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Crítica:'A Vida em Família', de Edoardo Winspeare, mostra o poder da poesia em um mundo bruto

No cotidiano vazio da cidadezinha onde nada parece acontecer, emerge a poesia e a necessidade da beleza

Luiz Zannin Oricchio, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2018 | 06h00

O título original italiano de A Vida em Família tem duplo sentido. La Vita in Comune quer tanto dizer “a vida em comum”, como “a vida na comuna”. Ou seja, na cidadezinha do sul, a imaginária Disperata, cuja imagem emerge no retrato traçado pelo diretor Edoardo Winspeare

A história começa com uma desastrada tentativa de assalto a posto de gasolina, que deixa uma vítima. Um dos assaltantes é preso, o outro escapa. São irmãos. A cidade é governada pelo prefeito Filippo Pisanelli (Gustavo Caputo), pouco à vontade no cargo, pois sua real vocação é a poesia. Ele faz trabalho voluntário na prisão, ensinando literatura aos encarcerados. É lá que conhece um dos assaltantes, Pati (Claudio Giangreco), que se torna adepto da arte. O outro ladrão, Angiolino (Antonio Carluccio), o que escapou impune, sonha voos mais altos na carreira criminal, embora tenha devoção pelo papa Francisco. 

De cara já se nota que Winspeare tenta fazer um retrato leve, cômico e ligeiramente surreal de um daqueles cantos esquecidos do país. A Vida em Família parece um daqueles exemplares da commedia all’italiana, que projetaram nomes como Mario Monicelli e Dino Risi para além dos limites estreitos do cinema dito comercial. Faziam filmes destinados ao grande público, engraçados, muito bem construídos e com um invariável retrogosto crítico. 

Assim também é A Vida em Família. No cotidiano vazio da cidadezinha onde nada parece acontecer, emerge a poesia e a necessidade da beleza. Há o prefeito, claro, homem lido e culto, muito pouco à vontade num cargo que lhe exige paciência com vereadores ignorantes e/ou corruptos. Mas há também o estroina conquistado pela beleza das palavras, o que pode ser visto como um pequeno milagre da arte. Através de seus versos ingênuos, Pati consegue dar outro sentido à sua própria existência. E, talvez, também, à de seus conterrâneos. Enfim, é a poesia (a arte) brotando em terreno árido e arejando um mundo embrutecido.

O segredo de Winspeare é trabalhar com roteiro enxuto e filmagem despojada, capazes de dar vazão à espontaneidade dos atores. Trabalha em registro quase neorrealista na captação do cotidiano das gentes, da maneira como se vestem, se relacionam, comem, falam e imprecam uns contra os outros – mantendo intacto o acento dialetal da região.

Há traços da Itália meridional vista de maneira ainda folclórica, com seu maneirismo de gestos e explosões emocionais. Difícil se livrar disso (no entanto, uma escritora napolitana, a misteriosa Elena Ferrante, o conseguiu). 

O gosto ácido vem de certa naturalização do crime, visto como via de escape inevitável em ambientes estagnados. Já a redenção pela arte, ainda que problemática, expressa a esperança crítica que mora no fundo do peito de todo humanista. 

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