Curitiba exibe primeiro "cyberfilme" brasileiro

Imagine assistir a um filme e poder construir sua história. Logo nos primeiros minutos, você decide o que o protagonista vai comer no café da manhã e depois a combinação da roupa do trabalho. Você escolhe os assuntos que ele vai conversar com os colegas, o tipo de mulher por quem vai se apaixonar e até como será a primeira relação sexual do novo casal. O final da história também está em suas mãos, podendo ser um melodrama, um psico-policial, terror ou comédia.É essa a proposta do jornalista curitibano Maurício Yared Rocha, diretor do www.virtualidadereal.com.br, primeiro cyberfilme brasileiro, terminologia que ele mesmo criou para definir um filme interativo, exibido pela Internet ou DVD.A versão de Rocha terá lançamento no sábado, às 19h30, no 6°. Festival de Cinema, Vídeo e DCine de Curitiba, que começa hoje. Ele concorre ao prêmio de melhor DCine - categoria chamada Cinema Digital, que inclui filmes escaneados digitalmente para película, como Caramuru e Avassaladoras.Estrelado por Luís Carlos Tourinho - o Ataíde do Sai de Baixo -, o Virtualidadereal é uma comédia de costumes, que leva ao extremo a dependência do homem por seu computador, ambientado no Brasil, num futuro próximo. "A quantidade de serviços oferecidos pela Internet será tão diversa que dispensará completamente a necessidade de sair de casa e, talvez, de se relacionar pessoalmente com os outros", acredita Rocha.Por isso, Tourinho é o único ator do filme. Ele interpreta o N.guima, um corretor da bolsa de valores que vive conforme sua época, ou seja, faz compras, se diverte e se relaciona com amigos e com as mulheres somente via Internet. Depois de uma noite calorosa de cybersexo, N.guima se apaixona por uma suposta internauta, Juliama, e pensa em largar o mundo virtual para conhecê-la pessoalmente.Com 30 minutos de duração, o filme tem sete pontos de interatividade e, dentro de cada ponto, de duas a sete opções de desfecho. O "grand finale" também pode ser construído a partir de sete formas. "O computador é um ser pensante que inventou essa mulher para fazer o personagem feliz. Em outra versão, ele encontra Juliama. Tem até uma em que meu personagem destrói a máquina", diz Tourinho.Um curta-metragem com um ator só pode até parecer chato, mas o diretor garante que esse tipo de filme não vai deixar ninguém dormir na cadeira. "De acordo com uma matemática consultada por mim, o Virtualidadereal tem até 6.300 combinações diferentes. Qualquer um vai querer fazer parte de um filme desse tipo."Rocha divide, desde 1998, seu trabalho de editor da ´Globonews´ com a pesquisa para montar o curta e garante que não achou nenhum filme do tipo no mundo todo. "Minhas fontes de pesquisa foram um professor da USP que estuda namoros virtuais e as salas de bate-papo", diz.Um novo mercado? - O custo do Virtualidadereal é de deixar qualquer diretor com inveja: R$ 250 mil, financiados pela Lei Rouanet e pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Curitiba. O tempo de filmagem? Cinco dias. "Apesar dessas vantagens, dá muito trabalho montar vários roteiros e deixar o curta atrativo." diz Rocha, que está pensando em fazer um filme baseado no jogo Detetive.O protagonista Tourinho, que também fez as vozes da mulher e dos amigos, aceitou fazer o filme assim que foi convidado e considera o cyberfilme mais uma porta para atores, roteiristas e diretores. "Além de ser um jogo interativo, esses filmes certamente são um novo mercado que vai dar certo."Enquanto outros diretores não se inspiram nessa idéia, Rocha prepara o lançamento do curta em DVD, que contém a versão interativa, a versão do diretor, making-of e os erros de gravação. O valor deve ser algo em torno de R$ 50. Para o final de junho, o Virtualidadereal terá lançamento no site - cujo endereço é o nome do filme. "Graças ao espaço para publicidade, o filme poderá ser assistido de graça", promete o diretor.Esse não é o primeiro trabalho de Rocha apresentado no Festival de Curitiba. Em 1996, ele produziu o curta Atraídos, com Herson Capri e Flávia Monteiro, e foi premiado com melhor montagem, fotografia e ator. Desta vez, o diretor não tem expectativas de prêmios, mas quer incentivar produtores a investir nesse formato. "É uma maneira de unir a interatividade da Internet ao entretenimento do cinema."

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