Black Filmes
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Curta de Afonso Poyart debate o futuro das próteses e o homem-máquina

'Protesys' fala sobre a eficácia dos aparelhos para atletas paraolímpicos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2020 | 05h00

É quase como se Cauã Reymond e Flávio Reitz se olhassem através do espelho. Ficam um de frente para o outro. O ator, um dos mais talentosos de sua geração, e o atleta paralímpico, que foi diagnosticado com um tumor na perna esquerda, quando adolescente, e teve de amputá-la. No futuro imaginado pelo diretor Afonso Poyart em Protesys, Flávio é cobaia num revolucionário experimento para testar a tecnologia de próteses biônicas. Olham-se nos olhos, Cauã e Flávio. São até parecidos, no porte, na beleza viril. Ambos agora completos, e Flávio corre para um salto olímpico que corta o fôlego do espectador.

Tudo isso ocorre num curta que está disponível online, desde o domingo, 30, no YouTube. “Queríamos lançá-lo nessa época para coincidir com os Jogos Paralímpicos de Tóquio, que agora ficaram para o ano que vem”, explica Poyart. Protesys foi concebido como embrião para um longa de ficção científica que o diretor planeja ambientar no universo dos paralímpicos, num futuro não muito distante. “O curta se passa num recorte de tempo anterior ao longa, quando as super próteses ainda estão sendo testadas e o esportista brasileiro Flávio integra-se ao grupo que participa do experimento. A trama do longa redesenha um mundo do esporte diferente do atual. “Graças às próteses de alta performance, os atletas paralímpicos passam a superar antigas marcas e estabelecem novos recordes. Tornam-se os novos deuses do estádio. A Paralimpíada torna-se o evento esportivo mais importante do planeta e os atletas sem próteses são relegados às sombras”, conta Poyart.

Nascido em Santos, em 1979, o diretor se iniciou como artista de motion graphics. Dirigiu videoclipes de artistas como Charlie Brown Jr. Estreou no curta com Eu Te Darei o Céu, de 2005, premiado em Gramado. Em 2012, outra estreia, no longa, com 2 Coelhos. Seguiram-se Solace – Presságio de Um Crime, em Hollywood, com Anthony Hopkins, Mais Forte Que o Mundo, a cinebiografia do lutador de MMA José Aldo, e, na TV, a série Ilha de Ferro, com Cauã Reymond como coordenador de produção numa plataforma petrolífera. Todos esses filmes e séries possuem grande potência visual. 2 Coelhos causou impacto pela ação e pelas referências que misturavam videogame, animação e até a série Star Wars. Poyart admite: “Gosto de testar meus limites contando visualmente as histórias, mas me interesso também pela superação de personagens como Aldo, Flávio. São histórias que possuem uma dimensão humana. É o que termina atraindo o público e permitindo a identificação.”

Em filmes como Rollerball, os Gladiadores do Futuro, de Norman Jewison, de 1975 – refilmado por John McTiernan, em 2002 –, e O Sobrevivente, de John Michael Glaser, com Arnold Schwarzenegger, de 1987, Hollywood já ficcionalizou o esporte numa era futurista, em que ele é manipulado por regimes totalitários. Poyart segue outro rumo. Mistura ficção e documentário e, na verdade, Protesys é um falso documentário. “A reviravolta ocorre quando Flávio é convidado por uma startup americana para integrar seu projeto de próteses biônicas. A Solidumbs é uma empresa fictícia e, por meio dela, a combinação homem-máquina alcança um resultado surpreendente”, diz Poyart. O salto final de Flávio é algo mágico, impressionante. “No filme, é um efeito especial, mas a pergunta que fica é real – qual será o limite para esses novos superatletas?” A pergunta deve ecoar no longa.

Até por sua origem de artista gráfico, Poyart possui grande controle da técnica e dos efeitos. Em 2 Coelhos, o protagonista – Fernando Alves Pinto – chegava a ganhar um alter ego no game, Detonando Miami, dentro do filme. O diretor agora caprichou no desfecho de Protesys – veja o curta. Relatando a experiências, Cauã diz que houve uma sinergia muito grande com o diretor. “Quando o Afonso me falou da ideia, achei genial e topei na hora.” E Flávio, sobre as próteses: “Espero que continuem evoluindo cada vez mais e proporcionem uma melhoria na qualidade de vida dos amputados”.

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