Críticos de Veneza aplaudem filme sobre índios brasileiros

Um novo filme italiano leva à tela oconflito entre índios e fazendeiros no Brasil, explorando ochoque entre dois mundos sobre o pano de fundo das disputaspela terra, o encolhimento das florestas e a miséria. "Birdwatchers", que faz parte da mostra competitiva doFestival de Cinema de Veneza, foi aplaudido calorosamentequando foi exibido para a imprensa na segunda-feira, gerandoesperança de que um dos quatro trabalhos italianos dacompetição oficial possa levar o prêmio máximo do festival, oLeão de Ouro. Ambientado no Mato Grosso do Sul, o filme foca um grupo deíndios guarani-kaiowá que não têm outra perspectiva na vidasenão trabalhar para fazendeiros, em condições de escravidão, eganhar alguns trocados posando para fotos com turistas. Impelidos pela fome e os suicídios que se repetem em suacomunidade, os índios decidem deixar sua reserva e acampardiante de uma fazenda para reivindicar a devolução de suasterras ancestrais. Metade documentário e metade ficção, o filme traz 230guaranis em seu primeiro trabalho como atores, ao lado deatores italianos e brasileiros, entre eles MatheusNachtergaele, em papéis secundários. Os atores falam suaslínguas locais, e o filme é legendado. O diretor italiano Marco Bechis, filho de mãe chilena quecresceu no Brasil, disse que seu filme trata "dos sobreviventesde um dos maiores genocídios da história." Quando os portugueses chegaram ao Brasil, em 1500, apopulação indígena era de estimados 5 milhões de pessoas. Aolongo dos séculos os índios foram escravizados, foram alvos decampanhas de extermínio e vítimas das doenças e do descaso. Hoje, segundo o grupo Survival International, eles chegam acerca de 460 mil, de mais ou menos 230 tribos. SUICÍDIOS Os principais personagens guaranis, que viajaram a Venezapara a estréia do filme, descreveram sua situação numa coletivade imprensa em clima de emoção. "Me faz chorar saber que tantas crianças estão morrendo,tantos de nós estamos morrendo", disse Eliane Jucá da Silva,fazendo força para não chorar. "Somos seres humanos, não apenasíndios. Temos pensamentos, idéias, nossa cultura, nossa língua.Só queremos uma possibilidade de continuar a viver." "Vocês brancos -- nós vestimos suas roupas, comemos comovocês, e por que isso? Porque nossa terra, nossa floresta queera cheia de árvores, não existe mais", disse ela, falando coma ajuda de um intérprete. "Só queremos um pedaço de chão paraplantar nossas roças e caçar." "Birdwatchers" mostra a devastação causada pelo álcool e adepressão na comunidade indígena, onde aumenta o número desuicídios de jovens frustrados por viverem em reservas, semconseguir alimentar suas famílias e confusos pelo mundodiferente que os cerca. "Os suicídios acontecem porque não existe justiça. A únicajustiça é para os empresários que investem bilhões", disseAmbrósio Vilhalva, que representa Nádio, o chefe guarani quelidera a revolta. Bechis disse que seu filme mostra que a cultura dosindígenas não desapareceu, apesar de eles frequentemente usaremroupas ocidentais. "Talvez estejamos acostumados demais a vê-los com penas eflechas, sendo que eles só se fantasiam assim para que osfotografemos. Acho que a intensidade de suas tradiçõesreligiosas, espirituais e culturais se mantém quase intacta." "Birdwatchers" é um dos quatro filmes italianos dacompetição principal. Os dois outros exibidos até agora,"Giovanna's Father", de Pupi Avati, e "A Perfect Day," deFerzan Ozpetek, dividiram a opinião dos críticos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.