"Curta às Seis" abre para a Casa de Cinema

No início era uma cooperativa de cineastas - "um condomínio de produtores", como explica Ana Luiza Azevedo. Não apenas ela, mas Jorge Furtado, Luiz Pedro Goulart, Carlos Gerbase, Giba Assis Brasil e outros realizadores gaúchos possuíam as próprias empresas de produção. Como era caro mantê-las e eles também queriam criar uma estrutura de distribuição para os seus curtas, criaram a Casa de Cinema de Porto Alegre, que funcionou no começo como essa cooperativa ou condomínio. Veio depois a política cultural de terra arrasada do governo Collor. A atividade cinematográfica ficou mais difícil, senão impossível. Houve uma cisão do grupo inicial da Casa de Cinema. Uns foram fazer publicidade, mas permaneceu o núcleo básico dos que insistiam em fazer cinema.Essa é, em resumo, a história de uma das empresas produtoras mais conhecidas do País. Quando o assunto é curta, então, a Casa de Cinema de Porto Alegre tem histórias para contar (e mostrar). É por isso que o projeto Curta às Seis, do Espaço Unibanco de Cinema, inicia amanhã um programa intitulado Curta a Casa de Cinema. São quatro filmes - Cidade Fantasma, de Lisandro Santos, e Três Minutos, de Ana Luiza Azevedo, os dois de 1999, Deus Ex-Machina, de Gerbase, de 1995, e Ilha das Flores, de Furtado, de 1989. Com exceção do primeiro, só distribuído, os outros são todos produzidos pela Casa de Cinema. O último é o mais famoso deles. Afinal, ganhou o Urso de Ouro de curta-metragem no Festival de Berlim e correu mundo, sempre aclamado em festivais e programações especiais.Entrevistada pelo telefone, em Porto Alegre, Ana Luiza, que não é só diretora de Três Minutos, mas também diretora comercial da Casa de Cinema, destaca o que lhe parece mais importante nesse programa - é a diversidade, entendida no seu sentido mais amplo. São filmes diferentes, uns dos outros, e contemplam duas atividades da empresa gaúcha - a produção e a distribuição. "Embora a gente trabalhe muito em conjunto, uns ajudando nos projetos dos outros, nossos filmes são muito autorais", diz Ana Luiza. Ilha das Flores é um clássico. Foi o último filme produzido pela Casa de Cinema no seu estágio anterior. Os condôminos queriam realizar um filme, não tinham muito dinheiro, fizeram um concurso interno e o roteiro de Furtado foi escolhido. O curta é um documentário que discute os limites entre o falso e o verdadeiro, como todos os de Furtado. Um tomate é plantado, colhido, vendido e termina no lixo da Ilha das Flores, em Porto Alegre, disputado por crianças que querem se apossar de restos destinados aos porcos.Furtado conta que Ilha é um daqueles filmes que fogem ao controle do autor e ganham vida própria. Passa muito em escolas e programações paralelas. Ocorre que o diretor o veja, às vezes, mas só quando passa em cinemas, na tela grande. "A sensação que tenho é que o filme não é meu." Ele consegue vê-lo com distanciamento e, por isso mesmo, avalia Ilha das Flores com rigor crítico. "É muito barroco, muito cheio de detalhes, trabalha na junção de linguagens e possui várias camadas abertas à interpretação." Ao mesmo tempo, nessas andanças pelo mundo, com Ilha, ele já viu que o filme tem coisas que não o agradam tanto. "Acho que o sucesso lá fora está ligado à culpa do europeu em relação ao Terceiro Mundo."Reação contrária - Por isso mesmo, prefere Esta É Sua Vida, outro curta documentário que fez depois e que não deixa de ser o anti-Ilha das Flores. "Os personagens de Ilha são objetos de uma tese." Ele não os conhece e por isso fez, como uma reação, esse outro filme sobre uma mulher cuja vida vai sendo dissecada para que possa discutir, mais uma vez, a linguagem. No âmbito nacional, Deus Ex-Machina também é superpremiado, tendo conquistado quase todos os Kikitos do Festival de Gramado, no ano em que concorreu. E Três Minutos integrou a mostra competitiva de curtas do Festival de Cannes deste ano.Muitos curtas, a maioria deles lançada em vídeo, segundo blocos temáticos - Curta a Cidade, Curta o País, Curta o Amor, etc. Mas a Casa de Cinema também produz longas. O primeiro foi Tolerância, de Gerbase, lançado este ano. O filme, que teve boas críticas, fez modestos 85 mil espectadores - um número inferior à expectativa inicial da Casa de Cinema, mas que eles já esperavam, a partir do momento em que Tolerância, distribuído pela Columbia, foi proibido para menores de 18 anos, vetando a participação da faixa de público possivelmente mais interessada na trama envolvendo sexo, drogas e Internet.A Casa de Cinema tem mais dois longas em captação, ambos a ser dirigidos por Furtado. Houve uma Vez Dois Verões deve ser rodado em abril. O filme foi premiado no concurso de produções de baixo orçamento do Ministério da Cultura. Recebeu R$ 370 mil, que correspondem a 60% do orçamento. Os outros 40% estão sendo captados. Trata de adolescentes e será interpretado por atores desconhecidos. Furtado seleciona os intérpretes por meio de testes. Na quarta-feira, interrompeu um desses testes para falar ao telefone com a reportagem.O outro longa, mais caro, O Homem Que Copiava, está orçado em R$ 8,7 milhões, incluindo a verba de comercialização e lançamento. A Columbia e a Globo, para a qual Furtado trabalha, já estão associadas ao projeto e o elenco, parcialmente definido inclui Leandra Leal e Pedro Cardoso. A rodagem deve decolar em junho ou julho. Aclamado como curta-metragista, Furtado não acha que estará estreando no longa. Considera o especial Anchietanos, que fez na Globo, seu primeiro longa. E o segundo, a microssérie Luna Caliente, que a Globo pretende transformar em longa para cinema, como fez com O Auto da Compadecida. No mês que vem, Furtado começa o trabalho de edição com Giba Assis Brasil, o montador oficial da Casa de Cinema. Vão reduzir um trabalho de 2h40 para 30 minutos, pelo menos. E Ana Luiza também faz, em fevereiro, o novo curta da Casa de Cinema - é o infantil Dona Cristina Perdeu a Memória, que ganhou o prêmio da Secretaria de Cultura do Rio Grande para projetos no formato.

Agencia Estado,

21 de dezembro de 2000 | 20h03

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