Curta-metragem discute violência urbana

Do Amor, curta-metragem de Gisela Callas, estréia nesta terça-feira, no Museu da Imagem e do Som (MIS) e entra em cartaz dia 5 em seis salas do circuito Haway. Será exibido, em rodízio, pelas 36 salas do grupo, um sistema de distribuição raro para o curta-metragem nacional que - abertas as raras exceções - dispõe como vitrine única os festivais de cinema. Aliás, foi num dos dois mais importantes festivais do País, o de Gramado, que Do Amor fez sua estréia, em agosto.O filme, segundo a diretora, baseia-se numa história real, tristemente comum em São Paulo (ou em qualquer cidade grande brasileira), um assalto a um motorista nas ruas da cidade. Tema dos mais banais, mas desenvolvido de maneira original, porque discute não apenas a violência como a vontade de vingança. Inútil dizer que os recentes atentados nos Estados Unidos tornam esse tema de fundo involuntariamente atual.No filme, Millem Cortaz vive o excutivo que é assaltado em seu carro quando pára em um sinal de trânsito. Malú Bierrenbach faz a mulher que a tudo testemunha do carro de trás. O ladrão é Mário Bortolotto. Os outros dois atores da cena são Fábio Espósito, motorista de uma kombi que não entende bem o que está acontecendo, e Eucir de Souza, que faz o cúmplice do assaltante.Enfim, é uma situação bem conhecida e tratada, no filme, de maneira realística. Em determinados momentos, até mais do que isso, quando a diretora não hesita em exasperar a situação e, sobretudo, a expressão dos atores, buscando intensificar ao máximo a dramaticidade. Não se deve (é regra básica de qualquer texto sobre cinema) contar o desfecho. Mas pode-se dizer que ele tem algo a ver com a raiva sentida pela agressão, o natural desejo de vingança e o freio civilizatório que pode conduzir a alguma reconciliação possível.Tudo isso é discutível, mesmo porque nenhum filme ou obra de qualquer espécie pode dar soluções prontas e definitivas. Se, como diz a diretora, o filme nasce de uma certa perplexidade com a situação a que se chegou no País, tampouco ele fornece alguma resposta apaziguadora. Nasce do mal-estar e deixa que esse mal-estar permaneça com o espectador. Nesse sentido, e talvez intuitivamente, recusa a catarse, que viria com a condenação absoluta ou o perdão inequívoco. Tudo fica desse jeito, entre duas coisas. Há a violência, com a qual não se pode conviver, mas também não se pode evitar. Intui-se que ela nasce de um ambiente social desfavorável e pleno de contradições, mas também fica tão difícil montar uma relação de causalidade entre miséria e crime quanto descartá-la sem mais.Enfim, Do Amor não foi feito para aliviar ou divertir, mas para dar vazão a um espanto pessoal, e representar alguns impasses brasileiros atuais. É produção caprichada, oscila em alguns pontos importantes, como a direção de atores, mas tem todos os méritos. Em especial o de não ceder à mais persistente tentação do curta-metragem brasileiro (paulistano, em particular), que é a devoção acrítica ao filme-piada.Serviço - Do Amor, de Gisela Callas, com Millen Cortaz e Malú Bierrenbach. Terça, às 21h, no MIS (Avenida Europa, 158). Entrada franca

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