'Crônica de um Amor Louco' mostra um poeta despudorado perdido em LA

Filme de Marco Ferreri baseado em texto de Charles Bukowski vai ser exibido em versão restaurada no Cine Caixa Belas Artes, em São Paulo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

05 Setembro 2014 | 09h19

Há um culto a Marco Ferreri, mas o diretor italiano que morreu em 1997, aos 69 anos, nunca foi uma unanimidade. Nem poderia - desde o seu começo, na Espanha, em parceria com o roteirista Rafael Azcona, Ferreri foi sempre um contestador, ou melhor, provocador profissional. Na Itália, ele já se ligara aos neo-realistas, e a Cesare Zavattini, mas foi na Espanha, sob o franquismo, que começou a dirigir. Em 1961, El Cochecito, sobre um carrasco - dos outros como de si mesmo -, foi saudado como uma obra-prima na vertente de Luis Buñuel.

É bom lembrar isso agora que Crônica de Um Amor Louco está de volta, no Cineclube do Caixa Belas Artes (Rua da Consolação, 2423, São Paulo). O filme passa neste sábado, 6, às 22h30, e na quarta, 10, às 18h40. Os ingressos custam R$ 20 (R$ 10 a meia-entrada).

No começo dos anos 1980, a adaptação que Ferreri fez de um original do escritor norte-americano Charles Bukowski ganhou status de cult movie. Vale tentar reportar-se àquela época. Durante os anos 1960, e por meio de filmes como Leito Conjugal, La Donna Scimmia, O Homem dos Cinco Balões e Marcha Nupcial, Ferreri nunca parou de criticar a sociedade burguesa, e o casamento, e a condição da mulher no mundo machista. Chamavam-no de pessimista, de niilista. Ele retrucava - "Não sou otimista nem pessimista, marxista nem niilista. Sou realista." E acrescentava, com desdém - "O mundo é uma m..."

Em 1973, Ferreri radicalizou e fez La Grande Bouffe/A Comilança, sobre quatro amigos - Marcello Mastroianni, Ugo Tognazzi, Philippe Noiret e Michel Piccoli - que se trancam numa casa e comem até rebentar. O filme foi proibido no Brasil pela censura do regime militar, que não assimilou a escatológica denúncia que o autor fazia da sociedade de consumo. A Comilança só foi liberado em 1979/80 e, no intervalo, Ferreri já fizera quatro ou cinco filmes que prosseguiam com suas provocações. Só um ou outro chegou ao Brasil, e sem grande sucesso. Com Crônica, houve o estouro - maior até que a recepção a La Grande Bouffe. Um poeta (Ben Gazzara) numa viagem sem volta. O sexo, variação da comida, substituindo o banquete de A Comilança. Ele cruza com várias mulheres. Liga-se a uma prostituta, Ornella Muti. Entregam-se a jogos masoquistas. Mutilação, sexo anal.

O público brasileiro, livre da censura, começava a descobrir o cinema de sexo explícito - Garganta Profunda, O Inferno de Miss Jones etc. No bojo da liberação, foram vindo também A Laranja Mecânica, Último Tango em Paris, O Porteiro da Noite. Já num novo quadro, filmes como Crônica de Um Amor Louco foram se instalando no mercado - e conquistando um público que queria 'mais'. Trinta e tantos anos depois, Crônica volta para a prova definitiva. A 'América', os EUA, revistos por um italiano. O filme começa e termina em Los Angeles. Tanto pode ser a cidade real como um delírio cenográfico. Não é o menor dos atrativos do filme de Ferreri. Crônica de Um Amor Louco - no original, o amor é 'ordinário', no sentido de comum - tem algo da vertente pós-moderna da época. Ben Gazzara não era um grande ator, mas tem uma grande atuação - a melhor de sua carreira. Ornella Muti, uma das musas de Ferreri, além de bela, é despudorada. Sublime.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.