Crítica: Três magníficos verbos na saída de cena de Alain Resnais

'Amar, Beber e Cantar' é o feliz testamento do diretor francês

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 de julho de 2014 | 02h00

Amar, Beber e Cantar – com esses três (magníficos) verbos, Alain Resnais sai de cena. Deixa como testamento esse filme feliz, um vaudeville de classe, mais uma vez adaptado de um texto do inglês Alan Ayckbourn, o mesmo que o inspirou em Smoking/No Smoking e em Medos Privados em Lugares Públicos. Este último, como se lembra, foi um dos maiores sucessos do cinema “cult” no Brasil, tendo ficado mais de três anos em cartaz no Cine Belas Artes.

Nesta nova peça inspirada em Ayckbourn temos uma situação insólita. Três casais, que se ocupam de afazeres diversos, mas, entre eles, também do ensaio de uma peça teatral. Há um personagem misterioso, George Riley, que nunca aparece, mas é, de fato, quem comanda a cena. Amigo dos homens, ex-amante ou ex-marido das mulheres, George está condenado. Padece de uma doença terminal, que lhe dá seis meses de vida, no máximo.

Para amenizar seu fim, os amigos e as amigas decidem convidá-lo a participar da peça. George aceita. Mas também alimenta outros planos suplementares. Resolve tirar suas últimas férias, no balneário espanhol de Tenerife. E, para companhia, convida as três mulheres, para desolação dos maridos e sem que uma saiba da outra. George, ficamos sabendo pelo que dele dizem os personagens, é um bon vivant de primeira, mulherengo, um apaixonado pela vida. Ou seja, um tipo a quem não se pode impunemente confiar a própria mulher, mesmo que ele não esteja, digamos assim, no melhor de sua forma. Um velho sedutor moribundo ainda é um Don Juan. Ou assim julgam os amigos, compreensivelmente preocupados.

Essa é a situação que move os personagens. Com seus conflitos e suas recordações, todos na alta idade média de suas vidas e interpretados por alguns membros cativos da trupe de Resnais – sua mulher, Sabine Azéma e André Dussollier, entre outros. A “família” Resnais, que se entendia tão bem e tocava por música em seus filmes recentes.

Como em outros trabalhos do diretor (e toda a série adaptada de Ayckbourn), o décor é artificial. Estamos no mundo do teatro, obviamente, embora haja algumas cenas “externas” de York, no interior da Inglaterra, onde acontece a ação. Muitas vezes, quando um dos personagens diz sua fala, vemos um painel desenhado ao fundo, destacando-o da paisagem. O contorno das casas é também desenhado, assim como as variações advindas da mudança das estações, da primavera ao outono.

Como em Smoking/No Smoking, ou em filmes como Mélo, Resnais trabalha o artificialismo do cenário como estratégia para destacar os encontros e desencontros dos personagens em seu estado puro. Joga com essa suspensão da desconfiança, maior no teatro que no cinema, este mais habituado ao tratamento realista ortodoxo, que “encobre” seu caráter de representação e tenta levar o espectador ao máximo a uma sensação de imitação da realidade. Resnais contesta sinuosamente esse simulacro.

E, assim fazendo, brinca com os sentimento da plateia. É como se nos disséssemos: “Tudo é artificial, tudo é encenação e, assim mesmo, nos sentimento emocionados, nos identificamos com os personagens, gostamos de uns e desgostamos de outros, rimos com eles ou deles”. É a velha magia do teatro transposta para o cinema. Na verdade, o diretor francês brinca, e experimenta uma linguagem que fica entre as duas artes. Não por acaso, uma das personagens, logo ao final, pergunta ao marido se ele gostou da peça encenada no filme (da qual pouco sabemos, assim como do personagem George Riley) e ele responde: “Bem, prefiro o cinema”.

Mais uma brincadeira dessa saída de cena feliz. Um filme de estranha leveza, que parece dirigido por um jovem e não por um senhor de mais de 90 anos. Resnais, autor de obras-primas como Hiroshima, Meu Amor, O Ano Passado em Marienbad e tantas outras, escolheu a sabedoria da leveza para dar as pinceladas finais em sua passagem pela vida e pela história do cinema. É brilhante.

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