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Crítica: Woodstock ofuscou matéria-prima deste belo documentário

Harlem Cultural Festival foi um ato revolucionário com os artistas no palco em defesa de direitos

LUIZ CARLOS MERTEN, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

25 de janeiro de 2022 | 05h00

Mahalia Jackson fechou a década de 1950 cantando no funeral de Annie Johnson/Juanita Moore no sublime melodrama Imitação da Vida, que marcou o adeus de Douglas Sirk à “América” e ao cinema. O racismo estava no centro da trama e também as transformações dos costumes que marcariam os anos 1960. Mahalia fecharia os 60 cantando com Mavis Staples. Esse momento único ficou oculto por mais de 50 anos e agora está sendo resgatado no belíssimo documentário que estreia nesta quinta, 27. 

No site Rotten Tomatoes, Summer of Soul teve 98% de aceitação. Para o crítico do jornal britânico The Guardian, pode ser o melhor filme de concerto já feito. Mas, então, por que permaneceu tanto tempo oculto, apenas uma referência para quem esteve lá? O subtítulo ajuda a explicar. Quando a Revolução não Pôde Ser Televisionada. Em 1969, milhares de jovens participaram de três dias de paz, amor e música em Woodstock. Grandes nomes se apresentaram naquele festival, que virou filme de Michael Wadleigh. A cobertura da mídia foi imensa. Houve até uma ficção – Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee. 

Naquele mesmo verão, houve outro festival num parque de Nova York. O Harlem Cultural Festival desenvolveu-se ao longo de seis (fins de) semanas. Seus registros só foram encontrados recentemente. O material foi recuperado e virou filme de Ahmir Questlove Thompson. Está no streaming, mas a alma de cinéfilo do exibidor Adhemar Oliveira está levando The Summer of Soul para os cinemas. Woodstock não foi só registro musical. Os três dias de paz e amor valem como documento do sonho hippie e das mudanças de comportamento que já vinham caracterizando os anos 1960 – Woodstock ocorreu após o célebre Maio de 68.

O Harlem Cultural Festival também não foi só um festival de música negra. Com os artistas no palco e suas narrativas em defesa de direitos, foi um ato revolucionário. Sem apoio da mídia, foi ofuscado por Woodstock. Muita gente que fazia parte do público hoje avalia o que foram aqueles dias. A segurança do festival foi feita por integrantes dos Panteras Negras. Cabelos e roupas viraram ferramentas de afirmação de identidades, e atitudes. O festival começa com Stevie Wonder, e termina com ele, de novo. Stevie, Mahalia, Nina Simone. Nina martelando aquele piano talvez seja a imagem definitiva que Ahmir Questlove quis trazer para as novas gerações. Naquele palco, o que está sendo contada é uma história de luta.

Paralelamente, as imagens documentam os assassinatos de John Kennedy, Martin Luther King, Malcolm X, Bobby Kennedy. A grande e a pequena história. Como a música religiosa impregnou o spiritual, o soul. Mahalia e Mavis – Take My Hand oh Precious Lord. É maravilhoso. 

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