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Críticos comentam o último 'Hobbit'

Equipe do 'Caderno 2' escreveu sobre o filme de Peter Jackson, que estreia nesta quinta-feira, 11

O Estado de S. Paulo

11 Dezembro 2014 | 03h00

Tudo é grande, mas o olhar revela o intimismo

Na coletiva de O Hobbit – A Batalha dos Cinco Exércitos, em Londres, Ian McKellen corrigiu os jornalistas que insistiam em tratar o filme como ‘franquia’, no estilo de Jogos Vorazes, ou Divergente, ou mesmo Star Trek e Star Wars. O velho ator, militante gay que virou ícone portando o bastão e o chapéu de Gandalf, o Cinzento, citou O Hobbit e O Senhor dos Anéis como ‘sagas’. É preciso reportar-se ao sentido amplo da palavra, lenda antiga acerca de feitos heroicos.

Talvez se pudesse acusar Peter Jackson de estar fazendo um cinema de outras eras, ao evocar grandes reis e heróis trágicos. A grandeza humana não parece material de exaltação numa era de tanta pequenez moral. Mas ele com certeza não está sendo obsoleto. Se fosse, seus filmes não falariam ao público, não seriam eventos planetários. No livro, Bilbo desfalece em plena batalha e só sabe do resultado depois. No filme, permanece lúcido. Faz uma diferença e tanto.

Ao criar línguas que precediam suas histórias, Tolkien tomou como modelo primevo Homero. Peter Jackson reconhece a herança, mas a ambição desmedida de Thorin faz dele um complexo personagem shakespeariano. Na linhagem de Arwen e Galadriel em O Senhor dos Anéis, Tauriel (Evangeline Lilly) é outra heroína feminista do diretor. A elfa ama o anão Kili. Pertencem a espécies diferentes, a relação é impossível, o sentimento é real. Expressa-se pelo olhar.

É tudo grande no Hobbit 3 – grandes batalhas, paisagens. Quem olhar sem preconceito, será tocado pelo intimismo. A derradeira troca de olhares entre Tauriel e Kili vale por uma definição de cinema. / LUIZ CARLOS MERTEN

Para resumir o filme: é muito barulho por nada

A Batalha dos Cinco Exércitos é a última parte de uma trilogia baseada em um único romance, O Hobbit, de Tolkien. Falta assunto, sequela óbvia em projeto tão alongado por razões comerciais. Um filme liquidaria a questão, assim como um livro bastou ao autor. Mas e a grana que se poderia auferir desmembrando-o em três? Como resistir? Daí a questão, difícil de ser equacionada: de que maneira preencher o tempo necessário a mais esta variante da franquia? Como encher linguiça, sem parecer que é isso que se está fazendo? Acumulando lutas sobre lutas. Efeitos especiais sobre efeitos especiais. Barulho, destruição, porradas, etc. E daí?, se pergunta o espectador não fanático, depois da enésima batalha. Daí, nada. Niente. Coisa nenhuma.

Nesse ambiente mítico, criado por Tolkien, trata-se, mais uma vez, de evitar que o mundo seja destruído. Mal contra o Bem, dicotomia tão antiga como a humanidade, insuficiente para nos poupar do sentimento de repetição. Peter Jackson poderia ter inventado um pouco mais para não ser redundante. Mas, enfim, por que o faria? 

Para não dizer que não falei de flores: as sequências finais, que convém não revelar, são tocadas por uma suave melancolia, que contêm até mesmo alguma beleza. Mas de fato é muito pouco para um filme extenso, cansativo e desprovido de sentido. É possível e até provável que os adeptos da franquia gostem. Gostam por antecipação, sem precisar ver o filme, na verdade. É uma espécie de adesão religiosa, sustentada por convicção prévia e inabalável. Ato de fé. Para os leigos, estranhos à seita, sobra o vazio. / LUIZ ZANIN ORICCHIO

Jackson soube levar a obra de Tolkien para as massas 

Até o mais ferrenho fã dos escritos de J.R.R. Tolkien sabe que a literatura do inglês que revolucionou a fantasia no início do século passado poderia ser de difícil digestão. É certo que não foram poucos aqueles que abandonaram a leitura do calhamaço que é O Senhor dos Anéis lá pela metade (ou antes das primeiras 100 páginas, não duvido). 

E aí está o mérito de Peter Jackson e companhia com esse “calhamaço cinematográfico” que se tornou a cinessérie completada com o terceiro filme de O Hobbit, nos cinemas do País a partir desta quinta. A popularização das maravilhas boladas por Tolkien, um ex-soldado que lutou na 1ª Guerra Mundial – daí as excelentes narrativas de batalha dos livros – e linguista de primeira linha, é um favor ao escritor. 

Os detratores da produção de Jackson, principalmente da segunda trilogia, deveriam entender que estamos lidando com duas linguagens diferentes aqui, literatura e cinema. Se os textos de Tolkien não conseguiram atingir as massas em cheio, Jackson o fez com maestria. E parem de se preocupar com a elfa que não está nos livros. Definitivamente, não vale a pena. / PEDRO ANTUNES 

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