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Críticos avaliam 'Últimas Conversas', último documentário de Eduardo Coutinho

Filme inacabado do diretor, ‘Últimas Conversas’ contou com o cineasta João Moreira Salles em sua conclusão

O Estado de S. Paulo

03 de maio de 2015 | 03h00

Gostei: O que se vê é uma tocante interação humana 

Luiz Zanin Oricchio

Eduardo Coutinho não teve tempo de finalizar Últimas Conversas. Morreu assassinado. Obviamente, o próprio título não é dele e sim de quem assumiu a finalização – o cineasta João Moreira Salles e a montadora Jordana Berg. Dois amigos íntimos e colaboradores de Coutinho, o que dá um selo de autenticidade ao trabalho. 

Mesmo assim, há diferenças. Nessa despedida não planejada, Coutinho torna-se, ele próprio, personagem do documentário, o que jamais faria fosse ele o autor da montagem. Nas imagens iniciais, assistimos então a um Coutinho cético, ranzinza e muito desconfiado acerca do material coletado até então. Até aí, nada de novo. Coutinho vivia em geral desconfiado do material. Era muito reticente durante a filmagem de Edifício Master, que, enfim realizado e lançado, se tornaria um dos títulos mais queridos de sua filmografia. Está tudo registrado no ótimo documentário de Beth Formaggini, Coutinho.doc - apto. 608. 

De toda forma, aos trancos, Coutinho põe em movimento o dispositivo que o tornou um dos documentaristas mais celebrados do mundo. Cenário simples, exíguo mesmo. Uma cadeira para o entrevistado, a sala vazia, a porta ao fundo. Desta vez, os interlocutores são jovens, adolescentes ainda, entrando na idade adulta. E, mais uma vez, o que constatamos, é o extraordinário “conversador” que era Coutinho. Desta vez, falando talvez um pouco mais que em outros filmes, consegue criar um raro clima de confiança, no qual simplesmente as pessoas se abrem – diante dele e do olho da câmera. 

O que se vê então, conversa após conversa, é uma interação humana das mais tocantes, entre jovens sonhadores e inseguros, e um senhor já muito velho, avô anônimo que, no entanto, desperta nelas o desejo de falar de si mesmas, do futuro e dos medos, das inseguranças e da esperança. É comovente e é, também, um painel revelador da juventude brasileira. Um belo legado, diga-se o que se disser. 

Coutinho evitava entrevistar gente que tinha alguma coisa a perder – políticos, pessoas ricas, famosos. Aspirava, talvez, a uma pureza absoluta de diálogo que, acreditava, encontraria apenas na infância, no diálogo com crianças. De certa forma, este filme é como a realização póstuma desse desejo.











Não gostei: não é o Coutinho que tão bem interage em ‘Edifício’ 

Luiz Carlos Merten

Para o estudioso de cinema – e para o cinéfilo que, ao longo dos anos – aprendeu a amar Eduardo Coutinho, um filme como Últimas Conversas não deixa de encerrar um interesse especial. Revela o homem no seu estágio final e o artista num momento crítico de sua vida (e carreira). 

Coutinho abre o filme duvidando do filme que está fazendo. E ele está obviamente esgotado. Percebe-se a sua fragilidade, basta comparar essas últimas conversas com as de seus maiores filmes – Edifício Master e Jogo de Cena.

Em diversos momentos, Coutinho precisou se reinventar, e isso desde que as filmagens de Cabra Marcado para Morrer, a ficção, foi interrompida pelo golpe (cívico) militar. Não há por que duvidar que ele não pudesse se reinventar mais uma vez. Era até um desejo de seus admiradores, que superasse os problemas de saúde e a crise doméstica que tão brutalmente terminou por se abater sobre ele. 

Não existe resposta para essa dúvida shakespeariana – ser ou não ser? –, que haverá de nos perseguir sempre. Mas o próprio filme aponta para alguma coisa. A última das últimas conversas, com a garota, satisfaz o mestre. Por um momento, Coutinho parece confiante, recupera a alegria.

Na entrevista, a montadora Jordana Berg observa, e é verdade, que se percebe ali um fragmento do filme que Coutinho tinha na cabeça – mas não logrou realizar. É o triste de Últimas Conversas. 

O filme dá voz a jovens brasileiros egressos dessas camadas mais pobres que, nos últimos anos, ascenderam socialmente. A nova classe média. O que pensam, o que sonham. Por maior e mais importante que seja o Cabra, Coutinho ainda não era Coutinho, no sentido de que ainda não sabia entrevistar. É uma afirmação polêmica? Com certeza. 

Mas o Coutinho que tão bem interage em Edifício Master e Jogo de Cena também não está presente em Últimas Conversas. Há algo triste, doloroso; Coutinho não gostava dos gran finales. Mas se era para fechar sua obra, eu, pelo menos, preferiria vê-lo rir como Jordana Berg, na entrevista, lembra que riu na ilha de edição do Edifício.

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