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Curta 'Mar de Fogo' repercute em Berlim

Filme do brasileiro Pizzini se comunica com público internacional

Luiz Carlos Merten - Enviado Especial, O Estado de S. Paulo

10 de fevereiro de 2015 | 21h09

BERLIM - Era a grande dúvida - como o público internacional de um dos maiores festivais do mundo poderia se comunicar com uma obra como o curta de Joel Pizzini, Mar de Fogo, inspirado no mais secreto clássico do cinema brasileiro? Mário Peixoto fez Limite em 1931, construindo uma narrativa experimental que até hoje desafia códigos e entendimentos. Um barco à deriva no mar, uma mulher que estende as mãos presas por algemas. Essas algemas foi o que ele viu primeiro, numa ilustração numa banca, em Paris. Imediatamente lhe veio outra imagem, o mar de fogo.

Durante 50 anos, Limite viveu na sombra. Restaurado - pela fundação de Martin Scorsese, com apoio de Walter Salles -, Limite ganhou nova vida, novas telas para a decifração do seu mistério. Pizzini dedica seu curta de oito minutos a Saulo Pereira de Mello, que foi o guardião do tesouro cinematográfico de Peixoto. Ele utiliza imagens do filme e do making of que o diretor, um visionário, rodou simultaneamente. Mar de Fogo comunica-se! A plateia predominantemente jovem chegou nesta terça ao filme de Pizzini ao final de uma sessão de curtas - todos concorrendo ao Urso de Ouro da categoria -, e feitos dentro de uma mesma pegada. Muitas brincadeiras com o cinema, uma investigação do universo feminino, por meio de mãe e filha. Ao fim da sessão, e do debate, muita gente queria saber de Limite. Para essa garotada, a questão é - o filme está disponível para download na rede? Para Joel Pizzini, a questão é outra. A repercussão de Mar de Fogo em Berlim lhe dará força para viabilizar seu projeto Mundéu, inspirado no processo criativo do longa de Mário Peixoto?


Um grande festival como Berlim é feito de muitas seções, muitos formatos e experimentos. Houve aqui frissom com o concorrente alemão Victoria, de Sebastian Schipper. Uma mulher, uma cidade, uma noite, um plano. Victoria sai para dançar, envolve-se com um grupo de rapazes e eles a arrastam numa louca jornada. Um assalto a banco que desagrega o grupo e culmina em morte. Não há nada de relevante nessa experimentação do plano único, além do gosto de buscar formas diferentes de narrar. A forma pode até ser diferente, mas o que o diretor está dizendo, não. Wim Wenders recebe neste festival um Urso de Ouro honorário por sua carreira. Walter Salles, que apresenta seu documentário Jia Zhangke - Um Homem de Fenyang em Panorama Dokumente, foi convidado pelo festival, leia-se Dieter Kosslick, para entregar o Urso a Wenders.

No começo de sua carreira, Salles foi muito influenciado pelo cinema de estrada do autor alemão. Na apresentação de Um Homem de Fenyang, foi mais longe. Disse que o amor de Wenders por cineastas como Yasujiro Ozu e Nicholas Ray - poderia ter citado também Samuel Fuller - foi inspirador para que fizesse seu retrato do colega chinês. Salles transformou a homenagem do festival a Wenders num tributo pessoal. Depois do fiasco do épico de Werner Herzog, Rainha do Deserto, havia apreensão pelo que Wenders poderia apresentar em sua nova ficção. É seu melhor filme em anos. Ele gostou da brincadeira e, depois de Pina, retoma o uso do 3D, agora numa história mais intimista. Acompanhamos James Franco como um escritor, durante anos de sua vida, em Everything Will Be Fine.

No começo, ele está na direção do carro, numa paisagem nevada. Surge esse trenó. O herói respira aliviado quando resgata um menino debaixo do carro. Não percebe que há outra vítima. O filme acompanha em paralelo as vidas de Franco, enquanto ele amadurece como autor e adquire notoriedade, e a de Charlotte Gainsbourg, desenhista, mãe dos garotos. Wenders já filmou Ulisses e Telêmaco - em Paris, Texas. Volta à tragédia grega, que se passa em família. 

O problema é o ator, e não que James Franco não seja bom. O filme cobre um período longo, mais de dez anos. Existem momentos em que ele deveria ser mais maduro, fisicamente. Franco está no festival com diversos filmes (os de Wenders e Herzog, outro chamado I am Michael). Nos EUA, a revista Cineaste colocou na capa a chamada ‘What so queer about James Franco?’. Não é para patrulhar, mas porque esse namoro do ator, que também produz, com o universo LGBT, é único em Hollywood. Michael é militante gay. Franco adora esses personagens. Trafega por eles sem ficar rotulado, e isso é que a revista, e qualquer cinéfilo, acha raro no cinemão.

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