutos.”

Segundo os dois realizadores - que divergem no significado da história -, Sunspring fala sobre três pessoas que vivem em um futuro não muito distante e em uma espécie de triângulo amoroso. “É um filme de ficção científica alternativo”, resume a sinopse do curta.

Após a elaboração do curioso roteiro por Benjamin - que não sofreu nenhuma alteração -, Sharp teve a chance de usar todas as 48 horas para gravar o filme, que contou com Thomas Middleditch (da série Sillicon Valley) no elenco. “Todos acharam divertido estarem gravando de acordo com o que um computador mandou”, afirma o diretor. “Benjamin deu até a entonação e o comportamento que os atores tinham que adotar.”

O resultado, aparentemente, foi aprovado pelo festival, que considerou Sunspring um dos 10 melhores produtos apresentados no desafio. Entretanto, especialista em cinema criticam a qualidade do curta-metragem por ter alguns diálogos soltos e situação sem conexão com o todo. 

Roteiro. Acima do questionamento da qualidade de Sunspring, porém, está a discussão sobre o futuro dos roteiros de cinema. Afinal, roteiristas de todo o mundo ganharam um rival de peso, já que os programas de inteligência artificial poderiam se tornar populares e gratuitos. Qualquer um, então, teria a chance de ter um roteiro em mãos em poucos minutos e gastando quase nada.

Para Sharp, o futuro da ferramenta é impossível de ser previsto. “Nós já estamos trabalhando para deixar o Benjamin disponível para qualquer pessoa”, afirma Sharp. “Estou ansioso para saber como as pessoas vão lidar com estas novas ferramentas, assim como foi com a computação gráfica.”

Já para Goodwin, as consequências da chegada de algoritmos aos roteiros são mais claras e menos preocupantes. “Não acredito que filmes inteiros serão escritos por computadores”, afirma o especialista em inteligência artificial. “Eu acho que a inteligência da máquina vai oferecer ferramentas para ajudar as pessoas criativas com o seu trabalho. Ela poderá, por exemplo, sugerir o que escrever nas próximas linhas quando o roteiristas tiver um ‘branco’ e não conseguir continuar uma história.”

 

'Blade Runner' está entre filmes que inspiraram 'Sunspring'

O sistema de inteligência artificial Benjamin não aprendeu a escrever roteiros sozinho. Antes de criar o texto de Sunspring, a máquina recebeu um intensivo treinamento de seu criador, Ross Goodwin.

“Alimentamos o computador com centenas de roteiros”, conta o especialista em inteligência artificial. “Após isso, o sistema de algoritmos aprendeu um padrão dos filmes de ficção científica e conseguiu criar um texto que seguisse os mesmos padrões.”

A lista de filmes que “inspiraram” Benjamin é surpreendente. Ela conta com alguns clássicos da ficção científica, como 2001 - Uma odisseia no espaço, Blade Runner e E.T. - O Extraterrestre. Entretanto, muitos filmes são desconhecidos ou foram duramente criticados por especialistas na época de seus lançamentos, como é o caso de 2012, Cowboys & Aliens, Eu Sou o Número Quatro e o recente Quarteto Fantástico.

Segundo a dupla, com uma pluralidade de roteiros, o algoritmo conseguirá atender todos os gostos e necessidades de roteiristas, independente do gênero ou opinião da crítica.

Confusão. Com influências tão diversas, a máquina acabou produzindo um texto relativamente confuso e, às vezes, sem sentido algum com o que está acontecendo em tela. De acordo com os criadores, a máquina está sendo aprimorada e, em algum tempo, todos os textos deverão ser emitidos por Benjamin sem problemas de lógica. Mas a perfeição ainda está longe de ser alcançada.

Durante a apresentação do curta-metragem no Sci-Fi London, Oscar Sharp e Ross Goodwin entrevistaram a máquina, que mostrou como ainda não consegue articular frases de maneira totalmente lógica e com algum sentido.

Ao ser questionada de quais seus futuros projetos, Benjamin respondeu que “a equipe está dividida pelo trem da máquina pegando fogo, enchendo de suor. Ninguém vai ver seu rosto. As crianças vão alcançar a fornalha, mas a luz ainda escorre pelo chão. O mundo ainda está envergonhado. A festa é com a sua equipe. Meu nome é Benjamin.”

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