Críticas ao governo e compromisso social marcam o 3º Congresso de Cinema

Antes mesmo do encerramento do 3.º Congresso Brasileiro de Cinema, o presidente do evento, cineasta Gustavo Dahl, dizia que a simples realização do fórum reunindo a classe cinematográfica na capital gaúcha já tinha um caráter de independência em relação ao governo. O congresso terminou no sábado à noite. A previsão era de que se encerrasse às 18 horas. Um jantar estava marcado para as 20 horas, seguido de um show musical, às 22 horas. A agenda foi atropelada pela realidade da discussão. A redação do documento final prolongou-se até poucos minutos antes da meia-noite. Apesar da hora, e do cansaço de um dia inteiro de trabalho, o povo saiu para festejar.Gustavo Dahl fez a síntese do que foi o 3.º Congresso: "Estamos voltando as costas para o governo e ficando de frente para a sociedade". As críticas ao governo e a confirmação do compromisso social deram a tônica do evento. "Estamos aqui fazendo política, exigindo desse governo a formulação de uma verdadeira política cultural e não apenas cinematográfica", disse um participante do Rio. Ainda bem que o secretário José Álvaro Moisés, do Audiovisual, deixou Porto Alegre na sexta-feira de manhã. Evitou o constrangimento de ter de ouvir duras críticas não só ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, mas também à atuação de sua secretaria. Como organismo gestor do cinema brasileiro, a Secretaria do Audiovisual é ineficaz, inoperante, incompetente. Todos esses adjetivos foram usados (e gastos). Por isso mesmo, duas das mais importantes decisões do congresso, expressas no documento final, foram a demanda pela criação de uma agência para substituir a secretaria como entidade fomentadora e reguladora do cinema brasileiro e o repúdio da classe à Comissão de Cinema da Secretaria do Audiovisual. Formada por representantes de diversas categorias profissionais ligadas ao cinema, a comissão tem caráter consultivo e não deliberativo.Só que, segundo os depoimentos unânimes de todos os oradores, o governo ignora sistematicamente todas as sugestões e recomendações da comissão e a usa somente para maquiar com pinceladas de democracia o autoritarismo de decisões que ignoram, sempre, as reivindicações da classe. A resolução do congresso foi encaminhar, a todas as entidades que compõem a comissão, um pedido de renúncia coletiva para marcar uma posição firme da classe.Documento - De cara, o documento final destaca que a comunidade cinematográfica brasileira, reunida no 3.º Congresso Brasileiro de Cinema, "numa posição de unidade nacional, manifesta sua preocupação com a grave situação da atividade cinematográfica, que afeta todos os setores e ameaça mais uma vez a continuidade e a existência do nosso cinema". O momento se caracteriza "pela paralisação da produção, pelo descontrole dos mecanismos de mercado, pela falta de informações a respeito da própria realidade do mercado, pela ausência sistemática do cinema brasileiro da tela da TV e pelo esgotamento das leis atuais de incentivo". E o documento prossegue: "Todos esses problemas se devem em grande parte à deficiente forma de relacionamento do setor cinematográfico com o governo e também à fragilidade do atual órgão governamental responsável pela política do cinema no Brasil, a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura". Após a introdução, o documento traça o diagnóstico - "Atualmente, mais de 90% do mercado brasileiro de salas de cinema é ocupado pelo filme estrangeiro; o setor cinematográfico e o próprio governo estipularam atingir a meta de 20% de ocupação do mercado para filmes brasileiros, mas não são tomadas medidas efetivas para tornar essa meta viável".Na manhã de sábado, ao participar do painel sobre cinema e televisão, Cacá Diegues disse que, ao estabelecer somente mecanismos de captação (que, assim mesmo, estão esgotados - a Lei do Audiovisual), o governo talvez tenha criado um fato raro - uma verdadeira indústria de filmes inéditos. Isso porque o governo nada fez para regularizar o mercado. Sem isonomia de mercado, que o governo não quer ou não se preocupa em estabelecer, o cinema brasileiro permanecerá sempre marginal.Cacá, ainda para ficar na apreciação, observou que hoje só 25% da renda de um filme vem da exibição em salas de cinema. Os 75% restantes vêm dos chamados mercados paralelos (vídeo, DVD televisão), dos quais o cinema brasileiro está alijado. Mesmo os 25% são hipotéticos, pois hoje o mercado está reduzido a cerca de 1600 salas, com uma freqüentação anual de cerca de 70 milhões de espectadores, dos quais menos de 10% assistem a filmes brasileiros. Não assistem por falta de informação (quase não há verba para comercialização e os filmes não circulam na mídia, especialmente televisiva), porque o preço do ingresso é caro e as salas hoje concentram-se em shoppings e não na periferia, para atender ao público popular, que sempre foi cativo do cinema brasileiro. Em bom português, o público de classe média para cinema que freqüenta shoppings já teve suas cabeças e mentes colonizadas por Hollywood e só sonha com a grande cultura produzida em Miami, ironizou Cacá. Sem a televisão, o cinema brasileiro não se viabiliza, é outra conclusão unânime do congresso, tão consensual quanto a necessidade de criação de uma agência. O que pode mudar é a forma como uns e outros querem que funcione essa agência ou se dê a sinergia entre cinema e TV. Foram propostos no documento final, com cerca de 70 pontos (havia mais, mas foram retirados, contemplando ensino, pesquisa e exibição), um fundo de cinema com verba retirada do faturamento publicitário das televisões e a obrigatoriedade de exibição do produto nacional independente na TV (que hoje produz a própria programação ou importa enlatados a preços de banana, porque esses filmes já vêm pagos do mercado externo).Por decisão da plenária o congresso do cinema brasileiro torna-se permanente e passa a ser o legítimo interlocutor da categoria com o governo. Outro congresso já está marcado para o ano que vem, no Rio. Justamente no Rio, terça-feira, o produtor Luiz Carlos Barreto, que passou brevemente pelo congresso - fazendo um diagnóstico brilhante da situação do cinema brasileiro atual -, anuncia, na sede da Firjan (Federação das Indústrias do Estado), a criação de um canal Mercosul. Inicialmente produto de uma associação entre Brasil e Argentina, o canal pretende veicular só a produção audiovisual do Mercosul.

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