CRÍTICA - Uma história que não pode se resolver na ficção

Rita Batata recebeu diversos prêmios de interpretação por seu papel como a defensora pública - a dra. Helena - de De Menor. De cara, o espectador tende a achar que Rita é muito jovem para o papel, mas, como a diretora Caru Alves de Souza esclarece na entrevista acima, talvez não seja tanto a juventude, mas uma certa ideia de fragilidade. O espectador pergunta-se se dra. Helena vai dar conta de tudo o que está ocorrendo em sua vida pessoal e profissional. A vulnerabilidade humaniza a personagem, deixa-a mais próxima de nós, o público.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

03 Setembro 2014 | 19h22

Desde Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco, no começo dos anos 1980, e 20 anos mais tarde, com Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, o cinema brasileiro tem tentado dar conta da violência da infância carente. Tem havido, na sociedade, um debate sobre a redução da maioridade penal. Embora o filme não trate diretamente do assunto, ele está embutido no tratamento que Caru dá à história da dra. Helena. Ela está sempre defendendo suas crianças e adolescentes, tentando resguardá-las no regime de liberdade assistida. Caru é contra a redução penal, como também seria sua personagem. “Nãããoooo. É irresponsabilidade querer enviar menores para a cadeia com o sistema penitenciário vigente no País."

De Menor destaca-se desde logo como um dos filmes mais econômicos do cinema recente. Não se fala aqui de economia de produção, mas de narrativa. O filme é curto (na duração), construído em planos sequências que tomam seu tempo. A diretora define De Menor como ‘enxuto’ e diz que seu partido, ao adotar o plano-sequência, era permitir que os atores tivessem mais tempo com os personagens em cena. O desenho de som é rigoroso, as interpretações, impecáveis - o garoto Giovanni Gallo é uma revelação. Tudo isso deve ter contribuído para o Redentor de melhor filme que De Menor recebeu no Festival do Rio, no ano passado.

Na entrevista, Rui Ricardo Dias, que faz o promotor, conta que seu primeiro movimento foi construir o personagem à americana, como essa figura aparece representada no cinema de Hollywood. Incisivo, forte. Mas se há uma coisa que Caru Alves de Souza evita são os clichês de cinema, mesmo aquela visão da infância, embasada na realidade, que Babenco e Meirelles mostraram em seus filmes. Caio não é Dadinho, ex-João Pequeno.

O filme de Caru também vem embasado na realidade, em pesquisas que ela fez no Fórum de Santos, acompanhando casos (e quatro ou cinco deles são ficcionalizados). O título refere à condição de menores de idade dos personagens que atraem a atenção da dra. Helena. Mas o de menor talvez seja também um tom, uma delicadeza na abordagem de seus temas. De Menor não quer alardear. É inconclusivo porque a história desses garotos e garotas não deve se resolver na ficção, mas na realidade, aqui fora. A última palavra deve ser nossa, do público.

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